Trinta e sete anos depois, Filipe Lopes continua a sair da zona de conforto: o novo 5.º Dan que dirige o Judo do Ribatejo
No sábado, 25 de julho, no Fundão, Filipe Lopes tornou-se 5.º Dan. Para a maioria dos judocas, seria o momento alto de uma carreira. Para Filipe, é mais um degrau, talvez o mais simbólico, numa vida de 37 anos dedicada por inteiro ao Judo, vivida em três planos que raramente coexistem numa só pessoa: o atleta que continua a competir consigo próprio, o treinador que forma o SCOCS-Tomar há mais de duas décadas, e o Diretor Técnico que hoje desenha o rumo do Judo em toda a Associação de Judo do Distrito de Santarém (AJDS).
No sábado, 25 de julho, no Fundão, Filipe Lopes tornou-se 5.º Dan. Para a maioria dos judocas, seria o momento alto de uma carreira. Para Filipe, é mais um degrau, talvez o mais simbólico, numa vida de 37 anos dedicada por inteiro ao Judo.
Um percurso vivido em três planos que raramente coexistem numa só pessoa: o atleta que continua a competir consigo próprio, o treinador que há mais de duas décadas forma atletas no SCOCS-Tomar e o Diretor Técnico que hoje define o rumo do Judo na AJDS.
“Dever cumprido”: o exame do Fundão
A aprovação no exame de 5.º Dan, avaliado pela Comissão Nacional de Graduações, presidida por Fausto Carvalho, com António Morais, Pedro Gonçalves, César Nicola e Luís Figueiredo, trouxe a Filipe “uma sensação de dever cumprido”. Não por acaso: “era um objetivo há muito ambicionado, onde o facto de sair novamente da minha zona de conforto seria sempre um desafio.”
A preparação não foi improvisada. Sendo ele próprio treinador de atletas em preparação para competições e exames de graduação, conciliar os dois papéis “torna-se ainda mais difícil, mas desafiante”, obrigando-o a somar horas de tatami para treinar com qualidade. O esforço intensificou-se nas semanas finais: “na semana anterior, foram passadas mais de oito horas diárias, para conseguir chegar bem ao exame de graduação.”
No dia do exame, a tensão existiu, como em qualquer prova deste nível de exigência, mas foi gerida com foco: “quando nos conseguimos abstrair do ambiente ao nosso redor, focamo-nos na nossa missão, e desde que tenhas a confiança necessária, tudo se torna mais claro.” No papel de uke, destaca o contributo do judoca João Bernardo, que no mesmo exame foi também aprovado, ao 4.º Dan, e de outros jovens judocas do clube que se disponibilizaram para o processo de preparação, essenciais tanto no treino de Katas como no treino técnico.
Trinta e sete anos de tatami
Praticante desde muito jovem, Filipe descreve-se sem rodeios: “Eu sou um amante do Judo, adoro todas as vertentes da modalidade.” É essa paixão que o mantém a competir consigo próprio, grau após grau, “o legado dos nossos antepassados na modalidade”, como lhe chama, numa “grande via de aprendizagem” que não tem fim à vista.
Ao longo de quase quatro décadas, escolhe algumas memórias que resistem ao tempo: a conquista da primeira medalha nacional, a primeira convocatória para a Seleção Nacional, as primeiras medalhas já como treinador e, mais recentemente, o momento em que ajudou a formar o primeiro Campeão Nacional dos últimos 26 anos do clube que representa, o SCOCS-Tomar.
O treinador que também cuida das famílias
Como Diretor Técnico do SCOCS-Tomar, Filipe é direto sobre o que mudou na profissão: “Dar treino é o mais simples. Preparar é outra coisa.” Hoje, as preocupações de um treinador vão muito além do plano desportivo, estendem-se ao ambiente social, familiar e administrativo em torno de cada atleta. Inscrições, pagamentos de taxas, deslocações, alojamentos, alimentação, relatórios de atividade: um trabalho diário e, muitas vezes, invisível, que Filipe também assume a construção de “uma ligação saudável com as famílias dos atletas”, para que estas sintam o clube como parceiro no crescimento dos filhos.
A filosofia de formação
Nesse sentido, a filosofia que tenta incutir assenta em três pilares: trabalho, ética e objetivos individualizados, porque nem todos os praticantes vão (nem precisam de) alcançar resultados de excelência para terem uma carreira longa no Judo. Daí a aposta em tornar a prática “o mais eclética possível”, envolvendo os jovens também nos caminhos da arbitragem, do staff, do Kata e da vertente técnica: “oferecendo um leque de opções para que estes jovens de hoje possam continuar ligados ao clube e à modalidade.”
Um clube em crescimento
Essa filosofia reflete-se na estrutura do clube, hoje organizado em quatro turmas: o “BayJudo”, para crianças dos 3 aos 5 anos, focado na adaptação ao jogo e à socialização fora do agregado familiar; a “Iniciação”, dos 6 aos 10 anos, centrada na base técnica; a turma de “Competição”, a partir dos 11 anos, orientada para a participação oficial em todos os escalões; e, mais recente, uma turma de adultos, pensada para quem nunca praticou a modalidade e procura atividade física e defesa pessoal. É um modelo que, nas suas palavras, “tem vindo a ser desenvolvido, tendo inclusive crescido nos últimos anos”.
Os resultados acompanham o investimento: títulos coletivos nos escalões de Juvenis e Cadetes, numerosos Campeões Nacionais em Juvenis, Cadetes e Juniores, medalhas de prata em campeonatos nacionais de Seniores e Campeões Nacionais de Katas , um historial que Filipe prefere não individualizar, “porque poderei esquecer-me de alguém”, mas que resume como “um caminho interessante, ano após ano”, ao longo de 26 anos de trabalho do clube na modalidade.
O maior desafio atual? “Desenvolver e formar mais treinadores com qualidade e poder expandir ainda mais o nosso raio de captação de talento para a modalidade.” Quanto a conciliar a evolução pessoal como atleta, agora com 5.º Dan, com a responsabilidade de dirigir tecnicamente o clube, Filipe vê aí um ciclo virtuoso: “O facto de continuar a evoluir como praticante obriga-me a melhorar como treinador, e será muito benéfico para o SCOCS. A minha vida profissional é o Judo, e isso fará a diferença em todo o processo, e quem irá ganhar será sempre a modalidade e os atletas que tenho o privilégio de treinar todos os dias.”
Do clube à associação: devolver o que recebeu
Para além do SCOCS-Tomar, Filipe acumula desde há vários anos o cargo de Diretor Técnico da AJDS. “É um orgulho, que me permite devolver ao Judo do Distrito de Santarém aquilo que este me ofereceu durante todo o meu crescimento como atleta, árbitro, treinador e como pessoa.” Conciliar as duas funções, admite, nem sempre é fácil, o trabalho no clube tende a pensar-se a médio/longo prazo, enquanto a atividade na associação é “muito mais intensa do ponto de vista burocrático”, sobretudo no planeamento e execução do plano de ação da AJDS. Ainda assim, considera as duas tarefas complementares, e dedicar-se a 100% ao Judo ajuda a organizar melhor o foco entre ambas.
Sobre o rumo técnico do Judo na região, a visão é clara: formação mais sistematizada, alinhada com as diretrizes da IJF (Federação Internacional de Judo), para que os atletas dos clubes associados possam evoluir de forma consistente e alcançar resultados de qualidade. Isso passa também por desafiar os próprios treinadores a reinventarem-se: “uma sociedade cada vez mais baseada no comodismo, onde a prática desportiva é deixada para trás, não criando hábitos e competências psicomotoras, atrasa todo o processo de aprendizagem da modalidade.” A resposta, defende, passa por levar os treinadores da AJDS a melhorar os seus conhecimentos para além do Judo, incorporando novas ferramentas e formas de ensinar capazes de cativar as futuras gerações de atletas.
Entre o percurso pessoal e o trabalho à frente da associação, não há competição, há continuidade: “Não coloco objetivos pessoais à frente dos objetivos coletivos. Recebi imenso da AJDS durante a minha carreira, que agora tento oferecer aos mais novos esse legado.”
À comunidade de treinadores e clubes da região, deixa uma mensagem simples: “Nunca se resignem e lutem de forma a conseguir atingir os seus objetivos. Da minha parte, cá estarei a ajudar cada um, para levar a todos os nossos clubes a capacidade de crescer dentro da modalidade.”
Autor
Tiago Martins
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