Eteri Liparteliani: a georgiana que escreveu história e agora quer defender o título mundial em Baku
Há pouco mais de um ano, a Geórgia nunca tinha tido uma campeã do mundo, em nenhum desporto olímpico, numa história que remonta a 1992. Eteri Liparteliani mudou isso num domingo em Budapeste, ao conquistar o ouro em -57kg no Mundial de 2025. De 4 a 11 de outubro, a georgiana chega a Baku, no […]
Há pouco mais de um ano, a Geórgia nunca tinha tido uma campeã do mundo, em nenhum desporto olímpico, numa história que remonta a 1992. Eteri Liparteliani mudou isso num domingo em Budapeste, ao conquistar o ouro em -57kg no Mundial de 2025. De 4 a 11 de outubro, a georgiana chega a Baku, no Azerbaijão, como número um do ranking mundial e campeã em título, pronta para defender aquilo que já entrou para a história do desporto do seu país.
FICHA DA ATLETA
Nome: Eteri Liparteliani
Nascimento: 23 de setembro de 1999, Lentekhi, Geórgia
Categoria: -57kg
Clube: Golden Gori
Treinador: Kakha Motsradze
Ranking mundial: 1.ª (melhor classificação de sempre)
Título em defesa: Campeã do Mundo 2025 (Budapeste)
Mundial de Baku 2026: 4 a 11 de outubro, National Gymnastics Arena – -57kg feminino compete no dia 6 de outubro
De Lentekhi ao topo do mundo
Eteri Liparteliani nasceu a 23 de setembro de 1999 em Lentekhi, uma pequena cidade na região montanhosa de Svaneti, no noroeste da Geórgia. O Judo corre na família: é sobrinha de Soso Liparteliani, o primeiro medalhado olímpico da história do país. Desde cedo, o caminho de Eteri foi de recordes nacionais sucessivos – foi a primeira campeã cadete europeia da Geórgia, a primeira campeã júnior europeia, a primeira campeã júnior mundial (em 2019, no Marraquexe) e campeã europeia de sub-23 no mesmo ano. Aos poucos, e escalão a escalão, ia construindo uma carreira feita de primeiras vezes.
A transição para o escalão sénior trouxe consistência: pódios sucessivos em Grand Prix e Grand Slam ao longo de 2021 e 2022, e uma presença cada vez mais regular no top do ranking mundial de -57kg – uma das categorias mais competitivas do Judo feminino, com nomes como a francesa Sarah-Léonie Cysique ou a japonesa Momo Tamaoki sempre por perto.
A dor das duas quintas posições olímpicas
Antes da consagração, vieram dois desapontamentos difíceis de digerir. Nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 e de Paris 2024, Liparteliani terminou em quinto lugar em ambas as edições – depois de perder, nas duas ocasiões, o combate decisivo pela medalha de bronze. Ficar à porta do pódio olímpico, por duas vezes seguidas, é uma das provações mais duras que um atleta de alta competição pode enfrentar.
“Claro que foi muito difícil para mim, uma questão grande e desafiante. Mesmo falar sobre isto ainda hoje é difícil. Quando me lembro destes combates pela medalha de bronze, queria tanto ter sido campeã nos dois Jogos, e não ter medalha nenhuma… essas derrotas foram tão dolorosas. Mas cada derrota dá-me mais confiança no futuro. Se não sentires mesmo a dor da derrota, talvez nunca consigas compreender por completo a alegria que vem com os melhores momentos. É a realidade do desporto.”
– Eteri Liparteliani, à IJF, sobre as duas 5.ª posições olímpicas
Budapeste 2025: a consagração
A 15 de junho de 2025, na Papp László Arena, em Budapeste, Eteri Liparteliani viveu a exibição da sua vida. Dominou a categoria de -57kg do início ao fim, vencendo todos os combates por ippon, até derrotar a japonesa Momo Tamaoki na final. A arena, com uma grande secção da bancada coberta de bandeiras georgianas, explodiu de alegria quando o combate terminou – a Geórgia tinha, finalmente, a sua primeira campeã do mundo de sempre, em qualquer desporto olímpico, desde que o país passou a competir de forma independente em 1992.
“É um momento importante, tornar-me a primeira de sempre na história da Geórgia no Judo. Porque nunca tivemos uma mulher campeã do mundo antes, sou a pessoa que está a escrever esta história. Fui a primeira mulher medalhada num Europeu, a primeira a ganhar ouro num grand prix, a ser medalhada num grand slam, campeã júnior do mundo – por isso continuo a escrever a história do desporto e do Judo georgianos.”
– Eteri Liparteliani, após o título mundial em Budapeste
A própria atleta reconheceu que a prata perdida na final do Europeu de Podgorica, poucos meses antes, tinha sido um motor extra: em vez de se contentar com o segundo lugar, decidiu impor a si mesma um verdadeiro apagão informativo antes do Mundial, recusando-se a olhar para o quadro de participantes ou para o sorteio até à manhã da própria competição – para se concentrar apenas numa ideia: teria de vencer todas, sem exceção, custasse o que custasse.
2026: um ano quase perfeito
Se 2025 foi o ano da consagração, 2026 tem sido o ano da confirmação. Em abril, no Europeu disputado em casa, em Tbilisi, Liparteliani conquistou o título europeu de -57kg, depois de ter ficado pelo segundo lugar na edição anterior, em Podgorica. Juntou-se assim a uma geração de campeões georgianos que fez de Tbilisi um autêntico festival do Judo nacional.
O ano continuou a somar troféus: mais um ouro em Grand Slam em Tbilisi, e, já em agosto, o ouro inaugural do primeiro Grand Slam alguma vez disputado na Suíça, em Lausanne. Como campeã do mundo em título, Liparteliani percorreu o quadro sem perder pé – venceu a turcomana Maysa Pardayeva, a finlandesa Pihla Matikainen, a italiana Giulia Carnà e a francesa Martha Fawaz nas rondas anteriores — até encontrar, na final, novamente Sarah-Léonie Cysique. Resolveu o combate com uma projeção de anca espetacular para ippon, no que foi o seu terceiro título de Grand Slam da carreira.
O que a espera em Baku
O Mundial de Baku 2026 decorre de 4 a 11 de outubro, na National Gymnastics Arena, e reúne 15 categorias – sete masculinas, sete femininas e a prova mista por equipas, que encerra a semana. A categoria de -57kg está agendada para o terceiro dia de competição, 6 de outubro.
Eteri Liparteliani chega a Baku na posição mais incómoda e mais desejada ao mesmo tempo: a de número um do ranking mundial e campeã em título, com um alvo nas costas que todas as adversárias vão querer atingir. Cysique, Tamaoki e outras rivais de topo da categoria vão certamente procurar a revanche. Mas a georgiana chega também na melhor forma da carreira, depois de uma época quase impecável, e com um objetivo declarado que vai muito além de Baku: os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028, onde quer finalmente transformar em ouro aquilo que, por duas vezes, lhe escapou por tão pouco.
“Claro que vou fazer tudo para competir novamente nos Jogos Olímpicos e para ganhar mais medalhas europeias e mundiais. O grande objetivo é LA28; quero lá uma medalha. A nova geração já segue os meus resultados e vou ficar feliz se elas também puderem crescer com sucesso. Vou fazer tudo o que puder por elas e motivá-las a continuar a trabalhar. Estou muito feliz por ser a primeira campeã do mundo e quero ser também a primeira campeã olímpica. As próximas meninas vão lembrar-se de que fui a primeira, e vão saber que também elas o podem ser.”
– Eteri Liparteliani, sobre o futuro
Um exemplo para o Judo do Ribatejo
A história de Eteri Liparteliani interessa muito além das fronteiras da Geórgia. É a história de uma judoca que perdeu por duas vezes, à porta do pódio olímpico, e que em vez de desistir transformou essa dor em determinação – até se tornar, literalmente, a primeira do seu país a chegar ao topo do mundo em qualquer desporto olímpico. Para as jovens judocas do Ribatejo, muitas delas ainda a dar os primeiros passos em competições distritais e nacionais, é um lembrete simples e poderoso: cada primeira vez tem de começar nalgum lado, e ninguém sabe, à partida, até onde um percurso no tatami pode chegar.
O que fica:
Eteri Liparteliani (Geórgia, -57kg) chega ao Mundial de Baku, de 4 a 11 de outubro, como campeã do mundo em título e número um do ranking. Foi a primeira mulher georgiana a ser campeã do mundo em qualquer desporto olímpico, título conquistado em Budapeste em 2025, depois de duas dolorosas 5.ª posições olímpicas em Tóquio 2020 e Paris 2024. Em 2026 já venceu o Europeu de Tbilisi e o Grand Slam de Lausanne. O seu combate em -57kg está agendado para 6 de outubro.
Nota de Referência
International Judo Federation (ijf.org) — “Eteri Liparteliani: the Pioneer”, “European Championships – Day Three” e “Lausanne’s First Grand Slam Delivers a Day to Remember”; Wikipedia — “Eteri Liparteliani” e “2026 World Judo Championships”; Georgia Today — “Eter Liparteliani becomes Georgia’s first female Judo World Champion” e “Eter Liparteliani wins Lausanne Grand Slam”; Olympics.com.

(c) Kulumbegashvili Tamara Foto: IJF

(c) Kulumbegashvili Tamara Foto: IJF

(c) Kulumbegashvili Tamara Foto: IJF
Autor
Ana Rodrigues
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