Marcou Cristiano Ronaldo aos 17 anos, hoje marca uma nova fase no Judo: João Alves é cinto preto
Aos 42 anos, agente da PSP, pai de três filhos e o apoio técnico nos bastidores do CJTN, João Pedro Ribeiro Alves subiu ao 1º Dan nos Exames Associativos de Graduação de 26 de julho, no Fundão. É uma história de recomeço, a de alguém que descobriu o Judo tarde, por causa dos joelhos e […]
Aos 42 anos, agente da PSP, pai de três filhos e o apoio técnico nos bastidores do CJTN, João Pedro Ribeiro Alves subiu ao 1º Dan nos Exames Associativos de Graduação de 26 de julho, no Fundão. É uma história de recomeço, a de alguém que descobriu o Judo tarde, por causa dos joelhos e do filho mais velho, e que hoje diz ter “assumido o início do judo” na sua vida.
O defesa que travou Cristiano Ronaldo
Antes de vestir o judogi, João jogou futebol. Aos 17 anos, foi campeão distrital pela sua equipa, que haveria de ser convidada para um jogo de treino frente à seleção nacional, em Rio Maior. Coube-lhe a tarefa quase impossível: marcar Cristiano Ronaldo. “Enquanto estive em campo ele não marcou golo nem conseguiu passar por mim”, recorda, entre risos, “mas passados 25 minutos tive de pedir substituição porque estava esgotado e com cãibras. Nunca na minha vida pedi para ser substituído, foi a primeira vez e foi a última.”
Do consumidor ao praticante
O caminho até ao tatami foi longo e teve mais do que uma paragem. O primeiro contacto com o Judo aconteceu ainda no secundário, através do professor de Educação Física, e voltou a cruzar-se com a modalidade na faculdade, em 2007, nas aulas da Mestre Yaima Ramirez, que, recorda, “personificava os valores do judo”. Já como agente da PSP, experimentou-o de novo em 2009, no âmbito da defesa pessoal durante a formação de base.
Mas foi só em dezembro de 2019 que o Judo se tornou definitivamente parte da sua vida, e por um motivo inesperado. Diagnosticado com artrose nos joelhos no mês anterior, João viu-se obrigado a abandonar a corrida e o ciclismo, as suas atividades físicas habituais. Ao acompanhar o filho mais velho aos treinos, encontrou a alternativa: uma modalidade sem os movimentos repetitivos que lhe causavam dor. Começou a praticar no Clube de Judo de Torres Novas (CJTN) e nunca mais parou.
Um processo penoso, entre turnos e paternidade
Chegar ao exame de 1º Dan não foi fácil. João é pai de três filhos, agente da PSP com trabalho por turnos, aluno do curso de treinador e ainda desempenha funções de secretário e apoio técnico no CJTN. “Foi um processo penoso, desgastante física e emocionalmente”, admite, descrevendo a dificuldade em conciliar tudo. No próprio dia do exame, chegou a duvidar da decisão de o fazer naquela altura: “A meio do exame pensei que a decisão de o fazer, nesta altura, foi precipitada.” Terminou, ainda assim, o processo e reconhece hoje nesse desgaste uma lição para o futuro: “o processo de preparação para um exame de graduação tem de ser mais alargado, de forma que o avaliado não chegue desgastado física e emocionalmente.”
O que muda com o cinto preto
Para João, o 1º Dan marca uma fronteira clara. “Como não competidor, até então, vivia o Judo na ótica de consumidor de um serviço, sem responsabilidades, apenas usufruía dos seus benefícios”, explica. “Agora, com o 1º Dan, assumo o início do judo na minha vida e como parte integrante da mesma.” À sensação de dever cumprido juntou-se o alívio, o grau é também um requisito para terminar o curso de treinador que frequenta e um sentido de responsabilidade acrescido: aprofundar, consolidar e transmitir o que aprendeu.
Nesse percurso, destaca duas pessoas em particular: a mestre Kátia Sombra e o seu uke, João Monteiro, “exímios” na preparação para o exame, sem esquecer o apoio incondicional da esposa, que lhe deu força e ânimo nos momentos de maior cansaço.
Respeito, Tai-otoshi e Uta Abe
Questionado sobre o que mais valoriza no Judo, João não hesita: o respeito. “Na minha perspetiva, o verdadeiro respeito encerra em si a honestidade e a modéstia, valores que considero essenciais para se viver em sociedade, dentro e fora do tatami.” No tatami, a técnica que lhe sai mais naturalmente é o Tai-otoshi, e o judoca que mais admira é a japonesa Uta Abe “gosto do judo que pratica, não foge, dá luta, não se esconde atrás de uma vantagem para vencer.”
Família primeiro, depois trabalho, depois Judo
Apesar da paixão pela modalidade, João é claro sobre as suas prioridades: “Na minha ordem de prioridades o judo está em terceiro lugar. Primeiro vem a família, em segundo o trabalho e só depois o judo.” Em casa, um calendário partilhado ajuda a gerir turnos, treinos e compromissos familiares, um equilíbrio possível também graças à boa vontade dos colegas de serviço nas trocas de horário.
Com o cinto preto conquistado, o próximo objetivo já está definido: terminar o curso de treinador de Grau I, e continuar a transmitir aos mais novos do CJTN, incluindo o próprio filho, os valores que encontrou, tarde mas a tempo, num tatami.

Autor
Tiago Martins
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