Na Terra dos toiros e dos cavalos: os primeiros passos, descalços, do judo na Golegã
Na Golegã, terra de apego à lida do campo e às tradições tauromáquicas, poucas modalidades desportivas encontram espaço para vingar. O Judo, ainda assim, teve o seu momento – nascido num barracão emprestado, sobre um buraco no chão cheio de restolho de arroz, e crescido até um clube que ajudou a fundar a Associação de […]
Na Golegã, terra de apego à lida do campo e às tradições tauromáquicas, poucas modalidades desportivas encontram espaço para vingar. O Judo, ainda assim, teve o seu momento – nascido num barracão emprestado, sobre um buraco no chão cheio de restolho de arroz, e crescido até um clube que ajudou a fundar a Associação de Judo do Distrito de Santarém. O IPPONZITO juntou dois amigos, goleganenses puros, que viveram esse início: Fernando Bento Rodrigues, 69 anos, e Josefino Redol, 71, ambos hoje empresários na vila. Não fizemos a entrevista clássica – deixámos correr a conversa, e as memórias, sem escalão temporal, tal como surgiram.
Uma Terra difícil para novidades
Na Golegã, é difícil uma modalidade desportiva ou uma iniciativa cultural vingar. O apego à terra – terra de cultivo – e às tradições, ainda muito enraizadas, faz com que o sentir, o viver e o extravasar das questões taurinas imperem, retirando, mesmo aos mais jovens, espaço para outras vertentes da vivência social. Foi nesse terreno, pouco fértil para desportos de fora, que o Judo tentou, há décadas, deitar raízes na vila.
Um buraco no chão, jornais e uma lona
O Judo chegou à Golegã, como a tantas outras localidades da região, pela mão de Fernando Correia, que foi aos poucos incentivando e preparando os mais velhos para seguirem uma “carreira” de treinador – no caso, Francisco Maltês, que se tornaria o seu seguidor natural à frente do projeto.
As condições do primeiro dojo, contam Fernando Bento Rodrigues e Josefino Redol, pouco tinham de tapete e muito de improviso.
“Você sabe lá, o primeiro dojo foi num barracão emprestado, tatamis, quais tatamis, fizemos um buraco no chão, enchemo-lo de restolho de arroz, depois, para ficar mais ou menos direito, colocámos jornais e, só no fim, uma lona. Aquilo era um caso sério: vínhamos, a cada treino, com os pés, os artelhos queimados. Enfim, quase um sacrifício a cada treino.” – Fernando Bento Rodrigues e Josefino Redol, recordando o primeiro dojo
A melhoria, quando chegou, foi gradual. “Pouco tempo depois, já com tatamis, ainda que muito rijos e de difícil manuseamento – os tais tatamis de palha de arroz –, foi-nos cedida uma sala na Misericórdia, também por pouco tempo, já que a Câmara destinou para o Judo uma sala no Pavilhão Gimnodesportivo, que penso que ainda lá está montada. Aí sim, já com outras condições: tatamis melhores, balneários. Enfim, já dava gosto praticar”, recordam.
Dois amigos, dois caminhos até ao tapete
Fernando e Josefino começaram a praticar já com alguma idade – teriam 16 e 18 anos, sensivelmente. A mão, o saber e a disciplina incutida pelo mestre Fernando Correia levaram ambos até à competição, mas o caminho de cada um até ao tapete teve o seu próprio ponto de partida, quase por acaso.
“É engraçado: comecei pelo Judo porque namorava a irmã da esposa do Francisco Maltês. Ele ainda era apenas judoca, mas já liderava o pessoal nas questões organizativas, falou comigo e, claro, não tinha como dizer que não. E sinceramente até gostei – tive resultados a nível regional e nacional muito bons.” – Josefino Redol
Josefino Redol: das medalhas à dentada de um bancário
Josefino Redol não escapa aos números: “nem era dos piores”, garante, tendo conquistado “umas medalhitas” ao longo do seu percurso. Uma memória em particular resiste ao tempo, entre o cómico e o inevitável dos combates de outros tempos.
“Uma vez, em Santarém, estava a imobilizar um indivíduo que trabalhava num banco. O gajo deu-me uma dentada – claro, larguei-o – e, no seguimento, ele ganhou o combate. Era daquelas coisas que aconteciam. Mas eu até nem era nada mau.” – Josefino Redol
O fim da sua ligação ao Judo ficou, no entanto, marcado por duas razões bem distintas. A primeira foi uma questão de princípio: já com o clube integrado na Associação de Judo do Distrito de Santarém, começou a vir um treinador coreano, uma vez ou duas por mês, ver como as coisas corriam. “Viemos a saber que era pago, e eu deixei de imediato de praticar”, conta, sem esconder o desagrado que ainda hoje a memória lhe traz.
A segunda razão foi mais pessoal, e definitiva: o seu cunhado, Francisco Maltês – o homem que o tinha levado ao tapete, e que liderava o projeto do Judo na Golegã – adoeceu, e acabou por falecer. Foi então que tudo terminou para Josefino.
Fernando Bento Rodrigues: o ippon que nunca chegou a sentir
Também Fernando Bento Rodrigues encontrou, no Judo, um gosto genuíno e uma boa forma física. “Tinha uma força, estava numa forma mesmo boa”, recorda, sobre os anos em que competiu. Chegou mesmo a ser campeão distrital, numa prova disputada num liceu em Abrantes, o Colégio La Salle – um resultado que o levou até aos Campeonatos Nacionais.
Foi aí, num único combate, que a sua carreira no Judo encontrou um fim tão rápido quanto inesperado.
“Quando fui chamado para o tapete, o meu adversário – coitadito, magro, enfezado – bom, pensei eu, este tá ganho. Acho que nem lhe cheguei a tocar: pega-me, faz-me um ippon, que ainda hoje não sei como voei por cima dele. Fiquei de tal maneira traumatizado que, logo ali, decidi deixar de praticar.” – Fernando Bento Rodrigues
À humilhação desportiva juntaram-se razões mais práticas: Fernando Bento Rodrigues já trabalhava, na altura, no Central – café/restaurante de referência na vida da vila –, e os horários não davam para conciliar com as provas. A decisão foi radical: “também porque na altura já trabalhava no Central, os horários não davam para ir às provas, até os forcados larguei”, remata, numa frase que resume bem o peso que o trabalho, e a vida adulta, tiveram sobre as suas escolhas desportivas – o Judo e a arte de pegar toiros, ambos deixados para trás na mesma fase da vida.
Memórias sem escalão, como devem ser
Ao longo da conversa, Fernando Bento Rodrigues e Josefino Redol deambularam pelos tempos passados, enumerando cada um dos companheiros dos épicos anos do início da prática do Judo na sua terra, divagando para outros meandros – outras vivências, aventuras e desventuras, traquinices da meninice, histórias da juventude e da idade adulta –, como dois amigos que, espaçadamente, se encontram com tempo para atualizar as recordações.
Não deixaram, ainda assim, de reconhecer uma verdade mais ampla, que ultrapassa o Judo e a própria Golegã: esta e outras modalidades, se não estiverem já enraizadas numa terra, dificilmente singram como novidade. A juventude tem hoje outras solicitações – os telemóveis, os jogos nas redes sociais, que não dão trabalho, não cansam, e deixam a malta sossegada no seu cantinho. E também porque, muitas vezes, os pais querem é estar na deles: enquanto o filho está no telemóvel com os amigos, não os está a incomodar.
O que fica:
Foi a conversa possível com dois amigos que passaram, fugazmente, pelo Judo – num clube que foi fundador da Associação de Judo do Distrito de Santarém, pela resiliência e vontade de Francisco Maltês. Um barracão, um buraco no chão cheio de restolho de arroz, e dois rapazes de 16 e 18 anos que, décadas depois, ainda se lembram do peso de um ippon que nunca chegaram a ver chegar. É desta memória, modesta e por vezes engraçada, que também se faz a história do Judo no Ribatejo.
Nota de Referência
Esta reportagem foi elaborada pelo IPPONZITO – Magazine do Judo do Ribatejo, a partir de uma conversa aberta, registada pela redação, com Fernando Bento Rodrigues e Josefino Redol, antigos judocas do Clube de Judo da Golegã.
Autor
José Paula
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