As novas regras de pontuação do Judo: o que muda antes das primeiras competições da época
Com as primeiras competições da época a aproximarem-se, é boa altura para rever as regras de arbitragem e pontuação que a Federação Internacional de Judo (IJF) pôs em vigor para todo o ciclo olímpico rumo a Los Angeles 2028 – regras que, através da Federação Portuguesa de Judo, se aplicam também nas provas nacionais e […]
Com as primeiras competições da época a aproximarem-se, é boa altura para rever as regras de arbitragem e pontuação que a Federação Internacional de Judo (IJF) pôs em vigor para todo o ciclo olímpico rumo a Los Angeles 2028 – regras que, através da Federação Portuguesa de Judo, se aplicam também nas provas nacionais e distritais que os judocas do Ribatejo vão disputar já a partir de outubro. O regresso do yuko, novas regras de pega, penalizações mais claras para perda de tempo e critérios de segurança reforçados são as mudanças mais relevantes – e vale a pena que atletas, treinadores e pais as conheçam antes de pisar o tatami de competição.
Porque mudam as regras agora
As alterações foram apresentadas num encontro técnico da IJF em Istambul, em dezembro de 2024, com quase 330 delegados de 79 países, e entraram em vigor a partir do Grand Slam de Paris, em fevereiro de 2025. Depois de um período de observação até ao Mundial de Budapeste de 2025, a IJF confirmou este mesmo conjunto de regras – com alguns esclarecimentos adicionais – para vigorar ao longo de todo o ciclo de qualificação olímpica para Los Angeles 2028, que arrancou em 2026. Isto significa que as regras não são uma novidade de última hora: já rodaram uma época inteira nas provas internacionais antes de chegarem, agora, com força total às competições em Portugal.
O regresso do yuko
O QUE É O YUKO
Eliminado em 2017, o yuko está de volta como pontuação oficial. É atribuído quando o adversário cai a 90 graus ou mais para a frente e a queda ocorre de lado, nas costas (parte superior), no pescoço, no eixo do ombro, sobre um cotovelo ou uma mão, ou sobre uma nádega (com ou sem contacto do braço ou cotovelo). Em ne-waza, o yuko passa também a premiar um osae-komi (imobilização) entre 5 e 9 segundos. O yuko NÃO é atribuído se, numa queda de lado a 90 graus ou mais para a frente, a frente do abdómen, a frente das ancas ou os dois joelhos tocarem primeiro no tatami. É importante perceber que os yukos nunca se somam para formar um waza-ari – servem apenas para desempatar combates quando o número de waza-ari é igual entre os dois atletas.
Na prática, o yuko vem reconhecer projeções que, sendo tecnicamente válidas, resultam em quedas mais controladas ou menos completas do que as que hoje valem waza-ari – dando aos árbitros uma ferramenta mais fina para reconhecer o esforço técnico sem inflacionar a pontuação principal.
Waza-ari e ippon: o que fica igual, o que aperta
O ippon mantém-se inalterado, continuando a ser a pontuação máxima, atribuída a uma projeção completa, com força, velocidade e controlo, que faça o adversário cair predominantemente de costas. Já o waza-ari passa a cobrir apenas as quedas de qualidade inferior ao ippon mas superior a uma queda lateral para trás – ou seja, o espaço de pontuações intermédias que antes seria, em muitos casos, também classificado como waza-ari, é agora repartido com maior rigor entre waza-ari e o novo yuko.
Kumi-kata: novas regras de pega
As regras de pega (kumi-kata) foram também clarificadas. Passa a ser permitido agarrar dentro da manga do casaco em tachi-waza (Judo em pé), e dentro do casaco e das calças em ne-waza (Judo no solo). A pega abaixo do cinto é permitida até ao topo da coxa interior do adversário – mas agarrar, prender ou tocar diretamente a perna continua proibido, e é penalizado com shido. Depois de tomar a pega clássica (uma mão na manga, outra na lapela), o judoca tem 30 segundos para preparar um ataque; se optar por uma pega não convencional, esse tempo de preparação é mais limitado, e é exigida atividade mais imediata.
O “abraço de urso” (agarrar o tronco do adversário sem pega tradicional) é permitido em tachi-waza – exceto quando as mãos ou os braços ficam entrelaçados a formar um círculo fechado à volta do adversário, situação em que é penalizado com shido.
Quebra de pega: o que é permitido em 2026
Uma das clarificações mais recentes da própria IJF, já específica da época 2026, diz respeito à quebra de pega. É permitido quebrar a pega do adversário com uma ou duas mãos, desde que se mantenha pelo menos uma pega própria; é também permitido quebrar com uma só mão, mesmo que não se fique com pega nenhuma a seguir. O que passa a ser penalizado com shido é quebrar a pega do adversário com as duas mãos sem manter qualquer pega própria depois – uma ação puramente defensiva que a IJF quer desincentivar, em favor de um Judo mais combativo.
Perder tempo tem preço
A gestão do tempo entre o “matte” (pausa) e o “hajime” (reinício) passou a ser fiscalizada com mais rigor. Não se levantar prontamente depois do trabalho de solo, não regressar de imediato à posição inicial, ou demorar excessivamente a ajustar o cabelo, o judogi ou o cinto, são agora comportamentos sujeitos a penalização: a primeira ocorrência gera apenas um aviso, mas a partir da segunda, o árbitro já aplica shido.
Segurança em primeiro lugar
Várias das novas regras reforçam a proteção dos atletas. O kansetsu-waza (chave articular) aplicado em combinação com uma técnica de projeção é penalizado com shido quando representa baixo risco de lesão e o adversário (uke) tinha hipótese de o evitar; mas passa a hansoku-make (desqualificação) sempre que uke não tinha qualquer hipótese de evitar a situação. A aplicação de ushiro-sankaku em ne-waza que represente risco elevado para o pescoço ou a coluna do adversário é também considerada hansoku-make, com ou sem “matte” entretanto chamado.
Quanto ao uso da cabeça nas projeções: em seniores e juniores, tori pode usar a cabeça para projetar, e uke pode fazer defesa de cabeça, sem penalização – mas em cadetes, ambas as situações são penalizadas com shido (com a pontuação a ser atribuída a tori, se aplicável). Mergulhar de cabeça no tatami continua a ser considerado sempre perigoso, e penalizado com hansoku-make, em qualquer escalão. O seoi-nage invertido segue a mesma lógica: permitido em seniores e juniores, penalizado com shido em cadetes.
Não-combatividade: agora conta também o solo
Uma mudança de fundo, com impacto direto na forma como se treina: os árbitros passam a avaliar a não-combatividade considerando tanto a atividade em pé (tachi-waza) como no solo (ne-waza). Até aqui, um atleta podia evitar penalização por passividade limitando-se a simular ataques em pé; agora, a procura ativa de progressão no solo conta a favor do judoca, o que deve valorizar, também nas competições distritais, quem investe verdadeiramente no trabalho de imobilizações, estrangulamentos e chaves.
O que isto significa para as competições em Santarém
Sendo a Federação Portuguesa de Judo filiada na IJF, estas regras de arbitragem aplicam-se, com as devidas adaptações por escalão etário, às competições nacionais e distritais que os clubes do Ribatejo vão disputar a partir de outubro – do Open Internacional de Tomar às provas organizadas pela Associação de Judo do Distrito de Santarém. Para treinadores e atletas, a recomendação é simples: rever com atenção, sobretudo, a regra do yuko (que vai aparecer com mais frequência nos placares), as novas regras de pega e quebra de pega, e – para quem treina cadetes – as restrições específicas ao uso da cabeça nas projeções e ao seoi-nage invertido, que não se aplicam da mesma forma nos escalões de sénior e júnior.
O que fica:
A época 2026-2028 chega com um Judo de arbitragem mais fina: o yuko regressa para reconhecer quedas de qualidade intermédia, as regras de pega e quebra de pega ficam mais claras, a gestão do tempo entre combates é mais fiscalizada, e a segurança do adversário ganha mais peso nas decisões de desqualificação. São regras que já rodaram uma época inteira no circuito internacional e que chegam agora, através da Federação Portuguesa de Judo, às competições do Ribatejo – vale a pena que todos, dos mais novos aos mais experientes, cheguem a outubro a conhecê-las bem.
Fontes de Referência
International Judo Federation – “New Rules: What to Remember” (ijf.org, dez. 2024) e “Rules Confirmed Ahead of a New Season” (ijf.org); DOJO News Network – “IJF Updates Judo Rules for 2026 Season: What Judoka Need to Know” (jan. 2026).
Autor
Ana Rodrigues
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