Desporto feminino abre o Congresso do Médio Tejo: de Gloria Steinem ao exemplo do voleibol, um repto também para o Judo
A 5.ª edição do Congresso do Desporto do Médio Tejo arrancou na noite de 18 de setembro, em Torres Novas, com uma Gala de Abertura dedicada ao desporto feminino. Entre os presentes esteve o Presidente da AJDS, Pedroso Leal, numa sessão aberta pelo presidente da Câmara Municipal de Torres Novas, Dr. José Trincão Marques, e […]
A 5.ª edição do Congresso do Desporto do Médio Tejo arrancou na noite de 18 de setembro, em Torres Novas, com uma Gala de Abertura dedicada ao desporto feminino. Entre os presentes esteve o Presidente da AJDS, Pedroso Leal, numa sessão aberta pelo presidente da Câmara Municipal de Torres Novas, Dr. José Trincão Marques, e que levou ao palco dados, exemplos e uma pergunta que fica também a pairar sobre o Judo do Ribatejo: com uma base de atletas tão grande na região, o que falta para transformar mais dela em campeões?
O ESSENCIAL
Evento: Gala de Abertura, 5.ª edição do Congresso do Desporto do Médio Tejo
Data: 18 de setembro de 2026
Local: Torres Novas
Tema da sessão: Desporto Feminino: Crescimento, Desafios e Oportunidades
Presenças de destaque: Pedroso Leal (Presidente da AJDS); discurso de abertura de Dr. José Trincão Marques
Dado central da noite: 60.886 atletas jovens (minis a juvenis) contra 5.489 em juniores A/sub-21/seniores/veteranos, nos 11 municípios do Médio Tejo
Calendário do Congresso: 18 de setembro a 3 de outubro de 2026, com sessões nos 11 municípios do Médio Tejo
Uma abertura com peso simbólico
No discurso de abertura, o presidente da Câmara Municipal de Torres Novas, Dr. José Trincão Marques, enalteceu a importância do Congresso para a região do Médio Tejo, sublinhando o papel do desporto como fator de coesão social e de desenvolvimento pessoal das comunidades. A escolha de Torres Novas para abrir esta 5.ª edição não é acaso: o município está ligado ao Congresso desde a primeira hora, em 2022, quando a iniciativa nasceu por proposta conjunta de três nomes bem conhecidos do desporto da região – Paulo Lourenço, Jorge Heleno e o próprio Pedroso Leal, atual Presidente da AJDS. É, por isso, uma plateia onde a presença do Presidente da Associação de Judo do Distrito de Santarém tem um significado especial: não é apenas mais um convidado, é um dos responsáveis por o Congresso existir.
Gloria Steinem a dar o tom à noite
A sessão abriu com uma citação projetada em palco que resumiu, à partida, o espírito do debate sobre desporto feminino que se seguiria:
“Não pensemos em fazer as mulheres caber no mundo. Pensemos em fazer o mundo caber nas mulheres.”
– Gloria Steinem, jornalista, escritora e ativista pelos direitos das mulheres
Boa governação, com a igualdade de género como critério transversal
Um dos oradores apresentou um modelo de apoio à decisão em governação desportiva, construído à volta de três pilares – Estrutura (liderança, recursos, capacitação), Processos (participação, transparência, tomada de decisão) e Resultados (desempenho, igualdade, sustentabilidade) – sustentados por um ciclo de melhoria contínua, avaliação, aprendizagem e monitorização. A base normativa deste modelo assenta em cinco princípios: direitos humanos, igualdade de género, integridade, transparência e justiça. A mensagem central foi clara: a igualdade de género não é um tema paralelo à boa governação do desporto – é um dos seus critérios transversais, tão relevante quanto a transparência ou a sustentabilidade financeira.
Uma base de quase 61 mil atletas
Um dos momentos mais reveladores da noite foi a apresentação dos números de crescimento de base do desporto no Médio Tejo: 60.886 atletas nos escalões de formação (minis, infantis, iniciados, cadetes e juvenis), contra 5.489 nos escalões de topo (juniores A, sub-21, seniores e veteranos), somando os 11 municípios da região. A proporção – mais de dez jovens em formação por cada atleta sénior – mostra uma base de pirâmide desportiva invulgarmente larga para uma região do interior do país, e foi apresentada como um dos principais trunfos do Médio Tejo: quanto maior e mais bem trabalhada a base, maior a probabilidade estatística de dela nascerem campeões.
O caso do voleibol: um exemplo a seguir
Foi precisamente esse raciocínio – de uma base larga a um topo competitivo – que Leonel Salgueiro veio ilustrar na sua apresentação “Voleibol: Contributo para o Desporto Feminino”. Segundo o orador, o voleibol tornou-se hoje uma das modalidades com maior expressão feminina em Portugal, e isso “não foi por acaso”: resultou de um percurso definido em quatro etapas – crescimento, adaptação estrutural, competitividade e resultados. Como prova visível desse percurso, Salgueiro apontou o recente Europeu da seleção feminina portuguesa de voleibol, descrito como “um Europeu para a história” – o culminar de anos de investimento estrutural na modalidade ao nível feminino, e não um resultado isolado ou fruto do acaso.
Patrícia Sampaio, a prova de que a região já sabe fazer isto
Neste debate sobre a prática do desporto feminino, um nome surgiu naturalmente em destaque: a judoca Patrícia Sampaio, medalhada olímpica em Paris 2024 e natural da região do Médio Tejo, que se mantém como madrinha do Congresso do Desporto. Sampaio é o exemplo mais visível, e mais próximo do Ribatejo, de tudo o que este tema pretende discutir – o crescimento do desporto feminino de alto nível, mas também os desafios que ainda persistem para que mais mulheres cheguem a esse patamar. A própria judoca já deixou, numa mensagem em vídeo à organização, uma ideia central para este debate: o apoio ao desporto feminino não deve surgir apenas quando as atletas já chegaram aos níveis mais elevados de competição.
O desafio que fica para o Judo
Juntando os números ao exemplo do voleibol, a noite de Torres Novas deixou uma equação simples, e ao mesmo tempo um repto direto ao Judo do Médio Tejo: com uma base de quase 61 mil jovens atletas na região, é matematicamente mais fácil produzir campeões – mas só se essa base for trabalhada com a mesma intenção estrutural que o voleibol aplicou ao desporto feminino. O Judo já tem, em Patrícia Sampaio, o seu próprio “Europeu para a história” – a prova de que o topo é alcançável a partir desta região. A pergunta que o Congresso deixa no ar, e que a AJDS e os clubes do distrito terão de responder nos próximos anos, é se existe hoje, no Judo, o mesmo caminho de crescimento, adaptação estrutural e competitividade que transformou o voleibol português numa das modalidades mais fortes ao nível feminino do país – ou se essa base de atletas, tão larga quanto a de qualquer outra modalidade da região, ainda não está a ser trabalhada ao seu potencial máximo.
O que fica
A Gala de Abertura do Congresso do Desporto do Médio Tejo (18 de setembro, Torres Novas) juntou a citação de Gloria Steinem, um modelo de boa governação com a igualdade de género como critério transversal, o dado de 60.886 jovens atletas contra 5.489 seniores/veteranos na região, e o exemplo do voleibol português – crescimento, adaptação estrutural, competitividade, resultados – apresentado por Leonel Salgueiro. Com Pedroso Leal (Presidente da AJDS, cofundador do Congresso em 2022) na plateia e Patrícia Sampaio como madrinha, fica um repto direto ao Judo da região: replicar, com a mesma intenção estrutural, o caminho que já deu ao voleibol um Europeu para a história.
Nota de Referência
Relato direto e registo fotográfico da Gala de Abertura, 18 de setembro de 2026, incluindo a apresentação “Voleibol: Contributo para o Desporto Feminino” de Leonel Salgueiro; Médio Tejo (mediotejo.net) – “Congresso do Desporto cresce em escala e afirma-se como projeto de todo o Médio Tejo”; Correio do Ribatejo – “Congresso do Desporto do Médio Tejo regressa de 18 de setembro a 3 de outubro de 2026”.




Autor
Ana Rodrigues
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