Teddy Riner: a lesão, os 37 anos e a mira em Los Angeles 2028
Faltam cinco dias para o Mundial de Judo arrancar em Baku e, pela primeira vez em muitos anos, o nome mais pesado da história da modalidade não vai estar no tatami. Teddy Riner, tricampeão olímpico em individual (2012, 2016, 2024) e onze vezes campeão do mundo em +100kg – mais do que qualquer outro judoca […]
Faltam cinco dias para o Mundial de Judo arrancar em Baku e, pela primeira vez em muitos anos, o nome mais pesado da história da modalidade não vai estar no tatami. Teddy Riner, tricampeão olímpico em individual (2012, 2016, 2024) e onze vezes campeão do mundo em +100kg – mais do que qualquer outro judoca de sempre na categoria – falha o Campeonato do Mundo do Azerbaijão por lesão no ombro, ficando por agora sem a oportunidade de conquistar uma inédita 12.ª coroa mundial. É a confirmação de um percurso que já se desenhava há meses: o gigante francês, hoje com 37 anos, deixou de correr atrás de cada torneio para se concentrar num único objetivo, o último da carreira – os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028. Esta é a história de uma ausência anunciada, de um corpo que já não perdoa como perdoava aos 25 anos, e de uma lição de gestão de carreira que, direta ou indiretamente, fala também à realidade de tantos veteranos do Judo do Ribatejo que continuam a competir, ano após ano, muito depois de a idade lhes dizer para parar.
Uma ausência anunciada
A notícia foi avançada nos primeiros dias de setembro: Teddy Riner não vai defender o título de campeão do mundo em Baku, entre 4 e 11 de outubro, devido a uma lesão no ombro. A Federação Francesa de Judo confirmou a decisão em comunicado, citado pela imprensa francesa, explicando que o estado físico do judoca “não lhe permite participar nos Campeonatos do Mundo de 2026, em Baku” e que “a prioridade passa agora pela sua recuperação e pelo regresso à competição nas melhores condições”.
A ausência não surge isolada. Riner já tinha falhado, nas semanas anteriores, o Grand Prix de Lima e o Grand Slam de Lausanne – dois torneios que, no calendário deste ciclo olímpico mais cauteloso, serviriam normalmente para ir recuperando ritmo de competição. Mais significativo ainda: o gigante de Guadalupe não disputa uma competição oficial desde o histórico duplo título conquistado em Paris 2024 – o seu terceiro ouro olímpico a solo, juntamente com o ouro por equipas. A única exceção foi em dezembro de 2024, na Liga dos Campeões de Judo, em Montpellier, ao serviço do Paris Saint-Germain: entrou apenas na final, decidiu um combate-maratona de 8 minutos e 17 segundos frente ao cubano Andy Ganda e deu ao clube parisiense o título europeu, frente à Étoile Rouge de Belgrado.
A Federação Francesa de Judo confirma, no mesmo comunicado, que Riner mantém intacta a vontade de competir nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028 – a ausência em Baku não é lida, portanto, como o início de uma retirada, mas como mais um episódio de uma gestão de carreira cada vez mais cuidadosa. Em novembro de 2025, Riner tinha já anunciado a escolha de um novo treinador para o acompanhar nesta fase final da carreira, um sinal adicional de que o projeto para 2028 está a ser construído de forma deliberada, e não deixado ao acaso.
O ombro agora lesionado já tinha sido operado uma vez, em 2013, no auge da carreira. Mais recentemente, no início de 2025, foi o cotovelo direito a passar pela faca do cirurgião, pondo fim a anos de desconforto persistente. A soma destes episódios – cotovelo em 2025, ombro em 2026 – desenha o retrato, cada vez mais nítido, de um atleta de 37 anos cujo corpo, depois de mais de duas décadas de alta competição, já não aceita sem custo o ritmo de outros tempos.
“É preciso primeiro ver como evolui o ombro. O facto de não estarmos com pressa dá-nos um certo conforto. Ele pode dizer a si mesmo: vamos até onde formos capazes de ir.” – Julien Corvo, que coordena a preparação de Teddy Riner, à imprensa francesa
Onze títulos mundiais, uma 12.ª coroa adiada
Para medir o peso desta ausência, importa perceber a dimensão do currículo que fica de fora do tatami em Baku. Riner soma onze títulos de campeão do mundo em +100kg, conquistados entre 2007 e 2023 – mais do que qualquer outro judoca, homem ou mulher, em toda a história da modalidade. Uma vitória em Baku seria a sua 12.ª coroa mundial; sem ele em prova, esse número fica, para já, congelado. A este currículo mundial somam-se três ouros olímpicos individuais – Londres 2012, Rio 2016 e Paris 2024, um registo que iguala o recorde do lendário japonês Tadahiro Nomura, dois ouros olímpicos por equipas mistas (Tóquio 2020 e Paris 2024) e dois bronzes olímpicos individuais, incluindo o de Pequim 2008, a sua estreia em Jogos Olímpicos.
Entre outubro de 2010 e fevereiro de 2020, Riner protagonizou uma das sequências mais extraordinárias do desporto mundial: 154 combates consecutivos sem perder, um recorde que só terminou frente ao japonês Kokoro Kageura, no Grand Slam de Paris. Em mais de duas décadas de competição internacional ao mais alto nível, Riner perdeu apenas nove vezes – um número praticamente incompreensível para quem compete há tanto tempo, e numa categoria, a de pesos pesados, onde um único erro de julgamento costuma bastar para decidir um combate.
TEDDY RINER – FICHA DE LENDA
Nome completo: Teddy Riner
Nascimento: 7 de abril de 1989, Les Abymes / Pointe-à-Pitre, Guadalupe
Físico: 2,04m, cerca de 141kg
Clube: Paris Saint-Germain Judo (desde 2017), antes Levallois Sporting Club
Ouros olímpicos individuais: 3 – Londres 2012, Rio 2016, Paris 2024 (recorde partilhado com Tadahiro Nomura)
Ouros olímpicos por equipas mistas: 2 – Tóquio 2020, Paris 2024
Bronzes olímpicos individuais: 2 – Pequim 2008, Tóquio 2020
Títulos mundiais em +100kg: 11 (2007-2023) – o maior número da história da categoria; Baku seria a 12.ª oportunidade
Sequência invicta: 154 combates, outubro de 2010 a fevereiro de 2020
Derrotas na carreira: apenas 9, em mais de duas décadas de competição internacional
Distinções: Cavaleiro da Legião de Honra (2013), Oficial da Ordem Nacional do Mérito (2016), múltiplos prémios de “Campeão dos Campeões”
Uma carreira em datas
TEDDY RINER – LINHA DO TEMPO
2007: Torna-se, aos 18 anos, o mais jovem campeão do mundo de sempre em +100kg
2008: Estreia olímpica em Pequim – medalha de bronze
2010-2020: Sequência de 154 combates internacionais sem perder
2012: Primeiro título olímpico individual, em Londres
2013: Primeira operação ao ombro, no auge da carreira
2016: Segundo título olímpico individual, no Rio de Janeiro
2017: Transferência para o Paris Saint-Germain Judo
2020: Fim da sequência invicta, frente a Kokoro Kageura (Grand Slam de Paris); bronze olímpico em Tóquio (adiados para 2021) e ouro por equipas mistas
2024: Terceiro ouro olímpico individual e ouro por equipas mistas em Paris; acende o caldeirão olímpico com Marie-José Pérec
2025: Operação ao cotovelo direito; escolhe novo treinador em novembro
2026: Nova lesão, agora no ombro; ausência confirmada do Mundial de Baku
2028: Objetivo final: sexta participação olímpica, em Los Angeles
Paris 2024: o topo antes da pausa
Se há uma imagem que resume o que Riner deixa em suspenso ao falhar Baku, é a dos dois dias de agosto de 2024 que fecharam, por agora, o seu currículo individual. Na final de +100kg, frente ao sul-coreano e então campeão mundial Kim Min-jong, Riner conquistou o seu terceiro ouro olímpico individual, consumando a permanência no topo da categoria mais pesada do Judo mundial doze anos depois da sua primeira coroa olímpica, em Londres.
No dia seguinte, protagonizou um dos momentos mais dramáticos dos Jogos de Paris: a final por equipas mistas frente ao Japão, decidida no golden score, com a França e o Japão empatados a 3-3 depois do tempo regulamentar. Foi Riner quem fechou a eliminatória, aos 6 minutos e 26 segundos de prolongamento, com um ippon por ōuchi gari sobre Tatsuru Saito, dando à seleção francesa o título olímpico por equipas em casa. Horas antes da cerimónia de abertura desses mesmos Jogos, tinha sido também Riner, ao lado de Marie-José Pérec, a acender o caldeirão olímpico dos Jogos de Paris 2024 – o reconhecimento máximo, em solo francês, do estatuto de ícone que construiu ao longo de mais de vinte anos de carreira.
Foi depois desse duplo triunfo – o individual e o coletivo, em casa, diante do seu público – que Riner decidiu recuar do calendário competitivo. Não voltou a pisar um tatami a título individual desde então. Uma decisão que, à data, muitos leram como uma pausa técnica depois do esforço de um ciclo olímpico em casa; dois anos depois, sabe-se que era, também, o início de uma nova fase da carreira.
37 anos, um corpo que já não perdoa
Poucos desportos são tão exigentes para o corpo humano como o Judo de alta competição na categoria mais pesada. Cada combate é uma sucessão de arremessos, quedas, projeções e imobilizações a suportar um peso corporal que ronda os 140kg – décadas de acumulação de impacto que, mais cedo ou mais tarde, cobram a sua conta às articulações. Aos 37 anos, Riner já não é o jovem prodígio que, em 2007, se tornou o mais jovem campeão do mundo de sempre em +100kg: é um veterano que sabe, melhor do que ninguém, distinguir entre a dor que se gere e a dor que obriga a parar.
A sequência de intervenções cirúrgicas dos últimos anos – o cotovelo direito em janeiro de 2025, o ombro agora, em 2026, depois de uma primeira operação ao mesmo ombro já em 2013 – não é uma coincidência isolada, mas o preço acumulado de uma carreira construída ao mais alto nível de exigência física durante mais de duas décadas. É esta a equação com que qualquer atleta de combate de longa longevidade se confronta, mais cedo ou mais tarde: quanto mais se estica a carreira, maior a probabilidade de o corpo, e não o adversário, se tornar o obstáculo mais difícil de vencer.
A diferença, no caso de Riner, é a forma como decidiu gerir esse confronto – não com negação, nem com um retiro precipitado, mas com uma reformulação deliberada e pública da própria relação com a competição.
O método Riner: construir para 2028, não sobreviver a 2026
Desde a machadada de Paris 2024, Riner tem sido notavelmente aberto sobre a filosofia que orienta esta reta final de carreira. Ao contrário de ciclos anteriores, em que a qualificação olímpica foi por vezes construída “à última da hora”, como o próprio reconheceu, a abordagem para Los Angeles 2028 assenta na gestão cuidadosa do calendário e do corpo, com competições espaçadas – uma a cada dois ou três meses – em vez do ritmo mais denso de outros tempos.
“O importante é preparar bem Los Angeles 2028. Não vamos repetir os erros do último ciclo, em que construímos a qualificação à última da hora. Desta vez, construímos progressivamente.” – Teddy Riner, à L’Équipe
“Quero chegar a Los Angeles em moonwalk: sem pressão, só pelo prazer.” – Teddy Riner
É uma frase que resume bem o momento da carreira: já não há recordes por bater que justifiquem o sacrifício de competir com o corpo em sofrimento. Há, isso sim, um último objetivo, claramente definido, e uma disponibilidade para adiar tudo o resto até que as condições físicas permitam persegui-lo em segurança. Falhar o Mundial de Baku, nesta lógica, não é uma derrota – é, precisamente, o método a funcionar como previsto.
“Porque é que havia de parar? Isto é bom demais.” – Teddy Riner, sobre a vontade de continuar a competir
A reação: um Mundial sem o rei
O anúncio, confirmado pela Federação Francesa de Judo a 5 de setembro, foi noticiado de forma praticamente unânime pela imprensa desportiva francesa como um “golpe duro” para o Judo mundial. A Eurosport resumiu a dimensão simbólica da ausência numa frase direta: o título mundial de pesos pesados vai ser decidido, em Baku, sem o judoca mais titulado da história da modalidade. É a segunda vez consecutiva que Riner falha um Campeonato do Mundo – já não tinha competido em Budapeste 2025, pela mesma lógica de gestão de carreira – algo que não acontecia desde o início da sua ascensão ao topo da categoria, em meados da década de 2000.
A notícia surge, ainda, num momento em que o resto da seleção francesa de Judo se prepara para Baku sem grandes certezas: a experiente Clarisse Agbégnénou foi convocada, mas outros nomes de relevo, como Amandine Buchard, ficam de fora por outros motivos. Para a federação francesa, a ausência de Riner – o rosto mais reconhecível do Judo mundial nos últimos quinze anos – retira ao Mundial de Baku uma das suas principais atrações de bilheteira e de audiência televisiva, ainda que não belisque, aos olhos dos responsáveis da modalidade, a estratégia de longo prazo que o próprio atleta e a federação têm vindo a desenhar.
Quem herda o palco em Baku
A ausência do homem que dominou os +100kg mundiais durante quase duas décadas deixa a categoria mais pesada do Judo mundial, pela primeira vez em muitos anos, verdadeiramente em aberto. O ranking mundial da IJF à entrada para Baku (atualizado a 7 de setembro de 2026) tem o russo Inal Tasoev a liderar a categoria, com 5.400 pontos – e a chegar a Baku em grande forma, depois de ter vencido o Grand Slam de Lausanne e de já ser, ele próprio, bicampeão mundial em título. Seguem-se o azeri Ushangi Kokauri, que vai competir em casa, com todo o favoritismo do público do National Gymnastics Arena, e o georgiano Irakli Demetrashvili, ambos claramente destacados na luta pelo ouro.
Mais abaixo na tabela, mas com currículo e experiência de sobra para surpreender, surgem nomes como o checo Lukas Krpálek, duas vezes campeão olímpico (em -100kg e +100kg) e um dos poucos veteranos da categoria com estatuto comparável, ainda que a outro nível, ao do próprio Riner; e o georgiano Guram Tushishvili, conhecido pelo estilo agressivo e pela capacidade de decidir combates em poucos segundos. Sem o gigante francês no quadro, qualquer um destes nomes – e vários outros no lote seguinte do ranking – parte com uma hipótese real e inédita de somar o seu nome à lista de campeões mundiais dos pesos pesados, numa categoria que, durante praticamente toda a década de 2010 e metade da de 2020, teve praticamente sempre o mesmo dono. Tasoev, com o título de Lausanne fresco e a condição de bicampeão mundial, chega mesmo como o nome mais indicado para herdar, pelo menos por um ano, o trono que Riner deixa vago.
Um Mundial que o IPPONZITO já vinha a preparar
A ausência de Riner cruza-se, de resto, com a cobertura que o IPPONZITO já vinha a preparar para este Mundial. Na edição anterior, o jornal fez o grande preview do Campeonato do Mundo de Baku 2026 – a arena, o calendário de quinze categorias, o significado do evento como primeiro grande marco do ciclo rumo a Los Angeles 2028 – sem ainda focar em nomes de atletas específicos, precisamente para deixar esse espaço para a reta final da preparação. A ausência confirmada de um dos maiores nomes da história da modalidade obriga, agora, a atualizar essa narrativa: o Mundial de Baku já não é apenas “o evento que abre o caminho a Los Angeles 2028” – é também o primeiro grande Mundial deste século, na categoria mais pesada, disputado sem Teddy Riner em prova.
Como já tinha sido anunciado, o IPPONZITO vai publicar, uma semana antes do arranque da competição, a lista completa dos atletas portugueses presentes em Baku, seguida de cobertura diária da competição entre 4 e 11 de outubro. A ausência de Riner passa a ser, também, parte dessa cobertura – um contexto que qualquer leitor atento ao Judo mundial vai notar assim que a categoria +100kg entrar em ação, sem a figura que a dominou durante quase toda a década de 2010.
Longevidade como filosofia – a ponte para o Ribatejo
A decisão de Riner de gerir a reta final da carreira ao seu próprio ritmo, sem pressa e sem se deixar definir por uma única lesão, é também uma reflexão sobre o que significa continuar a competir depois de o corpo deixar de perdoar tudo. É uma discussão que, guardadas as devidas proporções de escala e visibilidade, não é estranha ao Judo praticado todas as semanas nos tatamis do distrito de Santarém, onde vários mestres e dirigentes construíram – e continuam a construir – carreiras de décadas dentro da modalidade, muito depois de a competição de alto nível ter ficado para trás.
É o caso de Manuel Tavares Lopes, hoje com 76 anos e Vice-Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação de Judo do Distrito de Santarém, que o IPPONZITO entrevistou longamente. Judoca tardio – começou a competir já aos 25 anos, tornou-se depois mestre, árbitro e dirigente, um percurso de meio século que atravessa praticamente todos os cargos possíveis dentro da estrutura associativa, ao seu próprio testemunho “com a única exceção de tesoureiro”. Cinquenta anos depois de fundar a secção de Judo da Casa do Povo de Rio Maior, continua ativo na direção da Associação – uma longevidade construída não à custa de recordes ou medalhas, mas de uma relação com o Judo que nunca se interrompeu.
“A primeira coisa, e fundamental, é gostar do Judo. Depois, muito importante, tem que existir uma forte ligação aos judocas e aos pais. Dentro da estrutura, entender as normas e agir dentro e fora do tapete com humildade e honestidade.” – Manuel Tavares Lopes, ao IPPONZITO
A escala é, obviamente, outra. Riner discute recordes olímpicos e mundiais, Tavares Lopes discute décadas de dedicação a um núcleo de bairro no Ribatejo. Mas o fio condutor é o mesmo: a ideia de que a longevidade no Judo, seja como atleta de elite mundial ou como dirigente distrital, não se mede em anos sobrevividos, mas em anos vividos com propósito dentro da modalidade – e que saber gerir o próprio corpo, o próprio ritmo e as próprias prioridades é, também, uma forma de competência, tão válida como qualquer ippon.
É, de resto, uma realidade bem conhecida de quem acompanha o Judo Sénior e Veterano em Portugal: um universo de praticantes que, muito depois de terem deixado (ou nunca tido) ambições de alta competição, continuam a subir ao tatami em provas nacionais e internacionais de veteranos, ano após ano, por puro gosto pela modalidade – a mesma lógica que move Riner na reta final da sua carreira de elite, apenas transposta para uma escala amadora e para categorias de idade que, em Judo, chegam a ultrapassar os 70 e os 80 anos. É este o pano de fundo com que a decisão de Riner de gerir cuidadosamente o corpo, em vez de forçar contra ele, ressoa também no distrito de Santarém: a ideia de que se pode continuar ligado ao Judo, com saúde e com alegria, muito para além da idade em que a maioria dos desportos de combate obriga a pendurar o quimono.
Los Angeles 2028: a última dança
Riner já confirmou, em várias ocasiões, que Los Angeles 2028 será o seu ponto final. “Não, não haverá depois”, declarou, de forma direta, quando questionado sobre o que viria a seguir aos Jogos americanos. O objetivo está claramente definido: somar duas últimas medalhas olímpicas antes de se retirar em definitivo – uma a título individual, outra por equipas –, replicando o duplo triunfo já alcançado em Tóquio e em Paris.
Los Angeles 2028 será a sexta participação olímpica de Riner, exatamente vinte anos depois da estreia em Pequim 2008, onde conquistou o primeiro dos dois bronzes da carreira antes de começar a dominar a categoria de forma praticamente incontestada. Antes de chegar a esse palco, Riner vai ainda precisar de assegurar, através de resultados em competição, a qualificação olímpica para a categoria – um processo que o adiamento de Baku, e de outros torneios ao longo de 2026, torna mais apertado, mas que a sua equipa técnica insiste em gerir com calma, sem ceder à pressão do calendário.
Falhar o Mundial do Azerbaijão dói, sobretudo, pelo simbolismo: seria a oportunidade de somar um 12.º título mundial, um número que, tal como quase tudo no currículo de Riner, ninguém mais na história da modalidade sequer se aproximou de alcançar. Mas para o próprio, a matemática parece ser outra: dois anos, uma final olímpica em Los Angeles, e o fecho de uma das carreiras mais dominantes de toda a história do desporto de combate – não a qualquer preço, mas nas suas próprias condições.
O que fica:
Teddy Riner não vai estar em Baku, mas a sua ausência conta, por si só, uma história sobre como gerir o fim de uma carreira de excelência: sem negar a idade, sem esconder a lesão, e sem sacrificar o último grande objetivo – Los Angeles 2028 – em nome de um título a mais. É uma lição de longevidade que, à sua escala, ecoa também nos tatamis do Ribatejo, onde mestres como Manuel Tavares Lopes mostram, há décadas, que continuar ligado ao Judo, de forma saudável e com propósito, vale tanto quanto qualquer medalha. O IPPONZITO vai continuar a acompanhar o Mundial de Baku 2026, com a lista de atletas portugueses a publicar-se uma semana antes do arranque da competição, a 4 de outubro.
Nota de Referência
Federação Francesa de Judo / L’Équipe (via outremers360.com, “Judo : Teddy Riner déclare forfait pour les Championnats du monde”, 5 set. 2026), Eurosport (“Toujours blessé, Teddy Riner déclare forfait pour les Mondiaux de Bakou”, 5 set. 2026), franceguyane.fr / L’Équipe (“Teddy Riner renonce aux Mondiaux 2025 : objectif Los Angeles 2028”, mai 2025), Karaté Bushido (“Teddy Riner : Bientôt la fin d’une ère ?”), judo-paris.fr (palmarès de Teddy Riner), Wikipedia (Teddy Riner), International Judo Federation — World Ranking List (ijf.org, versão de 7 de setembro de 2026), e entrevista do IPPONZITO a Manuel Tavares Lopes.

(c) Sabau Gabriela

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Autor
Ana Rodrigues
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