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António Anjinho: o Mestre que ajudou Nuno Delgado a encontrar o seu lugar no Judo

Tem 80 anos, foi cofundador da secção de Judo da Casa do Benfica de Santarém, e um percurso que atravessou, sem nunca sair do tapete, todos os papéis possíveis: atleta, treinador, árbitro e dirigente. Aos médicos que lhe desaconselharam a prática do Judo, respondeu com outras opiniões – e chegou aos mais altos patamares nacionais. […]

Por José Paula 12 minutos de leitura
António Anjinho, nas comemorações dos 50 anos do Judo, da Casa do Benfica de Santarém. Foto: AJDS

Tem 80 anos, foi cofundador da secção de Judo da Casa do Benfica de Santarém, e um percurso que atravessou, sem nunca sair do tapete, todos os papéis possíveis: atleta, treinador, árbitro e dirigente. Aos médicos que lhe desaconselharam a prática do Judo, respondeu com outras opiniões – e chegou aos mais altos patamares nacionais. Décadas depois, é também o homem que, numa conversa difícil com uma turma de crianças, ajudou um jovem judoca chamado Nuno Delgado a não desistir. Na Casa do Benfica de Santarém, na Associação de Judo do Distrito de Santarém e na Federação Portuguesa de Judo, o nome de António Anjinho é sinónimo de consenso, e de uma forma de estar no Judo que ainda hoje orienta gerações de treinadores.

Grande Entrevista ao IPPONZITO · António Ramiro Lopes Anjinho, cofundador da secção de Judo — Casa do Benfica de Santarém (CBS)

PERCURSO EM SÍNTESE

• 80 anos. Cofundador, em 1973, da secção de Judo da Casa do Benfica de Santarém.

• Iniciou a prática do Judo já com 28 anos, contrariando um parecer médico inicial desfavorável.

• Atleta com resultados de destaque a nível regional e nacional; treinador (“mestre”), árbitro e dirigente.

• Cofundador da Associação de Judo do Distrito de Santarém, ao lado do Clube de Judo da Golegã e do Parafuso do Entroncamento.

• Membro da Direção e de todos os Corpos Sociais e Corpo Técnico da AJDS; integrou a Comissão Associativa de Graduações e o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Judo.

• Foi um dos primeiros treinadores de Nuno Delgado, medalha de bronze olímpica em Sydney 2000.

Um homem a quem o judo quase foi negado

A história de António Anjinho no Judo podia nunca ter começado. Por razões de saúde, a prática da modalidade foi-lhe desaconselhada – chegou mesmo a ser-lhe retirada. Mas Anjinho não é homem de baixar os braços: procurou outras opiniões médicas, ouviu-as favoráveis, e seguiu esse conselho em boa hora. Não só voltou ao tapete, como, como atleta, viria a atingir os mais altos patamares do Judo nacional.

É fácil conversar com António Anjinho – homem de expressão verbal fácil, fluente e perfeitamente entendível. Ao longo desta conversa com o IPPONZITO, percorremos todas as etapas do seu percurso: no Judo, na história da Casa do Benfica de Santarém, na Associação de Judo do Distrito de Santarém, na própria Federação Portuguesa de Judo, e, sobretudo, num homem repleto de memórias.

1973: A chegada do judo a Santarém

“A vinda do judo para Santarém foi uma surpresa, e por necessidade duma atividade física que já me tinha sido recomendada clinicamente, e pelo conhecimento de que nesta atividade havia uma componente bastante ampla em termos físico, de comunicação, de partilha. E também porque um colega meu, depois cofundador da CBS, tinha conhecimento de um amigo vindo do Ultramar que lá tinha praticado o judo e, ao decidir viver em Santarém, achou interessante criar um grupo, desenvolver e iniciar a prática da modalidade em 1973. Como não havia estrutura organizativa na região, inscrevemo-nos diretamente, em 1974, na Federação.” – António Anjinho

Foi assim, quase por acaso – um amigo de um amigo, regressado do Ultramar com o Judo na bagagem, que a modalidade encontrou o seu primeiro grupo em Santarém, num tempo em que nem sequer existia uma associação distrital que o enquadrasse.

Um início tardio, aos 28 anos

Anjinho começou a praticar já com 28 anos – uma idade tardia para os padrões competitivos, mas que não lhe retirou a vontade de enveredar pela vertente competitiva.

“O trabalho de treino dentro do dojo começou-me a despertar e a ver que havia a possibilidade de nos opormos física e tecnicamente a um oponente, e como eu me sentia muito bem em termos físicos, comecei a ter algum interesse pela competição – também porque comecei a ser reconhecido pelos treinadores como tendo alguma apetência para, futuramente, seguir naturalmente para a carreira de treinador, e esse carinho, digamos, despertou ainda mais o meu interesse para a competição. De facto, atingi resultados muito bons tanto a nível regional como nacional.” – António Anjinho

Recorda, com um sorriso quase certo na memória, um episódio caricato de um desses torneios: “lembro-me que se realizavam, na altura, competições que integravam todas as componentes de graduação, e eu ganhava por norma. Recordo, como engraçado, que em Lisboa ganhei um torneio e um treinador veio ter comigo e disse que eu tinha ganho porque tinha o peito muito grande…”

De atleta a Mestre

A transição para treinador – para “mestre”, como ainda hoje lhe chamam os seus antigos alunos – foi a sequência natural de um percurso, não só pela idade, mas por uma postura de líder que os seus colegas de tatami já lhe reconheciam.

“De início, os treinadores eram amigos desse tal militar que nos iniciou no judo, pessoas que já não me lembro. Depois, já na Federação, o Mestre Kiyoshi Kobayashi destacou para aqui um seu aluno, o Cabrita Matias – esta alteração começou, ainda mais, a despertar em mim a vontade de enveredar por aquela outra realidade do judo, e também por me aperceber que Santarém tinha necessidade de alguém da cidade que desse outro alento à modalidade. O Cabrita Matias nomeou-me e encaminhou-me, com o seu saber, para monitor.” – António Anjinho

A Federação lançou então o seu primeiro Curso de Treinadores, ao qual cada clube podia indicar um monitor e um aluno – Anjinho, já como monitor, tirou essa formação, que descreve como determinante. “Ali reconheci a componente de socialização, interação de partilha, e a parte física assente num princípio do Jigoro Kano, que defende ganhar ao nosso opositor sem o magoar”, resume.

O dirigente que os pares escolheram

“Desde o início que os meus colegas aceitavam a minha natural pré-disposição para esta ou aquela resolução, um ou outro caminho – e o mestre Cabrita Matias, apercebendo-se dessa realidade, foi-me, aos poucos, encaminhando para, num futuro, virar dirigente.” – António Anjinho

Foi assim, sem grande alarido, que o dirigismo se instalou naturalmente no percurso de um homem que, ao longo de décadas, os seus pares continuariam a reconhecer como elemento de consenso – um papel que, como se verá, viria a assumir em praticamente todas as estruturas do Judo distrital e nacional.

Nuno Delgado: “Tive orgulho em ter tido alguma influência”

Todos temos, em qualquer atividade, pontos altos, memórias diferenciadas, momentos que, mesmo não vividos diretamente por nós, nos fazem sentir que ali está um pouco do que fomos capazes de mostrar a outros. Foi o caso de António Anjinho ao ver um seu aluno levar, pela primeira vez, o Judo português a conquistar uma medalha olímpica: Nuno Delgado, bronze em Sydney 2000.

“O Nuno demonstrou sempre uma vontade enorme de aprender, de fazer. Mas o Nuno queria desistir da escola primária do judo porque se apercebia que era desagradável para os colegas terem um aluno de uma cor diferente. Um dia, também ao aperceber-me disso, mandei-os sentar todos no chão e perguntei-lhes se o facto de eu ter joanetes, falta de cabelo, e irregularidade na coluna, era impeditivo que eles gostassem de mim. Perante a resposta calorosa e ruidosa de ‘gostamos, mestre’, questionei-os: então vocês, de férias, vão para onde? A resposta saiu espontânea: ‘vamos para a praia e chegamos muito morenos do sol’. Claro que aproveitei, e fi-los ver que o Nuno não precisa de ir à praia, já está moreno – e eu, apesar de ser careca, vocês gostam de mim. Então porque é que o Nuno não pode ser um bom amigo?” – António Anjinho

A conversa transformou o entendimento dos miúdos – e do próprio Nuno. “A partir daí, todo esse clima de afastamento mútuo desapareceu. O próprio Nuno começou a ter outro comportamento, mais positivo, não só no Judo como, fundamentalmente, na escola. É curioso que, como qualquer miúdo, os outros, quando não estavam de frente para mim, a qualquer momento brincavam, distraíam-se. O Nuno não: estava sempre ativo, sempre a treinar”, recorda. “Daí eu sentir, com orgulho, que tive alguma influência nessa conquista da medalha de bronze, e no homem que é hoje.”

Mais do que campeões: formar homens e mulheres

A forma como se posiciona perante os seus alunos é um tema que António Anjinho preza particularmente. No tatami, insiste, não está apenas uma criança, um jovem ou um adulto que quer praticar Judo para se distrair ou ocupar o tempo.

“O treinador de judo, ou de qualquer outra modalidade, deve ser alguém que transmita e diferencie as componentes física, desportiva, social, de disciplina e de respeito – porque muito mais do que formar o competidor, a nossa preocupação maior deve ser preparar o jovem para ser homem ou mulher respeitosa e respeitada perante a sociedade.” – António Anjinho

Uma escola também para os pais

Ser responsável por uma modalidade que enche tatamis de crianças exuberantes e jovens expectantes não pode, para Anjinho, limitar a ação de um treinador às quatro paredes do dojo. A sua função implicou sempre interação com os pais e com outras instituições, dentro e fora do clube.

“Eu fazia reuniões com os pais para lhes transmitir os princípios que norteavam aquela atividade. Cheguei a criar uma aula, aos sábados, para os pais tomarem melhor conhecimento do judo em toda a sua envolvência – assistindo a uma prova, entendiam melhor todo o envolvimento da competição, da função do treinador no combate e do papel do árbitro. Mesmo no decorrer de um treino normal, questionava os pais se queriam pôr alguma questão sobre esta ou aquela técnica, sobre a minha atitude.” – António Anjinho

O efeito, décadas depois, ainda se faz sentir. “Toda esta interação levou a que frequentemente seja abordado na rua por pais e até avós, a agradecer a paciência – que também é muito importante – que tive com os seus filhos ou netos. Reconheço que é muito agradável, e leva-me a afirmar que valeu a pena a minha dedicação ao judo e aos judocas”, resume.

Cofundador da Associação de Judo do Distrito de Santarém

Na Associação de Judo do Distrito de Santarém, Anjinho foi cofundador, membro da Direção, de todos os Corpos Sociais e do Corpo Técnico – um percurso em que o seu espírito conciliador criou uma unanimidade de respeito, carinho e cumplicidade entre todos que, garante, se mantém inalterável até hoje.

“Quando surgiu a hipótese da formação da associação distrital, naturalmente o meu nome foi aventado como elemento aconselhável para integrar os corpos diretivos, não só por parte da CBS, mas também manifestada pelos outros clubes. Foram fundadores a Casa do Benfica de Santarém, o Clube de Judo da Golegã e o Parafuso do Entroncamento. Depois fui passando por todos os outros órgãos, numa sequência natural. Também naturalmente incorporei a Comissão Associativa de Graduações, e na Federação Portuguesa de Judo fiz parte do Conselho de Disciplina.” – António Anjinho

O judo hoje, e o legado de Patrícia Sampaio

Os anos passaram, as realidades são bem diferentes, e os apelos mais sedutores da vida moderna afastam hoje muitos jovens da prática desportiva. Ainda assim, na ótica de António Anjinho, o Judo continua a ocupar um lugar de destaque.

“Acho que está com uma dimensão imensa, e eu estou muito grato porque todos os treinadores, dirigentes, pais, tiveram a consciência de que o judo é construtivo. Penso que o judo está, em geral, a ter uma dimensão enorme, até porque hoje o judo, a nível europeu e até mundial, está reconhecido como uma modalidade de construção e de socialização. E nós aqui, devido ao percurso que temos feito, aos resultados nacionais e sobretudo internacionais – lembro a Patrícia Sampaio –, estamos com uma dimensão muito satisfatória.” – António Anjinho

O cinto negro que se carrega fora do dojo

Anjinho não quis terminar esta conversa sem deixar um pouco da sua experiência, do seu saber, da sua forma de estar perante o Judo – e perante a vida e a sociedade.

“Quando eu incorporei a Comissão de Graduações, dizia uma coisa que penso ser importante: vocês conquistaram o cinto negro, que o seu espírito o carreguem dentro e fora do dojo. Porque nós, no dia a dia, temos de ser exemplo, porque estamos sempre a ser analisados. Se estamos a tomar uma bebida com amigos, temos de ter sempre cuidado nas atitudes e nas palavras, porque ali ao lado pode estar um pai a analisar o comportamento do ‘professor’ do seu filho – e, se o meu comportamento não é exemplar, o filho provavelmente sairá do judo. E eu dizia sempre aos meus alunos que têm de ser judocas aqui no tapete, na escola, com os amigos e com a família.” – António Anjinho

O que fica:
Aos 80 anos, António Anjinho carrega uma vida inteira de Judo: o atleta a quem a medicina quase negou o tapete, o mestre que formou o primeiro medalhado olímpico português da modalidade, o dirigente que ajudou a fundar a Associação de Judo do Distrito de Santarém. Mas talvez o seu maior legado seja mais simples do que qualquer título ou medalha: a ideia, transmitida a gerações de judocas do Ribatejo, de que o cinto negro se carrega dentro e fora do dojo – e de que formar um bom judoca é, antes de mais, formar um bom homem ou uma boa mulher.

Nota de Referência

Esta grande entrevista foi elaborada pelo IPPONZITO — Magazine do Judo do Ribatejo, a partir de uma conversa com António Ramiro Lopes Anjinho, cofundador da secção de Judo da Casa do Benfica de Santarém.