Manuel Francisquinho: o guardião do Kata no coração do Judo de Santarém
Há mais de cinco décadas no tatami e seis anos à frente dos destinos do Kata na Associação de Judo do Distrito de Santarém, Manuel Francisquinho, 6.º Dan, é hoje uma das vozes mais autorizadas desta vertente em Portugal. Sob a sua responsabilidade, o distrito conquistou o seu lugar histórico num Campeonato da Europa, ergueu […]
Há mais de cinco décadas no tatami e seis anos à frente dos destinos do Kata na Associação de Judo do Distrito de Santarém, Manuel Francisquinho, 6.º Dan, é hoje uma das vozes mais autorizadas desta vertente em Portugal. Sob a sua responsabilidade, o distrito conquistou o seu lugar histórico num Campeonato da Europa, ergueu o Troféu Ibérico de Kata a um dos eventos de referência da Península Ibérica e formou uma geração de judocas que aprendeu que o Kata não é o passado do Judo – é o seu alicerce e o seu futuro.
Uma paixão nascida em 1973
Manuel Francisquinho começou a praticar Judo em 1973, aos 14 anos, “impulsionado pelo gosto pelas artes marciais e pela influência de um grupo de amigos”. O que começou como curiosidade rapidamente se transformaria numa paixão para a vida. Mas foi mais tarde, já na preparação para os exames de graduação e a conquista dos cintos negros, que o Kata entrou de forma decisiva no seu percurso.
“Foi nesse momento de maior exigência que descobri o meu gosto pela perfeição técnica, pelo rigor e pelo respeito pela tradição que o Kata exige. Para além da influência de mestres que me souberam guiar, encontrei no Kata a verdadeira essência e a beleza da arte do Judo.” – Manuel Francisquinho
O que o fez apaixonar-se especificamente por esta vertente, e não apenas pela competição, foi a descoberta de que o Judo é muito mais amplo do que a vitória num combate. Enquanto o Shiai se foca na eficácia imediata perante o adversário, o Kata desafia o praticante a superar-se a si mesmo – “uma autêntica meditação em movimento e um exercício profundo de autodisciplina”, como lhe chama.
Ao longo do caminho, foram muitos os mestres que marcaram a sua formação – de referências internacionais como Ichiro Abe (10.º Dan, Japão), Shoji Sugiyama (9.º Dan, ex-responsável de Kata da União Europeia de Judo) ou Michel Kozlowski (ex-responsável de Kata da IJF), a grandes nomes do Judo português como Bastos Nunes (9.º Dan) ou Manuel Martins (7.º Dan). E, na cumplicidade do tatami, um nome que se repete com carinho especial: o de Tiago Silva, “um fiel companheiro e amigo nesta longa caminhada de treinos, exames de graduação e estágios”.
O convite de 2020: um novo capítulo
A dedicação de Francisquinho ao Kata já vinha de longe – competidor e medalhado várias vezes em Campeonatos Nacionais desde os tempos do 1.º Dan. Mas foi em 2020 que o seu papel ganhou uma dimensão institucional, através de um convite direto do Presidente da AJDS, Dr. António Leal, para assumir a responsabilidade pelos Katas na Associação – função que hoje acumula com a Presidência da Comissão Associativa de Graduações da AJDS.
“Foi um passo estratégico para dar uma nova dinâmica à formação, organizando e valorizando esta vertente técnica que é a base do Judo no distrito de Santarém.” – Manuel Francisquinho
Desde então, o seu dia a dia passa por estruturar e supervisionar todo o trabalho de Kata na região: treinos distritais e estágios específicos, cursos de deteção de talento, formação de juízes de Kata e acompanhamento rigoroso dos judocas em preparação para os exames de Cinto Negro – sempre em estreita articulação com o Diretor Técnico Associativo, Mestre Filipe Lopes, com a Direção da AJDS e, sobretudo, com os clubes e treinadores do distrito, que descreve como “a verdadeira engrenagem deste trabalho”.
O que é o Kata, afinal?
Para explicar o Kata a quem apenas conhece o Judo de competição, Manuel Francisquinho recorre a uma analogia simples e poderosa.
“O Judo de competição é a aplicação prática em combate, mas o Kata é a enciclopédia viva e o manual de instruções onde estão guardados todos os segredos e técnicas puras da modalidade. Dizer que o Kata é ‘menos importante’ é o mesmo que dizer que as fundações de uma casa são menos importantes do que o seu telhado.” – Manuel Francisquinho
A ligação aos princípios fundadores de Jigoro Kano é, para Francisquinho, “total e absoluta”: o Seiryoku Zen’yo (o uso máximo e eficiente da energia) e o Jita Kyoei (prosperidade e benefício mútuo) tornam-se visíveis precisamente no Kata, onde cada movimento é desenhado para gastar o mínimo de energia com a máxima eficácia, e onde Tori e Uke evoluem lado a lado, em cooperação absoluta. “O Kata não é apenas uma sequência de movimentos, é o veículo que Jigoro Kano utilizou para garantir que o Judo se mantinha como uma arte de autodisciplina, educação e respeito pelo próximo, e não uma mera forma de combate violento”, resume.
Há, no entanto, um preconceito que gostaria de desconstruir junto dos mais jovens: a ideia de que o Kata é “estático, aborrecido ou apenas para os judocas mais velhos”, uma obrigação burocrática que serve apenas para “decorar” e passar em exame. “O Kata não é passado, é presente e futuro”, contrapõe – cada gesto simula, ao pormenor, uma situação real de combate, onde se estuda o desequilíbrio (Kuzushi), o encaixe (Tsukuri) e a projeção (Kake).



O trabalho no terreno
Uma sessão de Kata começa sempre com a saudação tradicional, o Rei, que define a atitude mental correta, seguida de um aquecimento centrado na flexibilidade, na postura e no treino de quedas – “um bom Kata depende tanto de quem projeta como de quem cai”. Depois, o estudo torna-se minucioso: os desequilíbrios, as distâncias, o ritmo dos passos. “Não é apenas repetir; é pensar sobre cada centímetro do movimento”, explica.
Preparar um par para um exame ou apresentação é construir uma sintonia absoluta entre Tori e Uke, até funcionarem “como um único corpo”. Nas semanas que antecedem a prova, os treinos são filmados, os detalhes de postura e olhar corrigidos ao milímetro, e o cenário perante júri é simulado repetidamente, até o par apresentar o Kata “com a dignidade e a fluidez que a arte exige”.
A formação da região assenta em três pilares – o Nage-no-Kata, o Katame-no-Kata e o Kime-no-Kata – indissociáveis das provas de graduação: não há progressão na carreira de um judoca na AJDS sem a demonstração rigorosa destas formas tradicionais. Mais recentemente, a Associação avançou também para formas superiores, como o Koshiki-no-Kata e o Itsutsu-no-Kata, com Francisquinho a ter o privilégio de apresentar pessoalmente este último em prova nacional.
Santarém no mapa do Kata europeu
Entre todas as conquistas, há uma que Francisquinho destaca com orgulho evidente: a primeira representação portuguesa de sempre no escalão de Cadetes em Nage-no-Kata, alcançada em dois Campeonatos da Europa, culminando num histórico 6.º lugar europeu.
“Digo com imenso orgulho que a primeira representação portuguesa de sempre no escalão de Cadetes em Nage-no-Kata, em dois Campeonatos da Europa, foi nossa. É cedo para falar em campeões consolidados, mas esta resiliência e este nível de estreia internacional dão-nos a certeza de que os grandes títulos irão aparecer naturalmente com o trabalho contínuo.” – Manuel Francisquinho
A esta conquista desportiva junta-se um marco organizativo: o Troféu Ibérico de Kata, realizado no CFTCKK (Torres Novas) em parceria com a Federación Extremeña de Judo, que transformou o centro distrital numa das paragens obrigatórias do Kata ibérico, pontuando para o ranking oficial espanhol e atraindo alguns dos pares mais medalhados da Europa e do Mundo. “É a prova viva de que a AJDS tem capacidade para organizar eventos de nível mundial e de que o CFTCKK é um polo de excelência para a preservação técnica do Judo”, resume.


Os obstáculos de todos os dias
Sem filtros, Francisquinho identifica uma tríade de obstáculos ao desenvolvimento do Kata na região: a mentalidade de curto prazo de clubes que canalizam recursos quase em exclusivo para o Shiai, por dar medalhas mais visíveis e imediatas; a escassez de tempo e de apoios logísticos para conciliar as agendas de Tori e Uke, muitas vezes espalhados por concelhos distintos de um distrito geograficamente disperso; e a falta de reconhecimento mediático e financeiro face à vertente competitiva.
“Sim, sem dúvida. Seria hipocrisia dizer o contrário: o Kata é, muitas vezes, desvalorizado dentro do próprio mundo do Judo. Não perco tempo a lamentar-me; prefiro agir. Respondo a essa desvalorização mostrando que a AJDS consegue levar Cadetes a um Campeonato da Europa e trazer de lá um 6.º lugar histórico para Portugal.” – Manuel Francisquinho, sobre a desvalorização do Kata face à competição
Sobre a evolução técnica dos praticantes na região nos últimos anos, a avaliação é feita com a mesma honestidade direta: há progresso, mas o caminho está longe de terminado. “Apesar de haver cada vez mais praticantes interessados, noto que ainda persiste algum estigma e resistência por parte de alguns clubes da região, que tendem a focar-se quase exclusivamente na vertente competitiva do Shiai”, reconhece. Ainda assim, o trabalho desenvolvido desde 2020 tem permitido manter “um núcleo duro de pessoas fortemente interessadas e dedicadas”, garantindo ao distrito uma representação digna nos palcos nacionais – “a prova de que a semente da excelência técnica está bem viva no distrito de Santarém”.
O momento mais emocionante
Perguntado pelo momento mais emocionante da sua carreira ligada ao Kata, Francisquinho não hesita – e a resposta foge de qualquer resultado desportivo.
“O que verdadeiramente me faz bater o coração mais forte e traz lágrimas aos olhos é o momento da superação através da inclusão: ver um praticante com necessidades especiais, que enfrentou barreiras gigantescas e o próprio estigma da sociedade, conseguir superar-se e obter o seu Cinto Negro com um Kata brilhante. Quando eles sobem para receber o Cinto Negro, não estamos apenas a validar uma graduação técnica; estamos a celebrar a dignidade humana e o poder transformador do desporto.” – Manuel Francisquinho
É essa mesma sensibilidade que o leva a apontar o trabalho de expansão do Judo Adaptado como uma das grandes metas para os próximos anos – a par do reforço do Kata junto dos escalões mais jovens, através do projeto Judo+ e do Kodomo-no-Kata.
Sonhos para o Ribatejo
A curto prazo, os objetivos passam por alargar a base de praticantes, consolidar os dois Opens semestrais de Kata e sensibilizar mais treinadores para a reciclagem técnica. A médio prazo, a ambição é maior: dar continuidade ao histórico resultado europeu, afirmar o CFTCKK como polo internacional de acolhimento de eventos com chancela da IJF, e aprofundar o estudo de Katas superiores.
“O meu grande sonho é que o distrito de Santarém seja reconhecido de forma unânime como a capital incontornável do Kata em Portugal. Daqui a dez anos, gostaria de olhar para trás e ver que o Kata garantiu a sustentabilidade, a riqueza técnica e a sobrevivência da verdadeira alma do Judo na nossa região.” – Manuel Francisquinho
Um sonho sem limites: o Centro de Alta Performance
Questionado sobre o que faria primeiro se tivesse todos os recursos e apoios necessários à sua disposição, Francisquinho tem a resposta pronta – e organizada em três frentes concretas.
Primeiro, instituiria bolsas de apoio logístico e financeiro para os atletas e os seus ukes, financiando viagens, estadias e inscrições em estágios internacionais, e eliminando a barreira da dispersão geográfica do distrito. Segundo, avançaria para a contratação de grandes referências mundiais de Kata, do Japão e da Europa, para residências técnicas prolongadas na região – trazendo o conhecimento de mais alto nível diretamente para o tatami da AJDS, em vez de o ir buscar apenas a estágios pontuais. Terceiro, criaria um programa de incentivos diretos aos clubes que integrassem o Kata nas suas rotinas diárias, apoiando a aquisição de materiais e a formação especializada dos seus treinadores.
“Com recursos ilimitados, o Ribatejo não seria apenas uma referência nacional; transformar-se-ia num Centro de Alta Performance de Kata reconhecido pela Federação Internacional de Judo, atraindo atletas de todo o mundo para treinar na nossa região.” – Manuel Francisquinho
Conselho e legado
A quem nunca praticou Kata mas sente curiosidade, o conselho é simples: “entra no tatami com o coração aberto, liberta-te dos preconceitos e experimenta sem medo”. Aos treinadores, pede que vejam o Kata não como um conteúdo isolado, mas como a ferramenta pedagógica mais poderosa ao seu dispor – e que percam o receio de voltar a sentar-se na cadeira de alunos para aprender as novas dinâmicas.
Sobre o que gostaria de deixar como legado à frente do Kata na AJDS, a resposta resume, numa frase, seis anos – e mais de cinco décadas – de dedicação ao tatami.
“Gostaria que o meu legado fosse o de ter quebrado o estigma e plantado a semente do Kata no coração de cada clube, provando que o rigor técnico e a inclusão são a verdadeira alma e o futuro do Judo no Ribatejo.” – Manuel Francisquinho, 6.º Dan FPJ
Nota de Referência
Entrevista elaborada a partir das declarações concedidas por Manuel Francisquinho, 6.º Dan FPJ, responsável pelo Kata na AJDS, ao IPPONZITO – Magazine do Judo do Ribatejo.

Autor
Tiago Martins
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