Pedroso Leal: O Presidente que quer deixar o judo do Ribatejo como referência nacional
A meio do mandato “Juntos Pelo Judo 2025-2028”, o IPPONZITO sentou-se com Pedroso Leal, Presidente da Associação de Judo do Distrito de Santarém, para uma conversa longa e sem atalhos: os motivos que o levaram a assumir o cargo, o balanço exigente de 2026, os planos concretos para 2027, o sonho olímpico de Patrícia Sampaio […]
A meio do mandato “Juntos Pelo Judo 2025-2028”, o IPPONZITO sentou-se com Pedroso Leal, Presidente da Associação de Judo do Distrito de Santarém, para uma conversa longa e sem atalhos: os motivos que o levaram a assumir o cargo, o balanço exigente de 2026, os planos concretos para 2027, o sonho olímpico de Patrícia Sampaio rumo a Los Angeles 2028 e a mensagem final a toda a família do Judo do Ribatejo. É o retrato mais completo, até hoje, de uma liderança que assume tanto as conquistas como as dificuldades.
Um mandato pensado para unir
Quando lhe perguntamos o que o levou a assumir a presidência da AJDS para este mandato, Pedroso Leal não hesita em falar de missão: “Moveu-me o profundo compromisso com o desenvolvimento da modalidade na região e a convicção de que o Judo do Ribatejo tem um potencial humano e desportivo extraordinário que merece uma liderança estruturada, dinâmica e agregadora.” É dessa convicção que nasce o lema que dá nome ao mandato – “Juntos Pelo Judo” – e que o Presidente explica sem margem para ambiguidades: “Significa colocar os interesses coletivos da modalidade acima de qualquer individualidade ou rivalidade clubística. A ideia central é que o crescimento sustentável – da formação à alta competição – só se alcança com a união e o esforço conjunto de clubes, treinadores, atletas, árbitros e famílias.” Uma filosofia que, assume, bebe diretamente de um dos princípios fundadores do próprio Judo: “Neste sentido, uma forte inspiração do princípio Jita Kyoei – Prosperidade Mútua.”
A construção da equipa diretiva seguiu a mesma lógica de equilíbrio entre experiência e renovação: “A equipa foi criteriosamente desenhada com base no mérito, na competência técnica e na paixão pela modalidade. Procurámos um equilíbrio sólido entre a experiência de dirigentes históricos e a energia renovada de novos quadros, distribuindo pelouros específicos a quem verdadeiramente domina, que vive cada área no tatami e que quer trabalhar.” Os quatro grandes objetivos traçados à partida foram claros desde o primeiro dia: a descentralização e expansão de eventos de grande escala na região, a consolidação da formação e da qualificação das graduações, o crescimento robusto do Judo Adaptado e a projeção internacional dos atletas de elite do distrito. Questionado sobre o estado em que encontrou o Judo de Santarém no arranque do mandato, Pedroso Leal resume-o numa frase que é, ao mesmo tempo, elogio e diagnóstico: “Encontrámos um Judo com bases resilientes e clubes muito dedicados, mas que podiam beneficiar de uma maior articulação estratégica e de uma plataforma centralizada de valorização técnica.”
Balanço de 2026: metas superadas, e também lições aprendidas
Passado praticamente um ano e meio de mandato, o balanço que o Presidente traça de 2026 é, nas suas próprias palavras, francamente positivo: “O balanço é extremamente positivo, marcado pela retoma vigorosa das nossas grandes iniciativas desportivas e por uma consolidação administrativa e técnica que supera as nossas metas intercalares.” Entre os momentos mais marcantes do ano, destaca sem hesitar o sucesso do XX Estágio Internacional de Judo em Tomar, a mobilização em torno dos Opens Internacionais, a capacidade logística demonstrada na preparação do I Internacional de Judo Adaptado e a dinâmica alcançada pela prática do Kata a nível nacional e internacional. Sobre o peso destas iniciativas, não tem dúvidas: “Tiveram um impacto catalisador. O Estágio de Tomar colocou, mais uma vez, a nossa região no mapa do judo internacional, enquanto o anúncio dos 11 novos 1º Dan prova que a nossa aposta na formação e na progressão técnica dos atletas está a dar frutos reais e visíveis.”
É, no entanto, uma entrevista que não foge às dificuldades. Questionado sobre objetivos que ficaram por cumprir, Pedroso Leal admite, com frontalidade pouco comum em balanços institucionais: “Felizmente, conseguimos executar o essencial do plano. Contudo, talvez não tenhamos tido a capacidade de intervir junto do desporto escolar de forma a expandir os núcleos de Judo Escolar, um processo que vem demorando devido a burocracias na articulação logística com os agrupamentos de escolas.” E identifica sem rodeios o maior desafio do ano: “O maior desafio reside na escassez de recursos humanos dedicados a tempo inteiro à estrutura associativa, dependendo ainda muito do voluntariado benemérito, a par do habitual malabarismo logístico para transportar e montar tatamis em múltiplos pavilhões da região.” Ainda assim, o número de praticantes cresceu: “Registámos uma pequena curva de crescimento, com um aumento progressivo no número de atletas federados – impulsionado pelo “efeito Paris 2024″ – e a reativação de secções de Judo em dois clubes da região.”
O Plano Estratégico 2027
Olhando para o próximo ano, o Presidente traça três prioridades absolutas: “A nossa prioridade absoluta para 2027 será a modernização tecnológica do suporte global à nossa atividade, o reforço do plano de estágios de competição e de alto rendimento e a expansão territorial da modalidade nos concelhos com menor representação.” Os objetivos são concretos e mensuráveis – mas Pedroso Leal não maquilha os riscos que os rodeiam. Sobre a meta de aumentar em 15% o número de atletas federados, admite: “Definimos aumentar em 15% o número de atletas federados, meta que é provável não atingir face à política de taxas federativas implementadas em 2026, formar pelo menos 10 novos árbitros distritais e realizar 10 ações de formação técnica creditadas para treinadores ao longo do ano.”
O investimento prioritário para 2027 estará concentrado na atividade competitiva internacional dos escalões de formação, na continuidade das ações de formação avançada de treinadores e no desenvolvimento digital da gestão da modalidade, apetrechando os clubes com meios técnicos. No plano das parcerias, a AJDS quer estreitar relações com as autarquias locais para apoio logístico e contratualizar novos patrocínios com o tecido empresarial do Ribatejo – “garantindo que o desporto e a responsabilidade social caminhem juntos”, nas suas palavras. Há também conversações avançadas para trazer para a região uma grande prova do calendário oficial nacional de Cadetes e de Juniores, além da continuidade internacional dos torneios de Judo Adaptado.
Sobre o papel do próprio IPPONZITO nesta estratégia, o Presidente não poupa nas palavras: “O IPPONZITO será um canal vital para humanizar o Judo de Santarém. Ao contar as histórias dos nossos atletas, divulgar os resultados e explicar os valores da modalidade, o magazine ajuda-nos a chegar a novos públicos e a valorizar os nossos amigos patrocinadores.” E resume, numa frase, o legado que ambiciona deixar até 2028: “Quero deixar uma associação financeiramente sustentável, tecnicamente de excelência, e que seja uma referência nacional indiscutível de inclusão e ética desportiva.”


Da base à elite: o caminho de um atleta do Ribatejo
Questionado sobre como está hoje estruturado o percurso de um atleta da região até à alta competição, Pedroso Leal descreve um sistema em cadeia: “O caminho inicia-se na deteção de talentos nos clubes locais, passando depois para os treinos de conjunto da Direção Técnica Associativa (DTA) no nosso centro técnico, onde são integrados em estágios competitivos e preparados para os campeonatos nacionais. A acompanhar esta estratégia, a realização de pelo menos 6 torneios de Judo mais, com estes novos talentos e com o escalão de Juvenis.” Os resultados de 2026 dão-lhe razões para orgulho: “Orgulha-me ver os nossos atletas jovens a subir consistentemente aos pódios dos Campeonatos Nacionais de Juvenis e Cadetes, demonstrando que a renovação geracional está em processo de renovação assegurada.”
A articulação entre a Direção Técnica Associativa e os treinadores de clube é descrita como um trabalho de proximidade total, coordenado pelo Diretor Técnico Associativo, com partilha de relatórios que permite a cada clube planificar os seus treinos em complemento – nunca em conflito – com os treinos associativos. Para 2027, a ambição competitiva está definida: “A nossa ambição é colocar atletas do distrito nas convocatórias das seleções nacionais para as etapas em Taças da Europa e alcançar títulos nacionais individuais nos escalões de formação.”
Formação, Katas e o exame que confirma o crescimento
Para Pedroso Leal, a formação contínua de treinadores e árbitros não é um extra – é a base de tudo: “A formação é o motor de tudo. Um árbitro ou treinador estagnado limita o crescimento dos atletas; por isso, investir na atualização das regras e metodologias de treino é salvaguardar uma melhor qualidade para a prática do desporto e no futuro técnico do nosso Judo.” O percurso de graduações segue rigidamente as diretrizes nacionais, com exames distritais exigentes para os cintos negros – e o balanço das últimas provas foi positivo, revelando uma melhor preparação técnica por parte dos candidatos, entre os quais os 11 novos 1º Dan anunciados este verão.
Sobre o papel do Kata e da Defesa Pessoal na oferta formativa da associação, o Presidente é claro quanto ao seu valor: “A Kata é um pilar fundamental da vertente tradicional e social do Judo.” Uma área que, sob a tutela dos respetivos responsáveis, “vem evoluindo paulatinamente, registando uma procura crescente, atraindo praticantes que procuram o bem-estar e o aperfeiçoamento da autodefesa fora do ambiente estritamente competitivo.” Para 2027, os planos de formação já estão desenhados: um grande Workshop Prático de Defesa Pessoal, um Curso de Arbitragem com preletores nacionais e ações específicas focadas no ensino das Katas obrigatórias para exames de graduação.
Arbitragem: qualidade reconhecida, a precisar de sangue novo
O corpo de arbitragem da região é, para o Presidente, motivo de orgulho – mas também de preocupação quanto ao futuro: “Temos um corpo de arbitragem qualificado e respeitado. Em termos de número, contudo, precisamos de recrutar mais jovens árbitros para garantir a sustentabilidade e a escala das nossas provas locais.” A formação de novos árbitros passa pelos cursos distritais organizados pela AJDS, com acompanhamento prático assegurado pela Comissão Associativa de Arbitragem durante as competições. E há já referências da região a arbitrar regularmente ao mais alto nível nacional – com um objetivo bem definido para este mandato: “O nosso objetivo primordial para este mandato é criar as condições necessárias para impulsionar a progressão de pelo menos um dos nossos árbitros rumo às insígnias internacionais.”
Patrícia Sampaio e o sonho olímpico de Los Angeles 2028
Se há tema que faz o Presidente mudar de tom, é este. Falar de Patrícia Sampaio é falar, para Pedroso Leal, do rosto mais visível de tudo aquilo em que a AJDS acredita: “É um motivo de imenso orgulho e uma responsabilidade acrescida. A Patrícia Sampaio é o expoente máximo do sucesso desportivo do nosso território; ter a sua imagem e percurso vinculados à AJDS no arranque deste novo ciclo confere uma validação extraordinária ao trabalho aqui realizado.” O papel da associação no caminho da atleta rumo a Los Angeles 2028 é descrito como total: “Desempenhamos um papel de suporte institucional total. Garantimos as melhores condições possíveis de treino nas passagens pela região, apoiamos a dinamização das suas iniciativas locais e funcionamos como um porto seguro logístico e motivacional na sua caminhada de alta competição.”
O impacto da medalha de bronze de Paris 2024 no Judo feminino da região é, nas suas palavras, impossível de ignorar: “O impacto é avassalador e imediato. A medalha de bronze de Paris 2024 quebrou barreiras e preconceitos; passámos a registar uma afluência recorde de raparigas nos tapetes dos nossos clubes, todas inspiradas pelo exemplo de superação e carisma da Patrícia.” Para consolidar esse impulso, a associação está a desenhar treinos exclusivos “Judo no Feminino”, estágios técnicos de partilha e campanhas de sensibilização nas escolas sobre os benefícios físicos e mentais da modalidade para as mulheres. À jovens judocas da região que sonham seguir um caminho semelhante ao de Patrícia Sampaio, Pedroso Leal deixa uma mensagem que serve, também, de retrato do próprio espírito do Judo: “Diria que o caminho é feito de quedas, mas que cada “ippon” na vida se conquista com resiliência. A Patrícia treinou nos mesmos tatamis e enfrentou as mesmas dificuldades que elas enfrentam hoje; com foco, paixão e o apoio certo, o sonho olímpico está ao alcance de qualquer uma.”
SUPER JUDO: quando a inclusão é prática, não discurso
Poucos temas emocionam tanto o Presidente como o projeto SUPER JUDO, que descreve sem hesitar como a “joia da coroa da nossa responsabilidade social”. O balanço, garante, é profundamente emocionante e positivo: “Conseguimos retirar dezenas de jovens do isolamento, integrando-os na prática desportiva regular com benefícios motores e cognitivos visíveis.” A organização do I Internacional de Judo Adaptado, em Almeirim, foi por isso descrita como um marco histórico absoluto – “espelha o facto de que, para nós, a inclusão não é um discurso abstrato, mas sim uma prática desportiva de pleno direito que colocamos na montra internacional.”
O projeto só é viável, reconhece, graças à sinergia com instituições de referência como o CRIAL, ao apoio financeiro e logístico da Câmara Municipal de Almeirim e ao apadrinhamento de empresas locais que acreditam no desporto inclusivo. Para o médio prazo, a ambição é clara: “Ambicionamos expandir o modelo do SUPER JUDO a mais instituições de solidariedade do distrito, capacitar mais treinadores para o desporto adaptado e converter o torneio de Almeirim numa paragem obrigatória no circuito internacional da modalidade.”
Comunicação, planeamento e o papel do IPPONZITO
Nos últimos anos, a AJDS tem apostado numa presença digital mais ativa nas redes sociais, na transmissão em streaming de algumas finais e numa relação mais profissionalizada com a imprensa regional. É nesse esforço de modernização que o Presidente enquadra o papel deste magazine: “O IPPONZITO será o nosso principal veículo de comunicação profunda. Esperamos que atue como a voz oficial e o arquivo vivo do Judo do Ribatejo, documentando o nosso crescimento técnico e promovendo o reconhecimento público dos nossos agentes desportivos.”
Para além do Estágio Internacional e dos Opens, o Presidente identifica outras atividades que quer ver consolidadas como estruturantes: uma Gala Anual do Judo do Ribatejo – “onde possamos reunir a família do judo de Santarém e premiar mérito de atletas e dirigentes” –, as concentrações de Judo Infantil e o circuito de treinos interassociativos. O calendário anual, garante, não nasce de um gabinete fechado: “O calendário é decidido de forma democrática e concertada. O Conselho Técnico e a Direção elaboram uma proposta base articulada com o calendário da Federação Portuguesa de Judo; de seguida, reunimos com os treinadores e delegados dos clubes filiados para ajustar datas e garantir que a logística serve os interesses de todos.”
CFTCKK: o quartel-general do Judo do Ribatejo
Sediado em Torres Novas, o Centro de Formação Técnico Competitiva do Judo Mestre Kiyoshi Kobayashi – CFTCKK – é apresentado por Pedroso Leal como uma peça central da infraestrutura da associação: “A sua missão fundamental é dotar a AJDS de uma infraestrutura física permanente e de excelência, servindo de “quartel-general” para o alto rendimento distrital, estágios de seleções, exames de graduação, ações de formação, competições e preservação do legado histórico do Mestre Kobayashi – o pai do Judo em Portugal.” Ao longo de 2026, o centro funcionou, nas suas palavras, “a pleno vapor”, acolhendo os treinos semanais da Direção Técnica, estágios de preparação competitiva, o prestigiado Troféu Ibérico de Kata, ações de formação técnica especializadas e encontros dedicados ao projeto SuperJudo.

Os sonhos e o legado
Confrontado com a pergunta que fecha esta grande entrevista – se pudesse escolher uma única coisa para acontecer ao Judo do Ribatejo nos próximos cinco anos – Pedroso Leal não hesita, e o sonho que descreve é, também, um voto de confiança no trabalho de base que a AJDS tem vindo a construir: “Ver novamente um(a) atleta integralmente formado(a) num clube da AJDS alcançar uma medalha num Campeonato do Mundo ou nos Jogos Olímpicos, provando em definitivo a autossuficiência e a qualidade técnica da nossa região.”
Quanto ao legado que quer deixar quando o mandato terminar, em 2028, a resposta é despida de grandes discursos e cheia de sentido prático: “Gostaria que ficasse a memória de uma Direção transparente, que trabalhou de mãos dadas com as bases e que conseguiu dotar a região de uma infraestrutura sólida, estável e respeitada a nível nacional.”
E é com uma mensagem dirigida a todos os que fazem, diariamente, o Judo do Ribatejo acontecer – clubes, treinadores, atletas e famílias – que Pedroso Leal escolhe encerrar esta conversa: “O meu mais sincero agradecimento pela vossa entrega diária no tatami e fora dele. O valor do Judo não se mede apenas pelas medalhas, mas sim pelo caráter, pela ética, pela disciplina e respeito que transmitimos às nossas crianças e jovens.”
“Continuemos todos a caminhar, com orgulho, ‘Juntos Pelo Judo’!”
Autor
Tiago Martins
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