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O engenheiro que também conduz autocarros: Gonçalo Sousa e o trabalho que ninguém vê quando tudo corre bem

Enquanto os atletas treinavam no Pavilhão Municipal Patrícia Sampaio, Gonçalo Sousa estava, na maior parte das vezes, algures entre o Regimento de Infantaria 15, o Instituto Politécnico de Tomar e o aeroporto, a garantir que ninguém faltava a um treino, a uma refeição ou a um avião. É esse o retrato do voluntariado de Gonçalo no Estágio Internacional de Judo da AJDS: um trabalho quase sempre invisível, que só se nota quando falha.

Por Tiago Martins 6 minutos de leitura
Gonçalo Sousa, voluntário da AJDS, no Estágio Internacional de Judo em Tomar- preparação do espaço para o evento
Gonçalo Sousa, voluntário da AJDS, geriu a logística e os transportes do Estágio Internacional de Judo em Tomar.

Enquanto os atletas treinavam no Pavilhão Municipal Patrícia Sampaio, Gonçalo Sousa estava, na maior parte das vezes, algures entre o Regimento de Infantaria 15, o Instituto Politécnico de Tomar e o aeroporto, a garantir que ninguém faltava a um treino, a uma refeição ou a um avião. É esse o retrato do voluntariado de Gonçalo no Estágio Internacional de Judo da AJDS: um trabalho quase sempre invisível, que só se nota quando falha.

De cronometrista a “faz-tudo” informático

Gonçalo colabora em eventos de Judo desde 2020, tendo começado como marcador e cronometrista durante as provas. Com o tempo, acabou por ficar responsável por toda a componente informática das provas e estágios da AJDS, responsabilidade que mantém até hoje. Sobre o motivo de continuar envolvido, ano após ano, é direto: “continuar a contribuir para a organização do estágio deste ano surgiu de forma natural. Acabo por encarar esta colaboração como uma responsabilidade que fui assumindo ao longo dos anos, mais do que propriamente como voluntariado pontual.”

Um dia inteiro ao volante

Este ano, Gonçalo ficou responsável por toda a logística de transporte dos atletas, do aeroporto ao alojamento, do alojamento ao pavilhão, do pavilhão às refeições, e de volta. O dia típico começava de manhã, ao acompanhar os atletas do Regimento de Infantaria 15 até ao IPT para o pequeno-almoço, seguindo depois para o pavilhão para o treino da manhã. Repetia-se o trajeto ao almoço, e novamente ao final da tarde, entre o treino, o jantar e o regresso ao alojamento.

O último dia teve um desfecho próprio: depois do treino da manhã e do almoço, Gonçalo acompanhou os atletas até ao aeroporto, “de forma a garantir que todos chegavam em segurança e sem qualquer incidente”. No dia seguinte, já como motorista, foi ainda necessário levar ao Aeroporto de Lisboa os atletas cujo voo de regresso só saía nessa data, prova de que, para quem trata da logística, o estágio só termina mesmo quando o último atleta embarca.

Centralização do alojamento, e um autocarro de última hora

Sobre a organização geral, o balanço é positivo: “de uma forma geral, a organização do estágio correu bastante bem e não tenho nenhum aspeto de maior a apontar.” Destaca em particular a centralização do alojamento da maioria dos atletas num único local este ano, o que “facilitou significativamente toda a logística”, sobretudo ao nível dos transportes e da gestão de horários, um aspeto que considera importante manter nas próximas edições.

Já a principal sugestão de melhoria vai para a antecedência na reserva dos meios de transporte: na sexta-feira, o transporte de atletas para o aeroporto teve de recorrer a duas carrinhas de nove lugares conduzidas por voluntários, depois de a solução inicial não ter ficado garantida a tempo. “Embora esta solução tenha permitido assegurar o transporte dos atletas, considero que seria preferível garantir antecipadamente um meio de transporte com capacidade adequada, de forma a evitar a necessidade de recorrer a soluções alternativas de última hora.”

 

 

Atrasos, bom senso e o preço de passar despercebido

A situação mais recorrente a gerir foi garantir que todos os atletas estavam a tempo no autocarro, evitando atrasos em cadeia. Nos casos mais críticos, foi preciso falar diretamente com os atletas e também com os respetivos treinadores, para assegurar o cumprimento dos horários. Sobre a forma como os voluntários são vistos por atletas e treinadores, nota que o papel nem sempre é confortável: “existem situações em que cabe aos voluntários fazer cumprir determinadas regras ou horários, o que pode ocasionalmente gerar algum conflito. Nessas situações, considero que é importante existir bom senso de ambas as partes.”

Questionado sobre anedotas de bastidores, Gonçalo não hesita em assumir a ausência delas como um sinal positivo: “o facto de não terem ocorrido situações mais invulgares acabou por ser, de certa forma, um sinal de que a organização decorreu de forma tranquila. Ainda assim, talvez seja precisamente essa a parte menos visível do trabalho de bastidores: quando tudo corre bem, há muitas situações que acabam por passar despercebidas.”

O código por trás do tatami

Já não é atleta, mas a ligação ao Judo e à AJDS mantém-se “muito forte”. Para além da colaboração direta nos eventos, Gonçalo aplica a sua formação superior em Engenharia Informática ao serviço da associação: “tive a oportunidade de utilizar os conhecimentos que adquiri ao longo da minha formação superior em Engenharia Informática para desenvolver ferramentas e programas que ajudam a melhorar e automatizar alguns dos processos associados à organização das provas.” É essa possibilidade de contribuir de formas diferentes, nem sempre a partir do tatami, que o mantém envolvido ano após ano.

Uma equipa que já era grupo de amigos

No terreno, Gonçalo integra uma equipa de voluntários com quem colabora há vários anos, colegas que, antes de serem voluntários, foram todos atletas do mesmo clube e colegas de treino. Essa história em comum simplifica tudo: “não somos apenas um grupo de voluntários que trabalha em conjunto durante os eventos. Somos também um grupo de amigos e colegas de longa data, o que facilita bastante a comunicação, a confiança e a divisão das tarefas. Muitas vezes conseguimos perceber aquilo que é necessário fazer sem ser preciso sequer comunicar formalmente entre nós.”

A memória que vai ficar

Sobre o que sente ao ver o estágio a correr bem, sabendo que o seu trabalho contribuiu para isso, a resposta resume bem o espírito de quem trabalha nos bastidores: “Grande parte do trabalho de bastidores passa despercebida quando tudo corre bem, mas é precisamente esse o objetivo. No final, saber que os atletas conseguiram treinar, deslocar-se e participar no estágio sem que os problemas relacionados com a logística tivessem um impacto significativo na sua experiência é, por si só, uma recompensa pelo trabalho realizado.”

Voltaria a ser voluntário sem hesitar, e deixa uma mensagem a quem está a pensar dar o mesmo passo: “Diria para experimentar. Nem todas as funções de voluntariado estão diretamente relacionadas com o Judo dentro do tatami, e existem muitas tarefas diferentes onde é possível contribuir, independentemente da experiência ou da função que se desempenhe habitualmente. Se houver vontade de ajudar, acredito que haverá sempre uma forma de contribuir. E, muitas vezes, são precisamente as pessoas que trabalham nos bastidores que permitem que quem está no tatami se possa concentrar apenas naquilo que tem de fazer.”