Internacional

A medalha 100: como o Judo Paralímpico português deixou de ser uma promessa para se tornar uma realidade, com o Ribatejo no centro da história

Quando Djibrilo Iafa subiu ao pódio em Paris, a 5 de setembro de 2024, com a medalha de bronze em -73kg J1, deu ao Judo português a sua primeira medalha paralímpica de sempre. Mas esse combate valeu ainda mais do que isso: foi também a centésima medalha da história de Portugal em Jogos Paralímpicos, contando […]

Por Ana Rodrigues 13 minutos de leitura
SuperJudo AJDS- Judo Paralímpico Ribatejo - a medalha 100

Quando Djibrilo Iafa subiu ao pódio em Paris, a 5 de setembro de 2024, com a medalha de bronze em -73kg J1, deu ao Judo português a sua primeira medalha paralímpica de sempre. Mas esse combate valeu ainda mais do que isso: foi também a centésima medalha da história de Portugal em Jogos Paralímpicos, contando todas as modalidades, desde a estreia em Heidelberg 1972. Duas histórias, cruzadas num único combate. Esta reportagem procura contar a história maior por detrás desse momento – de Miguel Vieira, o pioneiro que abriu o caminho em 2016, aos mais de 80 atletas que treinam hoje, todas as semanas, no projeto SUPER JUDO da Associação de Judo do Distrito de Santarém – e explicar por que motivo, em outubro, o Ribatejo se prepara para dar a este movimento o primeiro grande palco internacional organizado em casa.

A medalha 100

O contexto ajuda a perceber a dimensão do momento. Portugal tinha, até Paris 2024, uma história de 94 medalhas paralímpicas acumuladas ao longo de onze participações anteriores – sendo Heidelberg 1972 a única edição em que a comitiva portuguesa não subiu ao pódio. O número de medalhas por edição vinha, de resto, em queda desde o pico histórico de Sydney 2000 (52 atletas, 15 medalhas): três em Londres 2012, quatro no Rio 2016, apenas duas em Tóquio 2020. Foi precisamente em Paris 2024 que essa tendência se inverteu, com Portugal a somar seis medalhas, e foi o bronze de Djibrilo Iafa, na Arena Champ de Mars, que fechou a centena histórica.

Até esse dia, o Judo surgia na tabela de medalhas paralímpicas portuguesas com um único registo possível: zero. O atletismo lidera destacado essa tabela, com 56 medalhas ao longo da história; segue-se o boccia, com 27, e a natação, com 10. O ciclismo soma três. O Judo, tal como a canoagem, o ténis de mesa e o futebol de 7, tinha, antes de Paris 2024, uma prateleira vazia. Djibrilo Iafa mudou isso com um percurso dramático: bateu o turco Gökçe Yavuz por ippon nos quartos de final, perdeu por ippon nas meias-finais frente ao alemão Lennart Sass, venceu a repescagem em apenas 21 segundos sobre o francês Armindo Rodrigues e fechou a prova com uma vitória por waza-ari sobre o brasileiro Harley Arruda.

DJIBRILO IAFA – FICHA DE PERCURSO

Nome completo / nascimento: Djibrilo Iafa, 12 de junho de 1992

Clube: Clube Judo Total

Categoria: -73kg, classe J1 (cegos totais)

Tóquio 2020: 9.º lugar

Campeonato da Europa Rotterdam 2023: medalha de bronze

Jogos Paralímpicos Paris 2024: medalha de bronze – 1.ª medalha paralímpica de sempre do Judo português e 100.ª medalha paralímpica da história de Portugal

Após Paris 2024: 5.º lugar no Grand Prix de São Paulo; bronze no Campeonato da Europa de Heidelberg; Mundial de Tbilisi a 25 de setembro de 2026

Objetivo: Jogos Paralímpicos de Los Angeles 2028

O caminho até ali tinha começado, em 2013, no Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos, quando um treino experimental no Clube Judo Total lhe mostrou, nas suas próprias palavras ao IPPONZITO, que tinha “encontrado a modalidade que lhe permitia treinar em plano de igualdade com as pessoas que veem”. Depois da medalha vieram a condecoração pelo Presidente da República e o reconhecimento público e, mais recentemente, a estreia como treinador, precisamente em Tomar, como se conta mais adiante nesta reportagem.

Miguel Vieira: o pioneiro que abriu o caminho em 2016

Se Djibrilo Iafa escreveu o capítulo da primeira medalha, foi outro judoca do Clube Judo Total quem escreveu o primeiro capítulo de todos. Miguel Vieira, invisual total, foi o primeiro judoca português de sempre a competir nos Jogos Paralímpicos, no Rio de Janeiro, em 2016 – um feito que a própria Federação Portuguesa de Judo destaca, na sua página oficial dedicada ao Judo Adaptado, como “o caso de maior evidência” do trabalho feito ao longo dos anos nesta área.

Oito anos depois, em Paris 2024, Miguel Vieira regressou aos Jogos Paralímpicos já como campeão mundial e europeu em título, na categoria -60kg J1, e terceiro do ranking mundial – e Portugal fez, assim, história pela primeira vez com dois judocas na mesma edição dos Jogos Paralímpicos. A prova em Paris foi exigente: isento da primeira ronda, foi derrotado por ippon nos quartos de final pelo indonésio Junaedi, ao fim de 1 minuto e 37 segundos, e, já na repescagem, cedeu por ippon ao brasileiro Elielton de Oliveira, aos 3 minutos e 38 segundos, depois de já ter sido avisado com um shido. Terminou em 7.º lugar, com direito a diploma paralímpico. Miguel Vieira e Djibrilo Iafa treinam sob a orientação da mesma equipa técnica — os treinadores Jerónimo Ferreira, selecionador nacional de Judo Paralímpico, e Fernando Seabra, ambos também do Clube Judo Total.

Como se compete: a classificação J1 e J2

PARA ENTENDER O JUDO PARALÍMPICO

O Judo Paralímpico é praticado por atletas com deficiência visual, e segue as regras do Judo convencional com uma adaptação central: o combate começa já com os dois judocas de pega feita ao quimono do adversário – e, sempre que a perdem, o árbitro interrompe o combate para que a refaçam no centro do tatami. Desde 2022, a competição internacional está organizada em apenas duas classes: J1, para atletas totalmente cegos ou com uma perceção de luz muito reduzida (a antiga classe B1), e J2, que reúne os atletas com visão parcial (as antigas classes B2 e B3). Nos combates entre um atleta J1 e um adversário com mais visão dentro da mesma categoria de peso – quando tal é permitido –, é dada prioridade ao atleta cego total para fazer a pega primeiro. Djibrilo Iafa e Miguel Vieira competem ambos na classe J1.

Uma federação que já não separa

A Federação Portuguesa de Judo resume, na sua própria página dedicada ao tema, a filosofia que sustenta este crescimento: “todos, sem exceção, podem praticar Judo e sentirem-se bem na nossa modalidade”. Na prática, isso significa que a federação acompanha hoje três vertentes distintas dentro do Judo Adaptado – o Judo Paralímpico, para atletas com deficiência visual; o Judo Surdolímpico, para atletas surdos; e o Judo Social ou Adaptado, vocacionado sobretudo para atletas com deficiência intelectual ou Síndrome de Down. Nomes como o de Noel Gonçalves, medalha de ouro nos Special Olympics, fazem parte já de uma tradição de resultados que a federação recorda com orgulho – uma tradição a que se junta agora, com peso crescente, o trabalho feito no distrito de Santarém.

Todo o país no tatami: os Jogos ANDDI 2026

O crescimento não é um fenómeno isolado do Ribatejo – é nacional. Em maio de 2026, a Associação Nacional de Desporto para Deficiência Intelectual (ANDDI Portugal), em conjunto com a FPDD, realizou a 7.ª edição dos Jogos ANDDI Portugal, pela primeira vez descentralizada por três cidades. A etapa de Judo decorreu a 30 de maio, em Viana do Castelo, reunindo 45 atletas de clubes de norte a centro do país: CERCIGUI, APPACDM de Viana do Castelo e de Castelo Branco, Sporting Clube Sabugal, Academia Judo Ana Hormigo, Vitória Sport Clube (Guimarães) e Judo Clube Valença (Juvalença).

O Vitória Sport Clube, com 19 judocas em prova, colocou todos eles no pódio – 7 medalhas de ouro, 10 de prata e 2 de bronze –, um resultado que ilustra bem a dimensão que estes torneios já atingem fora dos grandes centros urbanos, e a quantidade de clubes portugueses que hoje têm uma secção de Judo Adaptado ativa e competitiva.

O motor do Ribatejo: o Super Judo da AJDS

É neste panorama nacional que o trabalho da Associação de Judo do Distrito de Santarém ganha particular relevo. O SUPER JUDO é o programa de Judo Adaptado da AJDS, criado para combater a exclusão social através da prática desportiva, sob a direção técnica do Mestre Luís Gonçalves. Segundo a própria associação, o projeto é hoje “resultado da colaboração conjunta com instituições de solidariedade social”, que tem permitido “proporcionar a prática desportiva do Judo a uma população ávida e carente de oportunidades dessa natureza”.

O SUPER JUDO EM NÚMEROS

Atletas envolvidos: mais de 80, de várias idades

Instituições parceiras: CRIA (Abrantes), CRIAL (Almeirim), CERE (Entroncamento), CRIO (Ourém), CIRE (Tomar), CRIT (Torres Novas)

Estrutura de treino: uma sessão semanal em cada instituição

Encontro mensal: 3.ª quarta-feira de cada mês, no Centro de Formação Técnico Competitiva do Judo Mestre Kiyoshi Kobayashi, em Torres Novas

Direção técnica: Mestre Luís Gonçalves

Madrinha: Patrícia Sampaio, medalha de bronze olímpica em -78kg em Paris 2024, desde agosto de 2024

O encontro mensal em Torres Novas é, talvez, o momento que melhor traduz o espírito do projeto: praticantes de seis instituições diferentes, de Abrantes a Torres Novas, a colocarem em prática o que aprenderam semana após semana, e a conviverem entre si – uma dimensão social que, tantas vezes, pesa tanto quanto a dimensão técnica no valor real destes programas.

CRIAL: uma estreia com títulos – e um reconhecimento público

O trabalho de anos começou já a dar frutos visíveis em competição. A 30 de novembro de 2025, o CRIAL – Centro de Recuperação Infantil de Almeirim, uma das seis instituições do Super Judo – participou pela primeira vez no Campeonato Nacional de Judo Adaptado, em Odivelas, e trouxe consigo cinco medalhas, incluindo dois títulos de campeão nacional.

CRIAL NO NACIONAL DE JUDO ADAPTADO – 30 NOV. 2025, ODIVELAS

Ouro -55kg: Roberto Henriques – venceu todos os combates

Ouro -63kg: Nicole Pinho – Campeã Nacional

Prata -63kg: Maria Cristiana Carmo

Prata -78kg: Rita Santos – venceu a fase eliminatória e discutiu o título até ao fim

Bronze -70kg: Márcia Ferreira – “notável evolução técnica e grande determinação”

4.º lugar +78kg: Madalena Patrício – numa das categorias mais concorridas da prova

Os judocas do CRIAL foram acompanhados pelos treinadores professor Nuno Alves e mestre Luís Gonçalves. O feito não passou despercebido: a 17 de dezembro de 2025, a AJDS promoveu uma cerimónia de homenagem a estes atletas, com a presença do Presidente da Associação de Judo do Distrito de Santarém, do Vereador do Desporto do Município de Torres Novas e do Presidente da Junta de Freguesia de Riachos, entre outros convidados. Os judocas foram distinguidos com medalhas da AJDS e graduados nesse mesmo momento — um sinal de que este trabalho já não é visto apenas como uma atividade social, mas como desporto de competição a sério, merecedor de reconhecimento institucional ao mais alto nível distrital e municipal.

Djibrilo Iafa em Tomar: quando o topo desce ao tatami de todos

Se há um momento que resume, de forma quase simbólica, o encontro entre o Judo Paralímpico de topo e o trabalho de base feito no Ribatejo, foi o Mega Treino de 16 de julho de 2026. Djibrilo Iafa, medalhado em Paris apenas dois anos antes, orientou duas horas de treino aberto à comunidade no Pavilhão Municipal Patrícia Sampaio, em Tomar, fechando o XX Estágio Internacional de Judo da AJDS. Mais de 150 atletas partilharam o mesmo tatami – o maior treino de Judo Adaptado alguma vez integrado num estágio internacional de judo em Portugal, e a primeira vez que uma iniciativa deste género encerrou, em grande, um estágio internacional no país.

Durante duas horas, atletas vindos de vários pontos de Portugal e da Europa – muitos deles a meio de um estágio de vinte edições dedicado à formação de jovens competidores – treinaram lado a lado com atletas do Judo Adaptado, descobrindo novas formas de comunicar, de aprender e de sentir o Judo. Segundo o relato da imprensa local, foi um treino em que “as medalhas, os títulos e os resultados ficaram em segundo plano”, e onde prevaleceram a partilha, a empatia e a capacidade do desporto de unir pessoas através de uma linguagem universal – com abraços, sorrisos e, também, lágrimas.

“Um papel decisivo, porque não só permite a motivação dos que já treinam, como divulga a modalidade e desperta o interesse naqueles que ainda não estão connosco, e que conseguem perceber, com o exemplo dos que estão no tapete, que afinal também são capazes.” – Djibrilo Iafa, ao IPPONZITO, sobre o papel de iniciativas como o Mega Treino

Outubro: o Internacional que faltava ao calendário

É também em outubro que este percurso ganha o seu momento mais ambicioso até à data. Nos dias 23 e 24, o Pavilhão Alfredo Bento Calado, em Almeirim, recebe o I Internacional de Judo Adaptado – a primeira edição de um torneio internacional com nome e identidade próprios, construído pela AJDS especificamente para o Judo Adaptado, e não como um apêndice de outra competição. O torneio, já anunciado pelo IPPONZITO, junta a Federação Portuguesa de Judo, o CRIAL, a Câmara Municipal de Almeirim e financiamento de Portugal Inovação Social, Centro 2030 e Portugal 2030, cofinanciado pela União Europeia.

Criar de raiz um torneio internacional é, para qualquer associação distrital, um feito raro. Fazê-lo em torno do Judo Adaptado – uma área nem sempre tratada com a mesma visibilidade ou investimento do Judo de competição tradicional – diz ainda mais sobre a prioridade que a AJDS decidiu dar a esta causa. É a prova de que, em Santarém, o Judo Adaptado não é um projeto secundário: é uma bandeira.

Uma grande entrevista a caminho

O IPPONZITO está, neste momento, a preparar uma grande entrevista com Luís Gonçalves, Diretor do Judo Adaptado da AJDS e o rosto técnico de todo este trabalho – do Super Judo ao I Internacional de Judo Adaptado. A entrevista, com publicação prevista para 15 de outubro, vai procurar dar voz a quem vive este projeto todos os dias: o percurso pessoal, o que significa verdadeiramente inclusão no desporto, as dificuldades reais do dia a dia, os sonhos para o futuro e uma mensagem direta às empresas da região que possam querer apoiar este trabalho. Fica o convite para acompanhar essa próxima edição.

O que fica
Do bronze histórico de Djibrilo Iafa — primeira medalha paralímpica do Judo português e centésima da história paralímpica nacional —, ao pioneirismo de Miguel Vieira no Rio, passando pelos mais de 80 atletas do Super Judo da AJDS, pelos primeiros títulos nacionais do CRIAL e pelos mais de 150 judocas que partilharam o tatami em Tomar, o Judo Adaptado português está, hoje, mais visível, mais organizado e mais competitivo do que em qualquer outro momento da sua história. E o Ribatejo, através do trabalho de anos de Luís Gonçalves e da AJDS, tem um lugar próprio nessa história — que ganha, em outubro, o seu primeiro grande palco internacional organizado em casa.

Nota de Referência

Federação Portuguesa de Judo (fpj.pt), Comité Paralímpico Brasileiro (regras e classificação J1/J2), RTP Notícias, Público, Record, MaisFutebol/CNN Portugal, Abola.pt, SAPO Desporto, Wikipedia (Judo at the 2024 Summer Paralympics; Djibrilo Iafa), Treinadores de Portugal, Rádio Hertz, O Mirante, Jornal O Almeirinense, Associação de Judo do Distrito de Santarém (judoajdsantarem.com), e produção e entrevistas próprias do IPPONZITO, incluindo os artigos já publicados sobre Djibrilo Iafa / Mega Treino de Judo Adaptado e sobre o I Internacional de Judo Adaptado.