5.º Lugar no Mundo: Perguntas a Manuel Francisquinho, Santiago Jorge e Martim Veríssimo
Santiago Jorge e Martim Veríssimo, orientados pelo treinador Manuel Francisquinho, alcançaram o 5.º lugar em Nage-no-Kata na categoria de Cadetes do Campeonato do Mundo de Kata, em Sarajevo (27 de setembro de 2026) – uma marca histórica para a dupla e para o judo do Ribatejo. Neste artigo reunimos, algumas questões sobre esta experiência. A […]
Santiago Jorge e Martim Veríssimo, orientados pelo treinador Manuel Francisquinho, alcançaram o 5.º lugar em Nage-no-Kata na categoria de Cadetes do Campeonato do Mundo de Kata, em Sarajevo (27 de setembro de 2026) – uma marca histórica para a dupla e para o judo do Ribatejo. Neste artigo reunimos, algumas questões sobre esta experiência.
A PROVA EM SÍNTESE
- Campeonato do Mundo de Kata (World Kata Championships) — Sarajevo, Bósnia e Herzegovina, 27 de setembro de 2026.
- Dupla: Santiago Jorge e Martim Veríssimo, categoria Cadete, especialidade Nage-no-Kata.
- Resultado: 5.º classificados a nível mundial.
- Treinador: Manuel Francisquinho.
- Representação: Portugal FPJUDO, Associação de Marinheiros de Ferreira do Zêzere e Associação de Judo de Santarém.
Bloco 1 – Ao treinador Manuel Francisquinho
Perguntas centradas no trabalho de preparação da dupla, na decisão de investir no Kata e no significado deste resultado.
1. Como e quando começou o trabalho de kata com o Santiago e o Martim? O que o levou a apostar nesta disciplina com esta dupla em particular?
R. Este tema de kata sempre foi estudo continuado da minha progressão no Judo Santiago e Martim deram início a esta prática há cerca de dois anos quando a preparação para exames de 1º Dan. No decorrer da mesma se potenciou uma possível participação da dupla num Open de Kata em Santarém e desde então o percurso não para e a sua ligação com a experiência fica cada dia mais sólida.
2. O Nage-no-Kata exige uma sincronia muito específica entre os dois executantes. Como se constrói essa “entrosa” entre dois atletas — o que é mais difícil de afinar?
R. Este entrosamento trabalha-se diariamente no treino. Ritmo e harmonia entre os dois, controlar a respiração no decorrer de cada técnica, para que pega e deslocamentos aconteçam de forma natural fluída e sem hesitações. O Uke tem de se entregar completamente ao ataque, sabendo que o Tori vai controlar a sua queda para que não se magoe. Se o Uke tiver medo, ele vai resistir; se resistir, a harmonia visual e técnica do Kata quebra-se instantaneamente.
3. Como foi o processo de preparação para o Mundial de Sarajevo? Quanto tempo de trabalho específico foi dedicado a esta prova?
R. Desde janeiro que definimos os objetivos desta época. Assim a cada competição se efetuaram momentos adequados de preparação, ante os resultados seguimos afinando a kata e mantivemos a participação em objetivos intermédios, como Open de Kata e Nacional de Kata. Também se estabeleceu que faria parte deste percurso uma participação na Taça da Europa (Espanha) a qual nos atribuiu um título de Med. Bronze – esta prova antecedeu o Mundial. Foram dois meses de treino com várias sessões semanais, abordando a técnica, vídeo, condição física e preparação mental adequada.
4. Que expectativas levava para esta competição, sabendo que era um Campeonato do Mundo?
R. Sendo o meu primeiro Campeonato do Mundo, as expectativas dividiam-se entre a responsabilidade de representar o país e o desejo de absorver tudo. Mais do que a pressão pelo pódio, a minha expectativa era testar a nossa capacidade de resposta sob o maior cenário de stress do judo mundial. Sabia perfeitamente o nível de exigência que ia encontrar e o quão implacáveis são os juízes a este nível. Queria sair com a certeza de que os nossos judocas não tinham tremido e de que tínhamos deixado tudo ali. Acima de tudo, levava a expectativa de validação: perceber que o trabalho que fazemos no nosso clube e no nosso país nos permite olhar nos olhos de qualquer par do mundo.
5. Como reagiu quando soube do 5.º lugar? O que representa esta classificação, comparando com o que já se tinha alcançado antes com esta dupla?
R. Vou ser honesto: a primeira reação foi uma mistura de sentimentos. Há um lado agridoce, porque ficar em 5.º lugar significa que estivemos ali mesmo à porta do pódio, a um pequeno detalhe da medalha. Mas, assim que a poeira assentou, o sentimento dominante foi de um orgulho gigante. Ser o 5.º melhor par do mundo no Nage-no-Kata é a validação de que o nosso trabalho é de nível mundial. Olhámos para trás, para todas as horas de treino e sacrifício, e percebemos que o balanço é extraordinariamente positivo. Entrámos na elite.
Esta classificação representa a consolidação definitiva da nossa dupla no topo do Judo Internacional. Em junho, sagrámo-nos Campeões Nacionais de Cadetes e, recentemente, em Madrid, provámos o nosso valor com a medalha de bronze europeia. Mas o Campeonato do Mundo, em Sarajevo, era o teste definitivo. Ficar em 5.º lugar do mundo, logo no nosso primeiro ano de grandes palcos mundiais, prova que os nossos resultados anteriores não foram por acaso. Mostra que o trabalho que fazemos em Ferreira do Zêzere tem qualidade para competir de igual para igual com as melhores potências do planeta. Saímos de lá com a certeza de que pertencemos à elite.
6. Este resultado muda alguma coisa nos objetivos que tem para o Santiago e o Martim nos próximos anos, incluindo ao nível Sénior?
R. Mais do que mudar os objetivos, este resultado veio reforçar e dar sentido aos planos que já tínhamos para eles. Quando começámos a trabalhar a sério no Kata, o objetivo era a evolução contínua. Ver que eles alcançaram a finalíssima de um Mundial logo em Cadetes é um estímulo gigante para o que aí vem. O nível Sénior está num patamar muito diferente em termos de força, expressividade e perfeição geométrica dos movimentos, mas este percurso dá-lhes a bagagem ideal. Os objetivos mantêm-se assentes na dedicação diária, mas agora com a motivação extra de sabermos que a transição para os escalões mais velhos é um desafio que estamos totalmente preparados para abraçar.
7. O que gostaria de destacar sobre o apoio das instituições – Autarquia, Associação de Marinheiros de Ferreira do Zêzere e Associação de Judo de Santarém – neste percurso?
R. Gostaria de destacar que nenhuma destas classificações internacionais teria sido possível sem o ecossistema de apoio que estas três instituições criaram à volta do Martim e do Santiago. A Associação de Marinheiros de Ferreira do Zêzere é a nossa casa, a nossa base diária. É o clube que nos dá as condições no tapete, o carinho da comunidade e onde o Mestre Manuel Francisquinho molda não só os atletas, mas o caráter deles. Por outro lado, a Associação de Judo de Santarém tem sido a rampa de lançamento fundamental. Desde o início, acreditaram no potencial desta dupla, integrando-os nos estágios de preparação e dando o suporte logístico e institucional indispensável para competirmos ao mais alto nível fora de portas. A autarquia que, na verdade move um extraordinário acompanhamento e reconhece de todo o desenvolvimento local do desporto e do judo em particular, gerando um imprescindível apoio económico nestas competições internacionais e realizações locais, são estes a garantia de igual êxito e bem-estar dos atletas que representam o concelho Ferreirense. Este resultado é o reflexo perfeito de um trabalho em rede, onde o clube acolhe, a Autarquia mantém a ligação, e o apoio a associação distrital potencia.
8. Que mensagem deixa a outros treinadores e clubes do Ribatejo sobre o investimento no Kata, uma vertente do Judo menos mediática do que o combate?
R. A mensagem principal é que o Kata e o combate não são opostos, são duas faces da mesma moeda. O Kata dá aos atletas uma estrutura técnica, uma precisão de movimentos e uma disciplina mental que os torna muito melhores judocas no Shiai. Além disso, o Kata é incrivelmente inclusivo: permite que atletas com diferentes perfis físicos se afirmem ao mais alto nível. O que o Martim e o Santiago provaram em Sarajevo é que o Kata não é uma vertente ‘secundária’ ou para o fim da carreira; é um caminho real de alta competição, capaz de atribuir títulos, projeção e um orgulho gigante às nossas comunidades. Investir no Kata é enriquecer o nosso clube.
Bloco 2 – A Santiago Jorge e Martim Veríssimo
Perguntas colocadas conjuntamente aos dois atletas, para captar tanto a experiência individual como a dinâmica da dupla.
9. Como começaram a fazer Kata juntos? Lembram-se do primeiro treino em que perceberam que tinham sincronia como dupla?
R: Começámos a fazer Kata, preparando um colega de clube para exame de graduação, depois o mestre decidiu juntar-nos para fazer kata – uma vez que reparou no potencial que oferecíamos na representação a par.
10. Como é a sensação de competir em Kata, em que o resultado depende tanto de vocês próprios como da perfeita coordenação um com o outro?
R: Tem de existir uma coordenação e uma grande confiança e sintonia entre nós dois, como par. Um treino de kata muito bem enquadrado e seguramente aperfeiçoado em cada sessão de prática.
11. Como foi a experiência de competir pela primeira vez, num Campeonato do Mundo – num país como a Bósnia e Herzegovina?
R: Competir pela primeira vez num Campeonato do Mundo de kata é uma sensação muito boa, mas desafiante, um palco de satisfação perante todo mundo do judo /kata que ali estava presente. Estes momentos são inesquecíveis.
12. Houve nervos antes de entrar no tatami em Sarajevo? Como foi essa preparação mental, momentos antes da apresentação?
R: Os nervos são normais em qualquer competição, contudo, fomos preparados em cada treino específico e deu-nos a confiança necessária. Durante todo o ano fazemos várias demonstrações e provas para treinar essa mesma pressão.
13. Em que momento perceberam que o resultado foi positivo? Como foi saber que ficavam em 5.º lugar no Mundo?
R: Quando a representação acabou, percebemos que tínhamos feito uma melhor representação do que a anterior. Saber que tínhamos ficado em 5.º lugar do mundo foi reconfortante – queríamos mais – foi um gosto amargo e doce – a medalha esteve ali tão perto! Mas o foco foi garantido e decerto que vai surgir um destes dias.
14. O que significa este resultado para vocês, enquanto cadetes, tão cedo na carreira?
R: Significa muito para nós, porque mostra que todos os treinos estão a dar resultados. Também foi muito importante para nós porque foi a primeira vez que Portugal foi representado num Campeonato do Mundo de kata com cadetes em Nage-no-Kata – com esta representação também se marca a história federativa.
15. Qual é, para cada um de vocês, a parte mais exigente do Nage-no-Kata – técnicamente ou mentalmente?
R: Martim Veríssimo: Para mim o mais difícil é lembrar-me de todos os detalhes técnicos enquanto faço o kata com a maior intensidade possível.
R: Santiago Jorge: Para mim é manter o rigor nas quedas e focar-me em ser eficiente nos deslocamentos mantendo a postura desde o inicio .
16. Que peso tem o trabalho do treinador Manuel Francisquinho neste resultado? O que querem destacar sobre o acompanhamento dele?
R: O trabalho do Mestre é muito importante neste resultado. Acompanhou-nos durante toda a preparação, ajudando-nos a corrigir detalhes e a evoluir como dupla. Destaco sobretudo a confiança e o apoio que sempre nos dá antes e durante a prova, somos uma equipa onde ele é o bom líder.
Bloco 3 – Olhar para a Frente
17. O que os clubes e as famílias significaram neste percurso até Sarajevo?
R: Significam muito para este percurso, principalmente para o apoio e a ajuda incondicional prestada em cada representação dentro e fora de fronteiras, destacar também aqui o apoio da Autarquia que sempre nos enaltece, acarinha, reconhece e ajuda em deslocações.
Bloco 4 – Perguntas finais, comuns ao treinador e aos atletas, sobre o que se segue.
18. Depois deste 5.º lugar mundial, quais são os próximos objetivos da dupla em kata?
R: O nosso principal objetivo é continuar a evoluir como dupla e tentar chegar cada vez mais perto do pódio. Queremos corrigir os pequenos detalhes que fizeram a diferença em Sarajevo e ganhar ainda mais experiência em competições internacionais. Estamos focados na próxima prova – o Ibérico de Kata – em Espanha Cáceres. Em janeiro queremos muito competir no IJF Series uma prova Mundial que se realiza nas Astúrias – Espanha.
19. Existe um plano para a próxima época – mais provas internacionais, ou foco noutras
R: Sim, queremos continuar a participar em provas nacionais e, se for possível, voltar a competir internacionalmente. Acho importante termos contacto com outras duplas e outros níveis competitivos, porque é assim que conseguimos perceber onde podemos melhorar.
20. Que mensagem deixam a outros jovens judocas do Ribatejo que estejam a pensar experimentar o Kata?
R: Diria para experimentarem, sem medo de não serem logo bons. O kata exige muita técnica, concentração e trabalho em equipa, mas também nos dá uma perspetiva diferente do judo. Para mim, foi uma experiência que me fez crescer muito enquanto judoca.
21. Em três palavras, o que representa para vocês este resultado em Sarajevo.
Orgulho, trabalho e evolução.
Nota de Referência
Grande Entrevista do IPPONZITO – Magazine do Judo do Ribatejo, com base no cartaz oficial do 5.º lugar de Santiago Jorge e Martim Veríssimo (Cadetes, Nage-no-Kata) no Campeonato do Mundo de Kata, Sarajevo, 27 de setembro de 2026, sob orientação do treinador Manuel Francisquinho.
Autor
Ana Rodrigues
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