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Nuno Delgado: “Santarém faz parte da minha história e das minhas raízes enquanto judoca”

Chegou a Santarém aos sete anos e encontrou, na Casa do Benfica, muito mais do que um desporto. Vinte e seis anos depois de ter conquistado, em Sydney, a primeira medalha olímpica do Judo português, Nuno Delgado olha para trás sem nostalgia e para a frente sem pressa: fala de Los Angeles 2028, da nova […]

Por Tiago Martins 9 minutos de leitura
Nuno Delgado, primeiro medalhado olímpico do Judo português, de judogi
Nuno Delgado, Presidente/Fundador da Escola de Judo Nuno Delgado e Vice-Presidente da Associação dos Atletas Olímpicos de Portugal.

Chegou a Santarém aos sete anos e encontrou, na Casa do Benfica, muito mais do que um desporto. Vinte e seis anos depois de ter conquistado, em Sydney, a primeira medalha olímpica do Judo português, Nuno Delgado olha para trás sem nostalgia e para a frente sem pressa: fala de Los Angeles 2028, da nova geração liderada por Patrícia Sampaio e Jorge Fonseca, e do papel que as associações distritais – como a de Santarém – continuam a ter na construção de todos os campeões que virão a seguir.

NUNO DELGADO EM SÍNTESE

• Chegou a Santarém aos sete anos e formou-se no Judo da Casa do Benfica de Santarém.

• Medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Sydney 2000 – a primeira medalha olímpica da história do Judo português.

• Campeão da Europa em 1999.

• Competiu ainda nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004.

• Mais tarde representou o Sporting Clube de Algés e Dafundo, numa evolução natural do percurso competitivo.

Sete anos, uma cidade nova, e o início de tudo

A mudança para Santarém marcou profundamente a infância de Nuno Delgado. Tinha cerca de sete anos, e foi ali que encontrou uma comunidade acolhedora e um ambiente que lhe permitiu crescer. O Judo surgiu através da Casa do Benfica de Santarém – e rapidamente percebeu que aquele espaço lhe dava algo muito importante: disciplina, desafio e pertença.

Numa época em que a consciência sobre hiperatividade e dislexia era muito diferente da atual, foi o Judo que, sem grandes diagnósticos ou explicações, acabou por dar forma a essa energia. “O que senti foi que o Judo me ajudou a canalizar energia, a ganhar foco e a desenvolver confiança”, recorda. “Não percebi imediatamente que era ‘o desporto certo’, mas com o tempo tornou-se evidente que o Judo me estava a ensinar muito mais do que técnicas de combate.”

As pessoas que ensinaram mais do que técnicas

Questionado sobre quem foi decisivo nesses primeiros anos, Nuno Delgado prefere não individualizar nomes – “foram várias as pessoas que contribuíram para o meu percurso: os treinadores, colegas de treino e dirigentes tiveram um papel importante, todos sabemos quem são” –, mas deixa claro que o que ficou foi mais do que técnica. “Mais do que ensinar técnicas, ensinaram valores que ainda hoje procuro transmitir.” Entre esses mestres esteve António Anjinho, cofundador da secção de Judo da Casa do Benfica de Santarém, cujo percurso e cuja relação com Nuno Delgado o IPPONZITO já retratou numa Grande Entrevista anterior.

Nada, contudo, anunciava o destino olímpico. “Sinceramente, não”, responde, quando questionado se havia sinais de que chegaria aos Jogos Olímpicos. “Havia vontade, dedicação e gosto pelo treino. Mas entre um jovem praticante e uma medalha olímpica existe um caminho muito longo. O que existia era a vontade de ser melhor todos os dias.”

Uma evolução natural, sem nunca deixar Santarém

A saída para o Sporting Clube de Algés e Dafundo, mais tarde no percurso, é descrita por Nuno Delgado como um passo lógico de crescimento competitivo, não como uma rutura. “Foi uma evolução natural do meu percurso competitivo. Eu e os meus mestres procurámos contextos que me permitissem crescer enquanto atleta. Mas Santarém ficou sempre presente. Foi lá que aprendi as primeiras lições de Judo e que construí as bases do que viria a ser o meu percurso.”

Sydney 2000: “Muito mais do que um resultado individual”

Chegamos, então, ao momento que mudou para sempre o lugar do Judo português no desporto nacional: a medalha de bronze conquistada em Sydney, em 2000 – a primeira medalha olímpica da história da modalidade em Portugal.

“A sensação de concretizar um sonho construído durante muitos anos. Lembro-me do combate, mas sobretudo das pessoas, dos treinadores, da família e de todos aqueles que fizeram parte da caminhada. A medalha representou muito mais do que um resultado individual.” – Nuno Delgado, sobre a memória mais forte de Sydney 2000

Curiosamente, a dimensão histórica daquele resultado só se revelaria mais tarde. “No momento, não”, responde sobre se sentiu, à data, que estava a abrir um caminho. “Estava focado em competir. Só mais tarde percebi o significado daquela medalha para o Judo português e para muitas gerações de atletas que passaram a acreditar que era possível chegar ao pódio olímpico.”

De Sydney a Atenas, com serenidade

Quatro anos depois, em Atenas 2004, Nuno Delgado voltaria a competir nos Jogos Olímpicos – desta vez sem o desfecho de pódio. Olhando para trás, encara essa segunda participação sem qualquer ressentimento. “Com serenidade. O desporto não é apenas feito de vitórias. Sydney ensinou-me a ganhar, e Atenas ensinou-me a lidar com a adversidade. Ambas foram experiências fundamentais para o meu crescimento enquanto pessoa.”

Sobre o que mudou depois de Sydney, o balanço é positivo mas não isento de reservas: “houve maior visibilidade mediática, maior reconhecimento institucional e mais investimento. No entanto, continua a existir margem para reforçar estruturas de desenvolvimento, formação de treinadores e apoio à transição de carreira dos atletas.” Questionado sobre qual foi a conquista mais especial da carreira, recusa escolher apenas uma: “todas tiveram significado. O título europeu de 1999 foi uma confirmação de que podia competir ao mais alto nível. Mas a medalha olímpica teve um impacto único, porque representou uma conquista coletiva para o Judo português.”

Duas gerações, o mesmo compromisso

Passadas mais de duas décadas, Nuno Delgado tem uma visão privilegiada sobre a evolução do Judo português – de dentro e de fora do tatami. “Os atletas de hoje têm acesso a melhores condições, mais informação e maior profissionalização. A minha geração teve, muitas vezes, de abrir caminho e construir estruturas que hoje já existem.” Sobre o momento atual da modalidade a nível nacional, o diagnóstico é positivo: “vejo um Judo competitivo e respeitado internacionalmente. Os resultados dos últimos anos demonstram capacidade técnica e qualidade de trabalho, embora seja necessário garantir continuidade.”

Também o ensino às crianças evoluiu, na sua leitura: “hoje existe uma maior preocupação pedagógica. O Judo não é apenas ensinado como modalidade desportiva, mas também como ferramenta educativa para o desenvolvimento de competências pessoais e sociais.” E, quando confrontado com os nomes de Patrícia Sampaio e Jorge Fonseca – a nova geração de referência do Judo português –, resume o que mudou entre a sua época e a deles: “encontram exemplos concretos de sucesso internacional, estruturas mais consolidadas e uma cultura de excelência que foi sendo construída ao longo das últimas décadas.”

O que falta: continuidade e base

Perguntado diretamente sobre o que falta para chegar a mais medalhas, Nuno Delgado não hesita: “continuidade estratégica. O talento existe. O desafio passa por fortalecer o desenvolvimento a longo prazo, aumentar a base de praticantes e criar percursos sustentáveis para atletas e treinadores.” Nesse desenho, o papel das associações distritais – como a de Santarém – é, para si, central: “são fundamentais. É nos clubes e nas associações que nasce a grande maioria dos praticantes. Sem esse trabalho de proximidade, não existem campeões nacionais nem olímpicos.”

“A lição que gostaria de transmitir é que o foco deve estar sempre na construção das pessoas. Os resultados aparecem como consequência de processos consistentes, valores sólidos e trabalho de longo prazo.” – Nuno Delgado

Apoio, investimento e a vida depois da carreira

Sobre se o apoio atual às modalidades e aos atletas é suficiente, a resposta é equilibrada: “melhorou significativamente, mas existe sempre espaço para evoluir. Quando falamos de alto rendimento, a competitividade internacional exige investimento contínuo e planeamento estratégico.” E há um desafio que, no seu entender, continua por resolver de forma consistente: o que acontece depois da carreira desportiva. “A transição. Muitos atletas dedicam décadas ao desporto e precisam de apoio para transformar as competências adquiridas em novas oportunidades profissionais e pessoais.”

Los Angeles 2028 e o futuro do judo português

Com o ciclo olímpico rumo a Los Angeles 2028 já em curso, Nuno Delgado aponta o caminho: “continuar a investir na formação de base, no apoio aos treinadores e na criação de percursos sustentáveis para os jovens talentos.” Sobre a possibilidade de haver mais do que um caminho até ao topo, não tem dúvidas: “sem dúvida. Não existe um único percurso. Cada atleta tem a sua história. O importante é manter a paixão pelo processo e a capacidade de adaptação.”

Questionado sobre como imagina o Judo português daqui a dez anos, a resposta é ambiciosa mas equilibrada: “espero um Judo mais forte, mais inclusivo, mais presente nas escolas e com maior impacto social, mantendo simultaneamente a capacidade de conquistar resultados internacionais.”

Uma palavra ao Ribatejo

Fechado o círculo, Nuno Delgado volta a Santarém – nem que seja apenas em pensamento. “Sempre que possível acompanho o que acontece em Santarém e no Ribatejo. Gostaria de ver a região continuar a investir na formação, na qualificação dos treinadores e na cooperação entre clubes.” E o que sente quando lá regressa? “Sinto gratidão. Santarém faz parte da minha história e das minhas raízes enquanto judoca. É impossível regressar sem recordar as pessoas e os momentos que marcaram o início desta caminhada.”

Sobre eventual disponibilidade para apoiar projetos do Judo regional, a resposta é imediata: “sempre estive disponível para apoiar iniciativas que promovam o Judo, os valores e o desenvolvimento das novas gerações. Se puder contribuir para o crescimento da modalidade, procuro fazê-lo com gosto.”

“Acreditem no processo. Os grandes resultados nascem de pequenos gestos repetidos diariamente. Independentemente das medalhas que conquistarem, utilizem o Judo para se tornarem melhores pessoas e para contribuírem positivamente para a comunidade.” – Nuno Delgado, mensagem final aos clubes e jovens judocas do Ribatejo.

O que fica:
Vinte e seis anos depois de Sydney, Nuno Delgado continua a falar de Judo com a mesma linguagem: processo, valores, comunidade. A medalha que mudou o Judo português continua a pertencer, primeiro, a Santarém.

Nota de Referência

Grande Entrevista realizada por escrito, a convite do IPPONZITO, com Nuno Delgado, medalhado de bronze nos Jogos Olímpicos de Sydney 2000, antigo judoca da Casa do Benfica de Santarém e Presidente/Fundador da Escola de Judo Nuno Delgado e Vice-Presidente da Associação dos Atletas Olímpicos de Portugal..