Uma primeira em Portugal: “O Tigre” Djibrilo Iafa orientou o Mega Treino que fechou o Estágio Internacional de Tomar
A 16 de julho, o Pavilhão Municipal Patrícia Sampaio, em Tomar, recebeu duas horas de Judo Adaptado aberto à comunidade, orientadas por Djibrilo Iafa, "O Tigre", medalha de bronze paralímpica em Paris 2024. Foi a primeira vez que uma iniciativa deste género encerrou um estágio internacional em Portugal, e um momento que juntou, no mesmo tatami, atletas de Judo Adaptado, competidores, treinadores e público em geral.
A 16 de julho, o Pavilhão Municipal Patrícia Sampaio, em Tomar, recebeu duas horas de Judo Adaptado aberto à comunidade, orientadas por Djibrilo Iafa, “O Tigre”, medalha de bronze paralímpica em Paris 2024. Foi a primeira vez que uma iniciativa deste género encerrou um estágio internacional em Portugal, e um momento que juntou, no mesmo tatami, atletas de Judo Adaptado, competidores, treinadores e público em geral.
Duas horas de tatami, uma honra para os dois lados
O Mega Treino fechou o XX Estágio Internacional de Judo da Associação de Judo do Distrito de Santarém, e foi Djibrilo Iafa quem o conduziu, entre as 10h e as 12h. Recentemente certificado como treinador, foi a primeira vez que orientou uma sessão com esta dimensão e visibilidade, e a emoção notou-se na forma como descreveu o convite.
“Fiquei muito feliz pela AJDS me ter convidado. Foi uma honra muito grande ter estado a partilhar o meu judo com tantos judocas e a aprender também com eles. Eu concluí recentemente o meu curso de treinador e foi um enorme prazer estar a orientar aquele treino.” – Djibrilo Iafa
A preparação da sessão exigiu um exercício de equilíbrio: conciliar exercícios e técnicas acessíveis a todos os participantes com propostas mais exigentes, à altura dos judocas de competição presentes na sala. “A minha preocupação foi a de conciliar alguns exercícios e técnicas simples que fossem acessíveis a todos com outros exercícios e técnicas mais complicadas que fossem ao encontro daquilo que os judocas competidores presentes gostariam de treinar”, explicou.
Questionado sobre as diferenças entre orientar um treino aberto à comunidade e o treino de alta competição a que está habituado, enquanto atleta paralímpico em plena preparação para novos objetivos, Djibrilo Iafa foi direto: “O treino de alta competição é obviamente mais intenso e com trabalhos específicos tendo em conta as competições seguintes e os potenciais adversários. Um treino aberto à comunidade é mais descontraído. Mas judo é sempre judo, e há sempre pontos de contacto independentemente do tipo de treino.”
A resposta de atletas, treinadores e público às duas horas de treino foi, segundo o próprio, muito positiva: “pelo menos as pessoas que falaram comigo foram muito amáveis e fizeram elogios muito simpáticos”, contou, entre sorrisos. E a mensagem que quis deixar aos atletas de Judo Adaptado da região não distinguiu categorias: “A mensagem é a mesma para todos os atletas sejam de Judo Adaptado ou não. Como disse, judo é judo, e o que pretendi foi passar a todos uma mensagem de motivação para continuarem a trabalhar e perseguirem os seus objetivos, sejam eles o que forem.”
Do Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos ao pódio de Paris
A história de Djibrilo Iafa no Judo começou em 2013, quase por acaso. Frequentava o Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos, destinado a pessoas com deficiência visual, quando o levaram ao Clube Judo Total para experimentar um treino. “Eu sempre gostei muito de desporto e durante aquele treino eu percebi que tinha encontrado a minha modalidade, que me permitia treinar em plano de igualdade com as pessoas que veem”, recorda.
Onze anos depois, essa descoberta transformou-se em história do desporto português. Nos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020, Djibrilo Iafa terminou em 9.º lugar na categoria J1 -73kg (invisuais). Em Paris 2024, voltou com um objetivo claro medalhar, e cumpriu-o: bateu o turco Gökçe Yavuz por ippon nos quartos de final, perdeu por ippon nas meias-finais frente ao alemão Lennart Sass, venceu o repescagem em apenas 21 segundos, por ippon, sobre o francês Armindo Rodrigues, e fechou a prova com uma vitória por waza-ari sobre o brasileiro Harley Arruda, garantindo o bronze. Foi a primeira medalha de sempre do Judo português nos Jogos Paralímpicos e a sexta medalha de Portugal em Paris 2024.
“Difícil mas muito bom. O Judo de Alto Rendimento exige de qualquer atleta grandes sacrifícios. No meu caso foi um percurso relativamente rápido de cerca de 11 anos, com momentos bons e outros menos bons, mas com um final muito feliz.” – Djibrilo Iafa, sobre o caminho até à medalha
Da confirmação da medalha guarda uma alegria “fantástica”: “Eu já tinha estado nos Jogos de Tóquio, onde me classifiquei em 9.º lugar, e estava muito motivado para fazer melhor em Paris. O objetivo era medalhar e felizmente consegui atingir esse objetivo.”
A vida depois de Paris
A medalha trouxe visibilidade e reconhecimento oficial. Djibrilo Iafa foi condecorado pelo Presidente da República e pelo Presidente da Câmara Municipal de Oeiras, onde reside, e recebeu “imenso carinho das pessoas em geral, muitas delas que não eram sequer do judo”. Mas nem tudo mudou de imediato: continua a lutar por melhores condições de habitação para si, a esposa e o filho, de quatro anos, no atual contexto do mercado imobiliário de preferência sem sair de Oeiras, perto do Centro de Alto Rendimento do Jamor, onde treina.
Sobre quem tornou este percurso possível, a lista é longa e feita de gratidão: a esposa e o filho, a família na Guiné-Bissau e em Espanha, os treinadores, os colegas de seleção e do Clube Judo Total, a equipa do CAR Jamor ( fisioterapeuta, médicos, fisioterapeutas) e as instituições: o Comité Paralímpico de Portugal, a Federação Portuguesa de Judo, a Associação de Judo de Lisboa e associações distritais como as de Santarém e Coimbra, onde tirou o curso de treinador. “São tantas pessoas e entidades que me ajudaram neste meu percurso que é impossível citar todas”, admite.
O estado do Judo Adaptado em Portugal
Para além do relato pessoal, Djibrilo Iafa traçou um retrato do Judo Adaptado no país: em franca evolução, com cada vez mais associações distritais a desenvolver esta área, mas ainda com um caminho longo pela frente – sobretudo no Judo Paralímpico (deficiência visual) e Surdolímpico (surdez), onde “somos infelizmente ainda poucos”.
“Um papel decisivo, porque não só permite a motivação dos que já treinam, como divulga a modalidade e desperta o interesse naqueles que ainda não estão connosco, e que conseguem perceber, com o exemplo dos que estão no tapete, que afinal também são capazes.” – Djibrilo Iafa, sobre o papel de iniciativas como o Mega Treino
Questionado sobre que conselho daria a uma criança ou jovem com deficiência visual que pondere experimentar o Judo, a resposta junta valores e pragmatismo: “O judo é uma modalidade fantástica para qualquer pessoa, independentemente de ter algum tipo de incapacidade ou deficiência. Para além do aspeto físico, o judo está impregnado de valores, como o respeito e a disciplina (…). No caso concreto das crianças com deficiência visual, o judo permite ainda treinar em plano de quase igualdade com os normovisuais por causa do contacto físico. Depois da pega estar feita, é tudo igual.”
Quanto ao que ainda falta para o Judo Adaptado crescer em Portugal, aponta três prioridades: mais educação e consciencialização da comunidade sobre as necessidades específicas de pessoas com deficiência; infraestruturas adequadas por parte das instituições; e condições de acesso ao desporto para todos, sem exceção.
Rumo a Los Angeles 2028
Depois de duas intervenções cirúrgicas, Djibrilo Iafa já regressou à competição e com resultados que apontam na direção certa: 5.º lugar no Grand Prix de São Paulo, em julho, na primeira prova depois de Paris; bronze no Campeonato da Europa em Heidelberg, na Alemanha. Segue-se o Campeonato do Mundo, a 25 de setembro, em Tbilisi, na Geórgia. O horizonte, esse, está fixado: os Jogos Paralímpicos de Los Angeles 2028.
E entre competições, Djibrilo Iafa não pretende afastar-se de treinos como o de Tomar: “Eu gosto muito de partilhar tudo o que aprendi. Por isso, sempre que tiver oportunidade, dentro do tempo que tenho disponível, irei decerto estar ligado à formação e ao ensino.”
“Jita Kyoei ou seja, prosperidade e benefício mútuo, ou, se quiser, bem-estar para todos sem exceções. Foi este um dos principais legados que o Mestre Jigoro Kano, fundador do judo, nos deixou.” – Djibrilo Iafa, sobre o lema do Judo aplicado à inclusão

Nota de Referência
Este artigo foi elaborado com base nas respostas escritas de Djibrilo Iafa ao IPPONZITO, recolhidas após o Mega Treino de Judo Adaptado de 16 de julho, em Tomar, e complementadas com informação pública sobre a sua participação nos Jogos Paralímpicos de Paris 2024. Fontes: maisfutebol.iol.pt, publico.pt, record.pt.
Autor
Tiago Martins
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