Do Judo ao Jodo: Jorge Silva leva o Bastão Japonês de Torres Novas ao Campeonato da Europa, em Mérignac, e quer que o Ribatejo venha experimentar
Aos 58 anos, o responsável pela secção de Jodo do Clube de Judo de Torres Novas fez crescer, em pouco mais de três anos, uma arte marcial quase desconhecida do grande público: de dois praticantes passou para treze, com idades dos 12 aos 65, e levou três atletas, ele incluído, ao 24.º Campeonato Europeu de […]
Aos 58 anos, o responsável pela secção de Jodo do Clube de Judo de Torres Novas fez crescer, em pouco mais de três anos, uma arte marcial quase desconhecida do grande público: de dois praticantes passou para treze, com idades dos 12 aos 65, e levou três atletas, ele incluído, ao 24.º Campeonato Europeu de Jodo, em França. Em entrevista ao IPPONZITO, explica o que é o Jodo, o que tem em comum com o Judo e porque diz que o passo mais difícil é entrar no dojo.
O IPPONZITO abre com esta entrevista uma rubrica dedicada a artes marciais irmãs do Judo, e começa em casa: em Torres Novas, onde o Clube de Judo acolhe desde 2023 uma secção de Jodo, a arte do bastão japonês. O responsável por essa secção, Jorge Silva, 58 anos, natural da cidade, respondeu por escrito a uma grande entrevista que passa pelo seu percurso, pela história da modalidade, pelas pontes com o Judo e pelo Campeonato Europeu de Mérignac.
JORGE SILVA, EM SÍNTESE
• 58 anos, natural de Torres Novas. Alistou-se aos 19 anos como voluntário na Marinha de Guerra Portuguesa, onde praticou Judo durante dois anos.
• Passou depois pelo Aikido, em Lisboa, e iniciou o Iaido em 2010, seguido do Jodo e do Kendo.
• Graduação: Yondan (4.º Dan) em Iaido e Sandan (3.º Dan) em Jodo.
• Funções: responsável pela secção de Iaido e Jodo do Clube de Judo de Torres Novas e Presidente do Conselho Fiscal do clube.
• Em Mérignac competiu no escalão Sandan (3.º Dan).
De voluntário da Marinha ao bastão japonês
A história de Jorge Silva com as artes marciais japonesas começa no Judo, nos tempos da Marinha. «Este primeiro contacto com o Judo foi marcante», recorda, e a partir dessa altura ficou-lhe, diz, um forte apelo pela prática das artes marciais japonesas. Já na vida civil, a trabalhar em Lisboa, começou a praticar Aikido por recomendação de um amigo, e foi aí que teve pela primeira vez contacto com a espada e com o bastão japonês, percebendo a relação entre estas armas e as artes marciais de mãos livres e a sua origem comum.
Em 2010 iniciou o Iaido, em paralelo com o Aikido, e mais tarde o Jodo e o Kendo. No ano seguinte, uma mudança na vida profissional afastou-o de Lisboa, e foi então que decidiu dedicar-se em exclusivo às artes marciais da espada e do bastão.
Como o Jodo chegou ao Clube de Judo de Torres Novas
O ponto de partida foi simples. No início de 2023, dois amigos com experiência em artes marciais pediram-lhe que lhes ensinasse Jodo. Ao procurar um local para iniciar as aulas, chegou a Nuno Ribeiro, Presidente do Clube de Judo de Torres Novas. «A visão do Nuno sobre o associativismo e a partilha de artes marciais japonesas com valores comuns» foi decisiva para que, desde a primeira hora, fossem recebidos de braços abertos, resume Jorge Silva.
Seguiu-se a candidatura do clube à Federação Portuguesa de Kendo, Iaido e Jodo (FPKIJ), entidade reconhecida pelo IPDJ que promove e regula as modalidades da espada e do bastão japonês em Portugal. Em maio de 2024, a assembleia geral da federação aprovou a admissão do Clube de Judo de Torres Novas como sócio efetivo, e o clube passou a ser responsável pela promoção e prática de Kendo, Iaido e Jodo. Segundo o registo oficial da FPKIJ, é o único clube que representa o Jodo no distrito de Santarém.
O que é o Jodo
Jorge Silva explica a modalidade de forma direta: «um praticante com um bastão (Jo) enfrenta um adversário com uma espada (Bokken)», e vence-o sem o ferir letalmente. O jo é um bastão de madeira com cerca de 128 centímetros de comprimento e 2,4 de diâmetro, características que permitem técnicas ambidestras, grande versatilidade e velocidade.
“Para se vencer um adversário mais forte com uma espada japonesa, tem de ter uma postura correta, grande destreza com o bastão e especialmente um espírito muito forte” — Jorge Silva
O treino organiza-se em duas partes. Os kihon são o estudo das técnicas de base, feitos a solo (tandoku-dosa) ou em aplicação (sotai-dosa), com o parceiro a atacar com a espada. Depois vêm os kata, que representam um combate num determinado contexto: o uchidachi, com a espada, ataca ou mostra intenção de atacar, e o shidachi, com o jo, responde e anula o ataque. A troca de papéis entre os dois é fundamental, porque para desenvolver técnicas de bastão é preciso conhecer bem a arma que se vai enfrentar.
Ao contrário do Judo, o Jodo não tem combate livre. Jorge Silva reconhece que a prática livre obriga a limitar técnicas para evitar lesões graves, mas vê vantagens no kata: permite trabalhar técnicas perigosas de forma segura e aproxima a prática da essência original da arte. E garante que é uma modalidade acessível a todos, independentemente do género ou da forma física, onde faz a diferença a destreza no manejo do bastão e a profundidade da prática. As competições são mistas.
O JODO EM SÍNTESE
• Arte marcial japonesa do bastão (jo, cerca de 128 cm) contra a espada de madeira (bokken), praticada em kata.
• Origem no século XVII, ligada à escola Shintō Musō-ryū e ao lendário Musō Gonnosuke.
• Em 1968, Shimizu Sensei selecionou 12 kata, entre os 64 da escola antiga, e tornou o Jodo acessível a todos, com exames de graduação e competições. Esses 12 kata são difundidos pela Federação Japonesa de Kendo (All Japan Kendo Federation).
• Em Portugal, começou nos anos 2000 no Clube Zenshinkan, Iaido Clube de Lisboa, e expandiu-se ao Norte (Aveiro, Porto e Braga). A federação foi criada em 2021, e só então passaram a existir exames de graduação no país.
A lenda de Musashi e o espírito do Jodo
Sobre a lenda segundo a qual Musō Gonnosuke, o criador do Jodo, foi derrotado pelo célebre espadachim Miyamoto Musashi e voltou anos depois para o vencer, Jorge Silva considera que o episódio é muito relevante: foi a partir dele que o Jodo passou a integrar o currículo de escolas de esgrima japonesa, com destaque para a Shintō Musō-ryū, que deu origem ao Jodo que hoje se pratica. Mais do que o facto histórico, o combate validou o espírito da arte: com técnica correta e espírito forte, pode vencer-se um adversário em vantagem, neste caso com a arma mais avançada da época.

Jodo e Judo: o que aproxima e o que separa
Para um judoca, a primeira coisa que se reconhece no Jodo é a etiqueta e a atitude no dojo. A etiqueta sem armas é idêntica à do Judo: entrar e sair do dojo, alinhar, saudar o shomen e o sensei. O que é novo é o bastão, o bokken e o hakama, a indumentária usada pelos samurais. Jorge Silva nota que saber estar no dojo e adaptar-se rapidamente a novas posturas são fatores que se veem logo na primeira aula.
Para o clube, a junção das duas artes tem duas dimensões, explica: a contribuição para a comunidade, que ganhou acesso a uma prática acessível a todas as idades e géneros, e para o próprio clube, que nos últimos anos trouxe a Torres Novas vários eventos nacionais e internacionais, entre eles o Campeonato Nacional de Kendo, que contou com a presença do Embaixador do Japão. Os judocas mais novos participaram nesses eventos, e os judocas em geral tiveram contacto com práticas ancestrais através de demonstrações e de aulas de iniciação. O clube está agora a iniciar aulas de Iaido e não exclui, no futuro, ter também Kendo.
“Tal como no Judo, no Jodo é na prática do dojo que os valores são transmitidos” — Jorge Silva
Entre os valores do Jodo, enumera a cortesia, a cooperação com os outros, a lealdade, a resiliência e o espírito forte, valores universais, comuns a outras artes marciais tradicionais japonesas. A relação entre shidachi e uchidachi é, descreve, como um diálogo: o primeiro vence o segundo sem lhe provocar danos letais, e leva-o a reconsiderar e a baixar a guarda, enquanto o uchidachi desafia constantemente o shidachi, o que permite melhorar a postura, a técnica e o espírito.
A secção de Jodo: de 2 para 13 praticantes
A secção nasceu em 2023 com dois praticantes e conta hoje com treze, com idades entre os 12 e os 65 anos. Todos os anos entram três a quatro novos alunos, e o grupo tem dois alunos com graduação de Shodan (1.º Dan) e três de 1.º Kyu. Há uma aula semanal específica para iniciados e duas para graduados. Todas começam com kihon feitos em conjunto, independentemente da graduação, seguindo-se os kata, com os alunos divididos por grupos, consoante o objetivo de cada um: aprender um novo kata, preparar um exame ou treinar para competição.
A SECÇÃO DE JODO DO CJTN EM NÚMEROS
• Início: 2023, com 2 praticantes. Hoje: 13, entre os 12 e os 65 anos.
• Graduados: 2 Shodan (1.º Dan) e 3 de 1.º Kyu.
• Aulas: 1 semanal para iniciados e 2 para graduados.
• Competição: no campeonato nacional desde 2024 e, este ano, com alunos na Seleção Nacional de Jodo.
Mérignac: o Campeonato da Europa
O 24.º Campeonato Europeu de Jodo, em Mérignac, França, teve três atletas do clube na Seleção Nacional. A competição individual realiza-se ao sábado, dividida por escalões de graduação, com um máximo de dois atletas por país em cada escalão, e a competição por equipas decorre ao domingo, com equipas de três praticantes por país.
OS TRÊS DE TORRES NOVAS
• André Fonseca: pratica Jodo há dois anos e competiu no escalão mudan (Kyu).
• João Mota Pereira: pratica há quatro anos e competiu no escalão Shodan (1.º Dan).
• Jorge Silva: competiu no escalão Sandan (3.º Dan).
A seleção nacional é feita pelo selecionador, que avalia as participações no campeonato nacional e convida os atletas em melhores condições. Os selecionados têm de participar, obrigatoriamente, nos treinos de seleção ao longo do ano, focados na competição e no espírito de equipa. Para Jorge Silva, ver colegas do clube na seleção é a prova de que o trabalho técnico está no bom caminho, e todo o grupo recebeu a notícia «com grande satisfação».
“Mais importante é sentir que estamos ao melhor nível, com um forte fighting spirit” — Jorge Silva
A mensagem que deixou aos companheiros antes da competição foi a de desfrutar e manter uma postura digna perante companheiros de seleção, adversários e senseis, tendo sempre presente que representam o clube e Portugal. O IPPONZITO não tem, até ao fecho desta edição, os resultados da participação portuguesa, e acrescentará a informação logo que seja confirmada. Quem quiser ver a seleção em ação pode consultar as transmissões oficiais: a competição por equipas, a partir de 1h42 do vídeo de YouTube indicado por Jorge Silva, e a competição individual, a partir de 2h49m30s do segundo vídeo.
Um desporto a crescer, mas ainda desconhecido
Para o responsável pela secção, o crescimento de uma arte marcial depende da existência de professores graduados. Só depois da criação da federação, em 2021, passou a haver exames de graduação em Portugal, e desde então o número de graduados tem aumentado. Espera, por isso, um crescimento significativo do número de praticantes nos próximos anos. O Jodo nacional conquistou, em 2023, a sua primeira medalha num Campeonato da Europa.
As principais dificuldades são a falta de conhecimento sobre a existência do Jodo e a ideia de que as artes marciais estão focadas na competição. O seu desejo para os próximos anos é simples: que os atletas atuais não parem de praticar e que mais pessoas sintam o apelo de começar. E, daqui a cinco anos, gostava de ver os alunos que foram este ano à Europa a continuar a evoluir e, quem sabe, a transmitir o Jodo a outras pessoas.
«O passo mais difícil é entrar no dojo»
Perguntado sobre o momento de que mais se orgulha em tantos anos de artes marciais, Jorge Silva não fala de graduações nem de medalhas, mas de amizades. Lembra uma entrevista que leu a um sensei japonês de Kendo, segundo a qual praticar é a melhor forma de criar amizades, e diz que é isso que mais o orgulha.
“O passo mais difícil é entrar no dojo pela primeira vez. Dê uma oportunidade a si próprio e venha experimentar” — Jorge Silva
O convite aos leitores do IPPONZITO e, em particular, aos judocas do distrito de Santarém é o mesmo: venham fazer uma aula de Jodo e «vão ter uma surpresa».

O que fica:
De dois para treze praticantes em três anos, com atletas na Seleção Nacional e no Campeonato da Europa: a secção de Jodo do Clube de Judo de Torres Novas mostra que o judo pode ser a porta de entrada para outras artes marciais japonesas. O IPPONZITO volta ao tema com os resultados de Mérignac.
Nota de Referência
Entrevista realizada por escrito a Jorge Silva (responsável pela secção de Jodo do Clube de Judo de Torres Novas) para o IPPONZITO, com correção ortográfica mínima das respostas. A informação sobre o registo da FPKIJ consta do guião da entrevista. A resposta à pergunta 16 chegou incompleta, pelo que não foi utilizada. Os resultados da participação portuguesa em Mérignac não foram fornecidos.
Autor
Tiago Martins
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