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Manuel Tavares Lopes: o homem que trouxe o Judo à Casa do Povo de Rio Maior

Aos 76 anos, Manuel Tavares Lopes é hoje Vice-Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação de Judo do Distrito de Santarém. A história começa em 1975, com o regresso de Angola, e passa por meio século de dedicação ao Judo do Ribatejo – como fundador de secção, judoca, treinador, árbitro e dirigente. Uma vida […]

Por José Paula 11 minutos de leitura
Manuel Tavares Lopes, fundador do Judo na Casa do Povo de Rio Maior
Manuel Tavares Lopes, hoje Vice-Presidente da Mesa da Assembleia Geral da AJDS, fundou o Judo em Rio Maior em 1976.

Aos 76 anos, Manuel Tavares Lopes é hoje Vice-Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação de Judo do Distrito de Santarém. A história começa em 1975, com o regresso de Angola, e passa por meio século de dedicação ao Judo do Ribatejo – como fundador de secção, judoca, treinador, árbitro e dirigente. Uma vida inteira construída à volta de um tatami, em que quase todos os cargos possíveis foram, em algum momento, os seus. Falámos longamente com ele, e a paixão pela modalidade transparece em cada palavra, em cada memória, em cada nome que recorda.

Conversando com Tavares Lopes realça-se, de imediato, a sua, ainda, paixão pelo Judo, sentimento que deixa transparecer a cada palavra e que se denota a cada expressão facial.

De Angola para Rio Maior

A história de Manuel Tavares Lopes com o Judo começa, afinal, num regresso – o regresso a Portugal, em 1975, no ano em que tudo mudou.

Manuel Tavares Lopes regressou a Portugal em 1975, vindo de Angola, na altura da independência daquela que fora província portuguesa. Foi um daqueles regressos em massa que marcaram uma geração inteira de portugueses – um recomeço, longe do que tinham construído, numa terra que era, ao mesmo tempo, a pátria e um lugar por redescobrir. Instalou-se em Rio Maior e tornou-se funcionário da Casa do Povo local. Foi aí, em 1976, que a sua história com o Judo verdadeiramente começou – por influência de uma iniciativa nacional da Direção Geral de Desportos, que promovia a modalidade por todo o país através das Casas do Povo, então um dos principais motores do desporto de base em Portugal.

“O meu primeiro contacto com o Judo foi de facto aqui em Rio Maior, ainda que, antes de sair de Angola em 1975, tenha havido um movimento para iniciar a prática da modalidade. Aqui em Rio Maior, a Direção Geral de Desportos incentivou, a nível nacional, a prática do Judo através das Casas do Povo – a Rio Maior foi atribuído o Núcleo número 10 – e eu, como funcionário, assumi a questão organizativa e logística.” – Manuel Tavares Lopes

Foi assim, quase por acidente de percurso profissional, que Tavares Lopes se tornou o responsável pela fundação da secção de Judo da Casa do Povo de Rio Maior – e, com ela, deu também os primeiros passos como judoca. “Foi de facto na Secção de Judo da Casa do Povo de Rio Maior que dei os primeiros passos no Judo”, confirma, sem esconder o orgulho de ter sido, ao mesmo tempo, fundador e aluno daquele que se tornaria um dos núcleos mais importantes do Judo distrital.

O Núcleo número 10 nascia, assim, ligado a um movimento nacional muito maior mas rapidamente ganharia identidade e força próprias, tornando-se um dos pilares do que hoje é a Associação de Judo do Distrito de Santarém.

Um judoca tardio, mas dedicado

Aos 25 anos, quando muitos já encerram a carreira competitiva, Tavares Lopes começava a sua e não a largaria mais, ainda que por outros caminhos.

Começou a praticar já com 25 anos – tarde, para os padrões da alta competição, mas a tempo de deixar marca a nível regional e zonal. “Participei, com efeito, em Campeonatos Nacionais sem resultados visíveis, mas a nível regional e zonal ainda consegui umas classificações engraçadas”, recorda, entre modéstia e satisfação – a modéstia de quem sabe que os grandes resultados desportivos não foram os seus, e a satisfação de quem sabe exatamente onde os seus resultados verdadeiramente aconteceram.

Foi, no entanto, fora do tatami de competição que a sua carreira ganhou verdadeira dimensão: como mestre, como árbitro, e, sobretudo, como dirigente. É um percurso comum a muitos dos grandes construtores do desporto português. Quem não chega ao pódio como atleta acaba, muitas vezes, por construir o caminho para que outros lá cheguem.

De atleta a mestre e árbitro

O ano de 1985 marca uma viragem: de judoca, passa a formador e o percurso, uma vez mais, cruza-se com a própria história da Associação.

Em 1985, tirou o curso de monitor, provavelmente o primeiro ministrado sob a égide da Associação. Seguiu-se o percurso de treinador, até ao grau mais elevado, em 1989, sempre com formação contínua, disciplina e regularidade. Como treinador, foi Diretor Técnico Associativo durante uma década inteira, uma função que exigia não apenas conhecimento técnico, mas também visão estratégica sobre como fazer crescer o Judo em toda a área de influência da Associação.

Em paralelo, seguiu também o caminho da arbitragem, dos escalões regionais até ao nacional, acompanhando sempre as formações disponibilizadas. A dupla vida de treinador e árbitro não é comum – exige disponibilidade, isenção e uma paixão que resista ao desgaste de estar, semana após semana, ao serviço da modalidade em dois papéis tão diferentes.

“Cheguei a arbitrar em torneios em Espanha –Valladolid, Salamanca, Valdemoro, etc.” – Manuel Tavares Lopes, sobre o percurso na arbitragem

É 3.º Dan, um grau que resume décadas de trabalho, técnica e dedicação ao Judo, construídas em paralelo entre o tatami e as funções de organização que assumiu praticamente desde o primeiro dia. Poucos percursos ilustram tão bem a versatilidade que o Judo de base em Portugal sempre exigiu dos seus dirigentes: ser, ao mesmo tempo, professor, árbitro, organizador e, muitas vezes, motorista de carrinha para levar os miúdos às competições.

A Casa do Povo de Rio Maior, um celeiro de judocas

Sob a sua direção técnica, o Núcleo 10 tornar-se-ia, em certos anos, o maior celeiro de judocas de toda a Associação.

Enquanto mestre, a relação com os judocas, e com os pais, foi, para Tavares Lopes, o verdadeiro coração do trabalho. “Com os miúdos era muito boa, a ligação era efetiva, as ofertas para se poderem diversificar não eram muitas e o acompanhamento aos rapazes e raparigas era fundamental para uma boa união de grupo”, explica, descrevendo uma época em que o Judo competia com poucas alternativas de ocupação de tempos livres, e em que, por isso mesmo, o vínculo ao clube se tornava ainda mais forte.

E o envolvimento das famílias, garante, fazia toda a diferença nos resultados: “Se analisarmos os judocas que tinham mais acompanhamento dos pais, foram, em norma, os que melhores resultados desportivos obtiveram.” Não é uma opinião sem prova: sob a sua direção técnica, a Casa do Povo de Rio Maior chegou a ser o clube com mais atletas federados de toda a Associação – entre 110 e 120 judocas, um número extraordinário para um núcleo de uma vila do interior do Ribatejo, e que hoje serve de referência a qualquer clube que procure crescer de forma sustentada.

Passadas décadas, essa ligação continua viva. Tavares Lopes recorda com carinho nomes como Júlio Moura e os irmãos Moura, e a satisfação de ser ainda hoje reconhecido na rua, por todo o distrito, por antigos judocas, “já homens que alguns eu naturalmente já não conheço”, diz, com o sorriso de quem sabe que plantou mais do que alguma vez poderá contar.

Ligação ao distrito e à Associação

O trabalho de Rio Maior nunca esteve isolado. Cresceu sempre em diálogo com os restantes núcleos e clubes do distrito.

Ao longo da sua década como Diretor Técnico Associativo, Tavares Lopes acompanhou de perto o crescimento coletivo do Judo na região, não apenas o de Rio Maior, mas o de toda a Associação. Estágios, competições distritais, deslocações conjuntas: uma rede de colaboração entre clubes que, mais do que rivalidade desportiva, construiu amizades e cumplicidades que perduram até hoje entre os antigos dirigentes e mestres do distrito.

É esse espírito de associativismo, de trabalho conjunto acima do interesse de cada clube que, na sua leitura, explica em larga medida por que motivo a Associação de Judo do Distrito de Santarém conseguiu, ao longo de décadas, formar tantos bons judocas, mestres e árbitros a partir de núcleos relativamente pequenos como o de Rio Maior.

Os momentos que ficam

Perguntado pelos pontos altos de uma carreira tão longa, Tavares Lopes não hesita: há um capítulo que se destaca acima de todos os outros.

Ao longo de uma carreira tão extensa, os momentos marcantes não faltam: os resultados dos judocas de Rio Maior, o acompanhamento das seleções distritais em estágios e competições no estrangeiro, e os estágios feitos com os mais novos, em casa. Mas há um capítulo que se destaca especialmente na memória de Tavares Lopes.

“Não posso deixar de realçar o acompanhamento à melhor seleção mundial feminina, que era Cuba, que anualmente estagiava na Associação, e o relacionamento com as suas judocas, médico, fisioterapeuta e treinadores, onde pontificava o, mundialmente reconhecido, Ronaldo Valdivié.” – Manuel Tavares Lopes

Durante anos, a seleção feminina de Cuba, então uma referência mundial da modalidade, escolheu a Associação de Judo do Distrito de Santarém para estagiar, sob a batuta do lendário treinador Ronaldo Valdivié. Foi um privilégio raro: conviver de perto, ano após ano, com algumas das melhores judocas do planeta, e com uma equipa técnica de craveira internacional, num distrito que, à data, dificilmente figurava nos mapas do Judo mundial.

É um testemunho, décadas antes da atual internacionalização do Estágio Internacional de Tomar e da chegada de nomes como Haruka Tachimoto ou Renato Kobayashi à região, de como o Ribatejo já sabia atrair – e acolher com qualidade – Judo de craveira mundial. Uma história que, de certa forma, antecipa e explica o ADN internacional que a Associação continua a cultivar hoje.

O Judo da Associação, hoje

Cinco décadas depois de fundar o Núcleo 10, Tavares Lopes olha para o presente do Judo distrital com otimismo renovado.

Questionado sobre o estado atual do Judo na Associação, Tavares Lopes não hesita em apontar uma evolução positiva, apesar de alguns anos mais difíceis pelo caminho.

“Está muito melhor. Passou de facto por alguns anos de dificuldade, mas a Associação tem investido muito em termos de condições, ofertas ao nível de formação, etc., e os próprios ótimos resultados da Patrícia Sampaio têm despertado muitos miúdos e os próprios pais, o que é importante.” – Manuel Tavares Lopes

É uma leitura partilhada por muitos dos antigos dirigentes da Associação: depois de um período de contração, o investimento em condições de treino, em formação de treinadores e árbitros, e a chegada de resultados de topo como os de Patrícia Sampaio, hoje uma referência olímpica, devolveram ao distrito uma visibilidade e um entusiasmo que Tavares Lopes reconhece, com satisfação, como um eco distante daquilo que ele próprio ajudou a construir em Rio Maior nos anos 70 e 80.

O Judo como escola de vida

Mais do que medalhas, o que Tavares Lopes valoriza no seu meio século de Judo é o que a modalidade ensina para além do tapete.

Ao longo de toda a conversa, um fio condutor atravessa as respostas de Tavares Lopes: o Judo como escola de vida, mais do que como via de resultados. A relação com os judocas e com as famílias, a importância da humildade dentro e fora do tatami, o respeito pelas regras e pelos colegas – são estes, para ele, os verdadeiros ganhos de uma vida dedicada à modalidade, independentemente do cargo que se ocupe: judoca, mestre, árbitro ou dirigente.

É essa filosofia simples, mas exigente, que Tavares Lopes procurou transmitir a centenas de judocas ao longo de décadas em Rio Maior, e é a mesma que continua a defender hoje, já como dirigente associativo, junto de uma nova geração de treinadores e árbitros da Associação.

Uma vida inteira dedicada ao Judo

Passados quase cinquenta anos desde a fundação do Núcleo 10, o compromisso de Tavares Lopes com a Associação mantém-se intacto.

Ao longo do seu percurso, Manuel Tavares Lopes passou por praticamente todos os cargos dos Corpos Sociais da AJDS – com a única exceção de tesoureiro, que nunca foi, como diz com humor, “a sua praia”. Foi Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação na altura em que Pedroso Leal assumiu a Presidência da Mesa da Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Judo, e é hoje Vice-Presidente da Mesa da Assembleia Geral da AJDS.

“Ainda cá estou. Passei por todos os cargos na Direção, menos tesoureiro, que não é, como dizem agora, a minha praia. Sempre com enorme satisfação – afinal, o Judo foi e é parte importante na minha vida.” – Manuel Tavares Lopes

É um percurso raro de encontrar: meio século ao serviço da mesma Associação, sempre disponível para o cargo seguinte, sempre presente quando foi preciso. Um legado que hoje se mede não só em títulos ou resultados, mas nas centenas de judocas, muitos deles hoje pais e treinadores, que passaram pelas suas mãos em Rio Maior.

Mensagem final

A quem hoje pratica, arbitra, treina ou dirige o Judo – e a quem ainda vai chegar à modalidade, Manuel Tavares Lopes deixa um conselho simples, construído em meio século de tatami e de vida associativa.

“A primeira coisa, e fundamental, é gostar do Judo. Depois, muito importante, tem que existir uma forte ligação aos judocas e aos pais. Dentro da estrutura, entender as normas e agir dentro e fora do tapete com humildade e honestidade. Princípios que têm que ser transportados e aplicados em toda a vivência do universo do Judo.” – Manuel Tavares Lopes

Nota de Referência

Este artigo foi elaborado a partir da entrevista concedida por Manuel Tavares Lopes ao IPPONZITO – Magazine do Judo do Ribatejo.