Atividades

“Esta família foi o meu porto de abrigo”: A despedida de João Barbosa, oito anos depois de chegar à AJDS

Foi só uma mensagem, escrita a um grupo de WhatsApp, num daqueles fins de tarde em que se sente que uma etapa chegou mesmo ao fim. Mas há mensagens que, mesmo curtas, carregam o peso de uma vida inteira – e a de João Barbosa aos colegas treinadores da Associação Distrital de Judo de Santarém […]

Por Tiago Martins 10 minutos de leitura
João Barbosa, treinador e ex-membro do Conselho Técnico da AJDS
João Barbosa despede-se da Associação Distrital de Judo de Santarém após oito anos de percurso.

Foi só uma mensagem, escrita a um grupo de WhatsApp, num daqueles fins de tarde em que se sente que uma etapa chegou mesmo ao fim. Mas há mensagens que, mesmo curtas, carregam o peso de uma vida inteira – e a de João Barbosa aos colegas treinadores da Associação Distrital de Judo de Santarém foi exatamente uma dessas. O IPPONZITO leu-a, sentiu que merecia mais do que ficar apenas naquele grupo, e partilhou-a há semanas. Era um texto bonito, mas deliberadamente genérico – falava de “anos”, de “desafios” e de “vitórias” sem os nomear. Pedimos-lhe, então, que nos deixasse entrar um pouco mais: que preenchesse essas frases com memórias, nomes e datas concretas. João aceitou. E o que nos devolveu foi muito mais do que factos – foi o retrato de um homem que dedicou oito anos a uma associação, e que agora encontra a coragem de se despedir dela pela razão mais bonita que existe: o amor a um filho.

Oito anos que começaram na Comissão de Formação

“Chegou o momento de encerrar um ciclo que marcou profundamente a minha vida, tanto no plano desportivo como no plano pessoal.”

O ciclo que agora fecha começou em 2018, quando João Barbosa entrou para a AJDS integrando a Comissão de Formação. Um ano depois, em 2019, assumiu a responsabilidade pelo Curso de Treinadores de Grau I, e desde 2022 fazia parte do Conselho Técnico da associação. A decisão de aceitar responsabilidades cada vez maiores não foi acidental: “aceitei estes desafios porque quis colocar-me à prova, mas também porque senti que podia contribuir para o desenvolvimento desta instituição, que tanto tem dado ao Judo nacional e internacional.”

Antes de integrar a estrutura da associação, João já vivia o Judo diariamente – como treinador de clube, acompanhando de perto o desenvolvimento dos seus atletas. E se há uma memória que resume o início desta ligação mais profunda à AJDS, é uma só: a primeira convocatória para um estágio da associação, com o Mestre Ronaldo. “Foi um momento marcante e que guardo até hoje com grande significado”, recorda.

O maior desafio, as maiores conquistas

“Ao longo destes anos, tive o privilégio de partilhar convosco o tatami, desafios, conquistas, aprendizagens e, acima de tudo, momentos de verdadeira amizade e companheirismo.”

Sem hesitar, aponta o maior desafio destes oito anos: “assumir a responsabilidade pelo Curso de Treinadores. Foi uma experiência muito exigente, que me obrigou a sair da minha zona de conforto, a assumir novas responsabilidades e a dar o meu melhor para contribuir para a formação de novos treinadores.” Do lado das conquistas, escolhe três, todas ligadas ao seu trabalho como treinador: a medalha conquistada no Torneio de Valdemoro com o atleta Hugo Subtil, do Clube de Judo de Torres Novas, e os títulos de Campeãs Nacionais alcançados pelas atletas Raquel Calado e Inês Ferreira, ambas do Grupo Recreativo 1º de Outubro de 1911. “São momentos que guardo com muito orgulho e que representam, para mim, o resultado de muito trabalho, dedicação e perseverança.”

Questionado sobre a maior aprendizagem que este percurso lhe deixou, a resposta antecipa já o tema que viria a definir o resto da entrevista: “nunca desistir. É lutar até ao fim, mesmo perante as dificuldades; é saber cair, levantar-me e voltar à luta com ainda mais força. No Judo, tal como na vida, é essa capacidade de persistência que nos faz crescer.”

A pandemia e o I Internacional de Equipas

“Levo comigo as recordações dos momentos difíceis, que superámos juntos, e das vitórias que celebrámos em equipa.”

O momento mais difícil não teve nada a ver com um adversário no tatami – teve a ver com a pandemia de Covid-19. “De um dia para o outro, deixámos de poder treinar, competir e estar junto dos atletas. O grande desafio foi perceber como ultrapassar o isolamento e, sobretudo, como manter a ligação e a motivação dos nossos judocas.” A resposta da equipa técnica passou por reuniões e encontros online entre os diferentes membros da associação, partilhando ideias, experiências e soluções. “Foi um momento difícil, mas também mostrou a capacidade da equipa técnica da AJDS de se unir, adaptar e encontrar formas de continuar a apoiar os atletas”, resume.

Do lado das vitórias celebradas em equipa, destaca a participação no I Internacional de Equipas da AJDS, evento em que, ao lado do Mestre Igor Sampaio, foi responsável por formar uma equipa representativa da associação. “Tornou-se um momento muito especial por podermos ver, dentro do tatami, a união que existe entre atletas de diferentes clubes da associação. Mais do que o resultado desportivo, foi gratificante ver todos a lutar por uma mesma equipa, com espírito de união, entreajuda e amizade. Foi, sem dúvida, um verdadeiro momento de equipa.”

As pessoas que não se resumem a um nome

“Foram as pessoas que fizeram desta caminhada algo verdadeiramente especial. Cada um de vocês deixou uma marca no meu percurso e terá sempre um lugar na minha memória.”

Pedido para escolher uma pessoa que tenha marcado especialmente este percurso, João recusa a tarefa – não por evasiva, mas por convicção: “todos tiveram algo para me transmitir ou ensinar e, de alguma forma, contribuíram para todos estes momentos especiais que vivi na AJDS. Cada pessoa deixou a sua marca neste percurso, seja através de uma experiência, de um conselho ou simplesmente de um momento partilhado. Por isso, seria injusto nomear apenas uma pessoa.”

As memórias mais queridas fora do tatami não são grandes eventos, mas os pequenos momentos de convívio depois das provas: “num ambiente mais descontraído e familiar, analisamos o que fizemos bem e o que podemos melhorar. São momentos de partilha e reflexão que nos ajudam a perceber o que podemos fazer de diferente no futuro. É também através dessas conversas que evoluímos e crescemos, não só enquanto atletas, mas também enquanto treinadores.”

Entreajuda: o valor mais posto à prova

“O Judo ensinou-me valores que levarei para toda a vida: respeito, disciplina, humildade, perseverança e entreajuda.”

De entre os cinco valores da sua carta, é a entreajuda que aponta como o mais exigido ao longo destes anos: “ninguém sabe tudo; para podermos evoluir, temos de estar disponíveis para partilhar conhecimentos, trocar ideias e procurar a ajuda de quem tem mais experiência ou conhecimento do que nós. Ao longo deste percurso, percebi que é através dessa partilha e da capacidade de trabalhar em conjunto que conseguimos crescer, tanto individualmente como enquanto equipa.” Esses valores, garante, não ficaram confinados ao tatami: “organizo a minha vida profissional e pessoal com base em objetivos, definindo metas que procuro alcançar. Aprendi no Judo que, para atingir esses objetivos com sucesso, é fundamental ter presentes valores como o respeito, a disciplina, a humildade, a perseverança e a entreajuda.”

A decisão mais difícil: a família primeiro

Chegados a este ponto da entrevista, todas as respostas anteriores começam a fazer sentido de uma forma diferente. A entreajuda que aprendeu a dar aos outros. A persistência de quem sabe cair e levantar-se. O respeito por aquilo que cada pessoa carrega, mesmo sem o dizer. Tudo isto, sem João talvez se dar conta, estava a prepará-lo para a decisão mais difícil da sua vida – não uma decisão tomada no tatami, mas em casa, ao final de um dia como tantos outros.

Porque, quando perguntado sobre o real motivo da despedida, João Barbosa não hesita em partilhar uma história que raramente se conta em circulares de associações desportivas — uma história de amor de pai.

Foram sobretudo motivos familiares. Tenho um filho surdo que necessita de um acompanhamento especializado, numa escola de referência para alunos surdos, começa por explicar. Durante dois anos, o filho frequentou a Escola Básica de Riachos – a apenas dez minutos de casa, e à partida a solução ideal para a família. Mas “as coisas não correram como esperávamos e sentimos que não estava a ter o acompanhamento de que necessitava.” A alternativa encontrada ficava bem mais longe: uma escola no Porto, considerada mais adequada às necessidades do filho. “No último ano letivo, estive separado da minha família por mais de 200 quilómetros, tendo sido bastante duro para todos; no entanto, foi muito proveitoso para o meu filho mais velho.”

É com uma honestidade pouco comum que João resume o que esta experiência lhe fez perceber: “confesso que, ao longo dos anos, coloquei muitas vezes a minha vida profissional e, principalmente, o Judo à frente da família. Neste momento, sinto que já não posso continuar a fazê-lo. A minha família precisa de mim e chegou a altura de lhe dar a prioridade que merece.”

O que fica, o que vem a seguir

Sobre manter alguma ligação futura ao Judo ou à AJDS, a resposta é sincera quanto à incerteza do momento: “foram muitos anos de ligação ao Judo e à AJDS e, naturalmente, não é fácil desligar-me de tudo aquilo que fez parte da minha vida durante tanto tempo. Não sei o que o futuro me reserva, mas, neste momento, sinto que preciso de me afastar. Talvez seja a forma que encontrei para conseguir encerrar este ciclo com a tranquilidade necessária e dedicar-me à minha família.”

Profissionalmente, também prefere não fazer grandes planos por agora: “quero viver este novo capítulo com calma, estar presente para a minha família e, depois, perceber o que o futuro me reserva. O Judo ensinou-me a nunca desistir e a enfrentar cada desafio no momento certo. É isso que pretendo fazer agora.”

Legado e mensagem final

“Que continuem a inspirar as novas gerações e a dignificar o nome da Associação Distrital de Judo de Santarém com o mesmo empenho, paixão e espírito de missão.”

Sobre o legado que gostaria de deixar dentro do Conselho Técnico da AJDS, a resposta é modesta face a tudo o que este percurso representou: “espero que fique o espírito de amizade, união e perseverança com que sempre abracei esta função. Acima de tudo, gostaria que o meu contributo tivesse ajudado a AJDS e os seus atletas a crescer e a evoluir.” A quem for continuar este trabalho, deixa votos e um pedido: “desejo que consigam alcançar todos os objetivos que definirem e que continuem sempre a procurar mais e melhor para os atletas da AJDS. Que mantenham o espírito de união, entreajuda e dedicação que caracteriza esta associação.”

E sobre o que representou, afinal, esta “família” – a palavra que escolheu para se despedir de todos –, a resposta fecha o círculo desta entrevista da forma mais bonita possível: “esta família foi o meu porto de abrigo. Foi um espaço onde encontrei amizade, apoio e força para ultrapassar as adversidades da vida, tal como acontece com a minha família de sangue. Por isso, levo comigo uma enorme gratidão por tudo o que vivi e por todas as pessoas que fizeram parte deste caminho.”

Fica, para os leitores do IPPONZITO, mais do que a história de uma despedida: fica a história de um homem que deu oito anos de si próprio a uma associação, e que agora encontra a mesma coragem que sempre pediu aos seus atletas – a de nunca desistir – para dar prioridade a quem, afinal, sempre esteve à espera dele em casa.

Há entrevistas que se escrevem com a cabeça, e há entrevistas que se escrevem com o coração. Esta foi, sem dúvida, das segundas. Obrigado, João, por teres transformado uma simples mensagem de despedida, num grupo de WhatsApp, numa lição de vida para toda a comunidade do Judo do Ribatejo. Que o Porto vos receba bem, a ti e à tua família, e que o teu filho encontre ali tudo aquilo de que precisa para crescer feliz. A porta da AJDS – sabemo-lo, porque foste tu que o escreveste – fica sempre aberta para quem, como tu, um dia a chamou de família.

– A Redação do IPPONZITO