De França para o Ribatejo: Eva Rodrigues, a campeã que atravessa fronteiras para vestir as cores do JCLD
Para a maioria dos atletas que competem no distrito de Santarém, uma competição significa uma viagem de carro, talvez uma noite fora de casa. Para Eva Rodrigues, lusodescendente a viver em França, significa atravessar um país, e depois uma fronteira, sempre que quer vestir as cores do JCLD. Desta vez, a viagem valeu bem a pena: voltou de Tomar com um ouro ao peito.
Para a maioria dos atletas que competem no distrito de Santarém, uma competição significa uma viagem de carro, talvez uma noite fora de casa. Para Eva Rodrigues, lusodescendente a viver em França, significa atravessar um país, e depois uma fronteira, sempre que quer vestir as cores do JCLD. Desta vez, a viagem valeu bem a pena: voltou de Tomar com um ouro ao peito.
Duas casas, um só coração pelo Judo
Eva treina em França com os atletas do JCMD, mas é pelo JCLD e por Portugal que sobe ao tatami nas provas nacionais. É uma dupla vida que a maioria dos seus adversários nunca precisa de viver: enquanto eles apenas se preparam para competir, Eva tem primeiro de se preparar para viajar. Repete o percurso sempre que há uma competição nacional, e fá-lo por escolha própria, porque o que a liga a Portugal e ao Ribatejo não se mede em quilómetros.
Balanços alemães, estrangulamentos franceses
A viagem a Tomar, para o Estágio Internacional de Judo da AJDS, começou já a compensar antes de qualquer combate. Sobre a experiência técnica, o balanço é entusiasta: “foi uma experiência muito enriquecedora, que me permitiu trabalhar muito e aprender coisas novas.” O que mais a marcou foi precisamente a variedade de escolas técnicas reunidas no mesmo pavilhão: “pude trabalhar com diferentes treinadores e descobrir novas técnicas. Com o treinador alemão, trabalhámos balanços, ko-uchi e o-uchi em diferentes formas. Com o treinador francês, aprendemos também estrangulamentos muito eficazes. Gostei muito desta diversidade no trabalho técnico.”
Treinar ao lado de atletas e treinadores de várias nacionalidades foi, para Eva, uma das partes mais marcantes da experiência: “foi mesmo incrível poder treinar com judocas de várias nacionalidades e níveis diferentes. Cada pessoa tem a sua forma de combater, a sua força, o seu estilo de Judo. Foi mesmo uma experiência muito bonita.”
Judo de olhos fechados
Mas o momento que Eva guarda como o mais marcante de todo o estágio não aconteceu num combate, aconteceu no último dia, na sessão de Judo Adaptado: “o momento mais marcante para mim foi o último dia, quando fizemos Judo com pessoas com deficiência, nomeadamente pessoas com baixa visão ou trissomia. Tivemos de nos adaptar à forma delas praticarem e usar sentidos que normalmente não usamos. Fazer Judo de olhos fechados foi bastante complicado, mas foi mesmo excelente e muito enriquecedor. Esta experiência permitiu-me ver o Judo de uma forma diferente.”
Duas lutas, um título
Na competição de Juniores, a categoria de -52kg contou apenas com duas atletas, “o que foi um pouco pena”, admite Eva, “mas ainda assim permitiu-nos fazer dois combates”. No primeiro combate, precisou de tempo para se adaptar a uma adversária desconhecida: “precisei de um pequeno tempo de adaptação porque não conhecia bem a minha adversária. Graças aos conselhos do meu treinador, consegui modificar alguns pontos que não estavam a funcionar, e venci o combate com uma chave de braço.” No segundo combate, a gestão foi já bem mais confortável: “geri muito melhor o randori. O combate foi mais curto e consegui impor-me através de um estrangulamento.” O resultado: primeiro lugar na categoria de -52kg na prova do II Open Internacional de Juniores Patrícia Sampaio.
A preparação dividida entre dois países
A preparação para a competição também atravessou fronteiras: “treinei em França com o meu clube e, já em Portugal, trabalhámos mais o Judo e a musculação. Isso permitiu-me chegar preparada e sentir-me bem para a competição.” Sobre o momento mais difícil, aponta de novo o primeiro combate, a incerteza de defrontar alguém que nunca tinha visto competir: “precisei de algum tempo para me adaptar à forma de combater dela. Ouvi os conselhos do meu treinador e consegui modificar alguns pontos para, no final, conseguir levar a melhor.”
O orgulho de representar o JCLD e o Ribatejo
Para quem atravessa um país inteiro para competir, representar as cores certas importa especialmente: “foi um verdadeiro orgulho representar o meu clube, o JCLD, e a região do Ribatejo. Participar numa competição em Portugal e conseguir terminar em primeiro lugar na minha categoria é uma experiência que me deixa muito orgulhosa e que me dá ainda mais vontade de continuar a progredir.” O balanço geral da experiência, estágio e competição juntos, não podia ser mais positivo: “o estágio permitiu-me descobrir novas técnicas, trabalhar com diferentes treinadores e treinar com judocas de várias nacionalidades. A competição permitiu-me pôr tudo isso em prática e ganhar ainda mais experiência. Estou muito contente por ter vencido os meus dois combates e por ter terminado em primeiro lugar na minha categoria.”
Os sonhos que vêm a seguir
O que aprendeu em Tomar não fica arrumado na mala de regresso a França: “vou continuar a trabalhar as técnicas que descobri durante o estágio e tentar integrá-las cada vez mais no meu Judo. A competição também me permitiu perceber os pontos em que ainda preciso de progredir, sobretudo na minha capacidade de me adaptar rapidamente às adversárias.” Os objetivos para o resto da época são ambiciosos, mas claros: “o meu objetivo é continuar a progredir, a ganhar experiência e a obter bons resultados nas próximas competições de seniores a nível nacional, vencer os seniores para poder um dia participar no Campeonato da Europa e nos Campeonatos do Mundo, e um dia participar nos Jogos Olímpicos para representar Portugal e o meu clube. Quero sobretudo continuar a trabalhar a sério, dar o melhor de mim e sentir prazer nos tatamis.”
Aos mais novos do JCLD, o clube que continua a representar apesar da distância, deixa uma mensagem que só quem já teve de lutar contra a logística, e não só contra adversárias, sabe escrever com esta autenticidade: “digo-lhes para nunca desistirem, mesmo quando os treinos ou as competições são difíceis. É preciso acreditar em si próprio, ouvir os treinadores e continuar a trabalhar. Cada treino e cada competição permitem aprender algo e progredir. O mais importante é sentir prazer naquilo que se faz e dar sempre o melhor de si.”

Autor
Tiago Martins
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