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“Vocês já ganharam”: Luís Gonçalves e dez anos de Judo Adaptado no Ribatejo

Há dez anos, um convite para uns workshops nas instituições do distrito de Santarém mudou o percurso de Luís Gonçalves, que só descobrira o Judo aos 17 anos. Hoje é o rosto do Judo Adaptado da AJDS: sete instituições, cerca de oitenta atletas, medalhas em Campeonatos Nacionais e Europeus e, já a 23 e 24 […]

Por Tiago Martins 13 minutos de leitura
Luís Gonçalves no XII Open Internacional Cadetes AJDS, Tomar, 2026. Foto: André Mata Sport

Há dez anos, um convite para uns workshops nas instituições do distrito de Santarém mudou o percurso de Luís Gonçalves, que só descobrira o Judo aos 17 anos. Hoje é o rosto do Judo Adaptado da AJDS: sete instituições, cerca de oitenta atletas, medalhas em Campeonatos Nacionais e Europeus e, já a 23 e 24 de outubro, o primeiro Torneio Internacional de Judo Adaptado alguma vez organizado em Portugal, em Almeirim. Numa conversa longa e sem filtros com o IPPONZITO, fala dos sacrifícios, das dúvidas, e de uma frase que disse uma vez aos seus atletas – e que, dez anos depois, ainda define tudo o que faz.

Um treino de inverno, sem meias e sem queixas

É a imagem que Luís Gonçalves escolhe quando lhe pedimos para descrever o que mais o marca no seu trabalho. Um treino de inverno no Centro de Formação Técnico Competitivo de Judo do Mestre Kiyoshi Kobayashi, o frio a entrar pelo pavilhão dentro, e um grupo de atletas do Judo Adaptado que chegou descalço, sem meias, para o primeiro treino do género.

“Apareceram com um frio danado, vinham descalços, e percebi que não tinham trazido meias. Toda a gente estava a treinar sem meias, e ninguém disse: ‘não vou’, ‘vou parar’ ou ‘não consigo’. Fizeram o treino.” – Luís Gonçalves

A partir desse dia, passou a sugerir que trouxessem meias antiderrapantes. Mas o que ficou foi outra coisa: a constatação, repetida ao longo de dez anos, de que os seus atletas não reclamam. “São atletas que dão tudo e não reclamam de nada. Quando puxamos por eles, dão o máximo e não se retraem. Verdadeiramente, estão no tapete e dão 100%”, resume. É esse espírito – garra, sem queixas – que atravessa toda a conversa que se segue.

Uma amizade e um convite, há dez anos

O Judo chegou tarde à vida de Luís Gonçalves – só aos 17 anos, quase 18 –, através de um colega que já praticava a modalidade. Foi assistir a uma aula, numa quarta-feira, e na sexta-feira seguinte já estava a treinar. “Adorei. Nunca mais parei”, resume, sobre um percurso que nunca mais teve pausa.

O Judo Adaptado surgiu mais tarde, e também por convite. Há dez anos, o distrito de Santarém organizou um conjunto de workshops de sensibilização em instituições da região, e Luís foi um dos convidados – ao lado de duas colegas, Sandra e Cláudia. Nenhum tinha, até então, trabalhado com pessoas com deficiência.

“A verdade seja dita, nunca tinha trabalhado com aquele tipo de pessoas, com as suas limitações. Foi um processo: em cada aula que ia dando, adquiria mais conhecimento em todos os aspetos, com a ajuda das minhas colegas. Fomos andando, de instituição em instituição, até que surgiu a oportunidade de criarmos mais alguma coisa.” – Luís Gonçalves

O percurso não foi linear: por motivos de saúde, Luís chegou a afastar-se do projeto durante um período. Resolvidas as questões de saúde – “graças a Deus, veio-se a concluir que não era nada grave” —, voltou a convite de Filipe Lopes, desta vez para assumir o trabalho a sério, à frente do que é hoje a direção do Judo Adaptado da associação.

O que é, de facto, incluir

Perguntado sobre o que significa verdadeiramente a inclusão no desporto, Luís não hesita: é aquilo que já está a acontecer, todas as semanas, nos tapetes que visita. “Ninguém deixa de fazer judo porque tem alguma dificuldade, seja de coordenação motora”, explica – trabalha sobretudo com pessoas com deficiência intelectual e síndrome de Down.

Ao longo de dez anos, aprendeu a ensinar de outra forma: pouca informação de cada vez, movimentos mais lentos, muita repetição. “Ando há dez anos a dar as mesmas técnicas, mas é isto mesmo: funciona assim, não vale a pena inventar”, diz, sem qualquer sinal de desânimo na frase – antes um orgulho tranquilo por ter encontrado o que resulta.

Há também um mito que faz questão de desfazer. Já ouviu, de pessoas com cargos importantes em instituições, que o Judo poderia tornar os seus atletas mais agressivos.

“Eu acredito precisamente no contrário, e é isso que tenho visto até agora. O judo torna-os muito mais calmos e ajuda-os a perceber o que está certo e o que está errado.” – Luís Gonçalves

A saudação ao parceiro, a saudação ao tapete – nenhum dos seus atletas entra ou sai sem a fazer. “Foi uma coisa que se falou uma ou duas vezes e, entretanto, passou a fazer parte da rotina. Eles trabalham muito à base da rotina. Nesse aspeto, cinco estrelas”, resume.

Do Judo + ao Super Judo

Foi a partir das provas de Judo+, onde a associação trabalha com os mais pequenos em fase de iniciação, que nasceu a ideia do Super Judo: juntar, no mesmo espaço e em tapetes lado a lado, os atletas do Judo Adaptado e os judocas mais jovens – a inclusão a acontecer literalmente dentro do mesmo pavilhão.

O projeto seguiu as mesmas regras do Judo dito “normal”: há shido por faltas, sutemis são proibidos, e os atletas sabem exatamente o que podem e não podem fazer. Começou com cerca de quatro instituições; são hoje sete, com cerca de setenta a oitenta atletas envolvidos.

“O que eu vejo é que eles evoluem, mas, por vezes, parece que perdem essa evolução. Nalguns fica registado, noutros nem por isso. Para aquela malta, duas, três, quatro técnicas, no máximo, é mais do que suficiente.” – Luís Gonçalves

O CRIAL foi uma das primeiras instituições a juntar-se, “desde o dia 1”. Juntaram-se depois o CRIO de Ourém, o CRIA de Abrantes, o CERE do Entroncamento, o CIRE de Tomar e o CRIT de Torres Novas – uma rede que nasceu diretamente dos primeiros workshops e que, garante Luís, “nunca se perdeu”. A associação, entretanto, tratou de arranjar tapetes para as instituições, e de garantir que Luís tinha onde dar as aulas.

Sempre à volta do dinheiro

Pedimos a Luís que falasse sem filtros sobre as dificuldades do dia a dia. A resposta foi imediata, e repetida ao longo de toda a conversa: dinheiro.

“Já fiz contas à vida, já pensei pôr uma licença sem vencimento, já tudo e mais alguma coisa, e cheguei à conclusão que não consigo. É impossível. Não consigo de maneira nenhuma.” – Luís Gonçalves, sobre dedicar-se a tempo inteiro ao projeto

O que começou gratuito tornou-se, com o tempo, mais pesado: desde janeiro, a Federação passou a cobrar inscrições e revalidações que antes não tinham custo, uma mudança que Luís descreve sem rodeios. A associação assumiu essas despesas para os atletas em prova, mas as deslocações – combustível, transporte – continuam a pesar sobre as próprias instituições, que já têm poucos recursos.

Também não há treinadores especializados suficientes. “Se não temos treinadores para o judo normal, para o judo adaptado ainda menos”, admite. A solução, por agora, é ele próprio formar os técnicos das instituições, semana após semana, para que o trabalho continue mesmo nos dias em que não pode estar presente.

O custo mais alto, no entanto, não se mede em euros. Luís é funcionário público, encarregado numa junta de freguesia, e as férias a que tem direito tornaram-se, na prática, dias de trabalho não remunerado com o Judo Adaptado.

“Não é fácil. Tenho o meu emprego, e depois disso tenho as minhas ditas férias – férias que eu não gozo. Um bocado, às vezes, sacrificando a família, visto que a família só pode estar de férias comigo uma semana.” – Luís Gonçalves

Há alturas, admite, em que pensa desistir. “Há alturas em que a gente anda mesmo em baixo – a minha vida não é só judo adaptado, tenho a minha filha, tenho a família, e tudo isso pesa.” Mas volta sempre à mesma conclusão: “eles não têm a culpa. E eu gosto muito daquilo que faço, gosto muito de trabalhar com eles.”

“Vocês já ganharam”

É a história que Luís escolhe, sem hesitar, quando lhe pedimos um momento para partilhar com os leitores. A primeira participação dos seus atletas num Campeonato Nacional de Judo Adaptado, em Lisboa. Oito ou nove judocas, todos extremamente nervosos, à porta do maior palco em que alguma vez tinham competido.

“Pessoal, isto é um treino. Vocês já ganharam. O simples facto de estarem aqui, no Campeonato Nacional, vocês já ganharam.” – Luís Gonçalves, aos seus atletas, antes do primeiro Campeonato Nacional

Foi ali, garante, que a ficha caiu e os nervos passaram. Chegar até àquele palco já tinha sido, para cada um deles, uma vitória – desde logo porque nem todos os atletas de cada instituição são escolhidos para competir; fazer parte da seleção é, em si, um desafio. No final, todos trouxeram medalha. Mas não foi isso que ficou gravado. “Para mim, não foi o caso das medalhas, mas sim o simples facto de eles estarem presentes e de ter corrido como correu. Ninguém se magoou, toda a gente se classificou, melhor ainda.”

Quando a equipa regressou de Itália, do Campeonato da Europa de Judo Adaptado, encontrou famílias e instituições à espera no aeroporto, bandeiras de Portugal ao alto. “Foi muito giro, foi muito engraçado. Tanto para eles como para mim”, recorda Luís, que confessa não ser “muito ligado a essas coisas”, mas que não esconde o efeito que a cena teve.

Almeirim, 23 e 24 de Outubro: o Primeiro Internacional

É a próxima grande fronteira: pela primeira vez em Portugal, um torneio internacional inteiramente dedicado ao Judo Adaptado, organizado pela AJDS em Almeirim, a 23 e 24 de outubro. Luís faz questão de repartir os créditos – “não sou eu a organizar, somos nós”, insiste, apontando o diretor técnico e o presidente da associação como parte central do esforço.

Sendo o primeiro, é também uma incógnita. Já há uma equipa francesa e uma espanhola praticamente confirmadas, e um contacto pendente com a Sérvia. Este fim de semana, Luís está na Polónia, num “Get Together” internacional de Judo Adaptado, onde aproveita para convidar pessoalmente outras federações a somarem-se ao evento de Almeirim.

“Isto não são provas que se organizam 15 dias antes. Dois ou três meses antes, já tem de estar no calendário, porque uma equipa estrangeira não se desloca com muita facilidade.” – Luís Gonçalves

Da parte burocrática – os apoios da Câmara Municipal de Almeirim, os protocolos, os contactos institucionais – Luís confessa manter-se deliberadamente afastado. “Cada vez mais quero é dar aulas de judo e estar no tapete”, explica, deixando claro que o seu papel é insistir, acompanhar, perguntar se cada etapa já está tratada – o flyer, a circular, os horários – e confiar o resto a quem trata dessa parte.

O que espera destes dois dias é simples: que os atletas fiquem contentes, e que as famílias – muitas delas raramente presentes, porque os seus filhos ou familiares vivem institucionalizados e só saem uma vez por semana, quando saem – vejam, ao vivo, que todo o trabalho valeu a pena. E já olha para o ano seguinte: “sou otimista por natureza. Independentemente de isto correr bem, para o ano já estou a pensar no próximo ano.”

Cinco escalões e um sonho: chegar a um Campeonato da Europa

Perguntado pelo sonho pessoal para o futuro do projeto, Luís resume-o em quatro palavras: “Estar a 100%, a trabalhar 100%.” Para a associação, o horizonte é mais concreto – daqui a cinco anos, quer ver atletas do Ribatejo num Campeonato da Europa de Judo Adaptado com bons resultados. E faz questão de sublinhar: “já os temos.”

Explica, para os leitores menos familiarizados, como funciona a modalidade: o Judo Adaptado divide-se em cinco escalões, dos quais os designados “mainstream 1 e 2” reúnem atletas que, consoante o grau da sua condição, competem tanto no Judo Adaptado como no Judo dito normal. Já os escalões 1 e 2 propriamente ditos são, nas palavras de Luís, “os verdadeiros campeões da Europa” do Judo Adaptado – uma estrutura ainda em formação um pouco por toda a Europa, com vários países, como a Hungria, a organizar os seus próprios “Get Together” para a consolidar.

Entre os seus atletas, há um que segue com particular atenção: começou a treinar com Luís aos quatro anos, e vai agora, pela primeira vez, a uma prova internacional de maior exigência. Mas até aí, avisa, não há certezas.

“É sempre uma incógnita trabalhar com esta malta. Ele hoje pode estar muito bem; no outro dia pode estar completamente o oposto.” – Luís Gonçalves

É essa imprevisibilidade que torna o trabalho de Luís único – e também o mais exigente: um atleta pode estar em prova numa manhã e, à tarde, ter de sair de um treino porque simplesmente não está bem naquele dia. “Há coisas que acontecem que, às vezes, são só naquela altura”, resume, sem drama, como quem já aprendeu a lidar com isso há muito.

Uma mensagem às empresas – e às famílias

Sobre patrocínios e apoios, Luís é o primeiro a admitir que não é essa a sua praia. “Isto é uma coisa que passa ao meu lado, não sou eu o contacto – há pessoas que devem fazer isso”, explica. Mas, se uma empresa lhe perguntar diretamente o que falta, tem resposta pronta: equipamento, transporte, inscrições, seguros. “O financeiro era ideal, porque resolvia uma série de questões.”

“Elas têm tudo a ganhar. É publicidade, e a verdade é essa. É totalmente diferente estar a apoiar uma equipa de futebol e estar a apoiar uma equipa de judo adaptado, onde eles têm muito mais necessidade – aí, sim, aparece a tal inclusão.” – Luís Gonçalves, sobre o que uma empresa ganha ao apoiar o projeto

E a uma família que ainda hesite em levar um filho ou familiar ao Judo Adaptado, a mensagem é simples, quase um convite direto: apareçam. “Se tem algum receio, é ir a um dos nossos treinos, seja qual for – assistir a uma aula e ia ver que realmente não teria dúvida nenhuma em pôr o seu filho a fazer judo.”

O que fica:
Dez anos, sete instituições, cerca de oitenta atletas, medalhas em Campeonatos Nacionais e Europeus – e, já a 23 e 24 de outubro, o primeiro Torneio Internacional de Judo Adaptado alguma vez organizado em Portugal, em Almeirim. Por trás de tudo isto, um homem que gasta nele as próprias férias e diz não conseguir, ‘de maneira nenhuma’, fazer isto a tempo inteiro – mas que garante, sem hesitar, que voltaria a escolher o mesmo caminho. ‘Vocês já ganharam’, disse Luís Gonçalves aos seus atletas, à entrada do primeiro Campeonato Nacional. Dez anos depois, é uma frase que também podia ser dita sobre o próprio projeto.

Nota de Referência

Esta grande entrevista foi elaborada a partir das respostas em áudio concedidas por Luís Gonçalves ao IPPONZITO – Magazine do Judo do Ribatejo, transcritas e organizadas para publicação, a propósito do 1.º Torneio Internacional de Judo Adaptado, em Almeirim (23 e 24 de outubro de 2026).