COMPETIÇÃO

João Fernando: o ouro de Taranto e o verão em que o Judo português voltou a brilhar

João Fernando conquistou a medalha de ouro nos Jogos do Mediterrâneo 2026, em Taranto, depois de vencer a final de -81 kg por ippon em apenas 38 segundos.

Por Ana Rodrigues 5 minutos de leitura
João Fernando campeão dos Jogos do Mediterrâneo 2026
João Fernando conquistou a medalha de ouro em -81 kg nos Jogos do Mediterrâneo 2026.

A 28 de agosto de 2026, no PalaWojtyla de Martina Franca, o judoca João Fernando bateu o egípcio Abdelrahman Abdelghany por ippon, em apenas 38 segundos, e sagrou-se campeão dos Jogos do Mediterrâneo na categoria de -81 kg. Foi um dos maiores resultados do ano para o Judo português, alcançado numa prova em que a comitiva nacional se apresentou em força.

38 segundos para o ouro

A final da categoria de -81 kg não deu tempo a grandes hesitações. Frente ao egípcio Abdelrahman Abdelghany, João Fernando resolveu o combate por ippon em apenas 38 segundos, um desfecho tão rápido quanto contundente, que valeu a Portugal a sua 18.ª medalha na XX edição dos Jogos do Mediterrâneo, disputados em Taranto, Itália. Tratou-se também da 7.ª medalha de ouro portuguesa na competição – um número que, por si só, já diz muito sobre o nível da participação nacional em Taranto2026.

O ouro de João Fernando não chegou isolado: foi o resultado mais alto de uma comitiva portuguesa de Judo com vários atletas em ação ao longo da competição, como se detalha mais à frente.

Um verão que já vinha dourado

O ouro de João Fernando surge enquadrado num dos melhores verões desportivos portugueses dos últimos anos. Antes do Judo entrar em ação, Taranto2026 já tinha sorrido a Portugal por várias vias: na natação, com os ouros de Camila Rebelo (100 e 200 metros costas) e Francisca Martins (400 metros livres); na canoagem, com Bruno Brasileiro (K1 1000 metros) e Ana Gabriela Brito (K1 500 metros); e no ciclismo, com o triunfo de Tiago Antunes na contrarrelógio.

É nesse contexto que o ouro do Judo ganha um significado adicional: não é apenas mais uma medalha, mas a confirmação de que a modalidade tem lugar cativo entre os desportos que têm feito de Taranto2026 uma competição de exceção para Portugal.

De Coimbra para o tatami do Sporting

João Fernando é natural de Coimbra e compete pelo Sporting Clube de Portugal, um dos clubes de referência do Judo nacional. A imprensa da sua cidade natal já o descreve como “o olímpico português” – um estatuto que reflete um percurso de alto nível que, em Taranto, atingiu um dos seus pontos mais altos.

O engenheiro que também é judoca

Se os resultados no tatami já seriam motivo suficiente de destaque, o percurso pessoal de João Fernando junta-lhes uma camada pouco comum entre atletas de alto rendimento: é aluno de Engenharia Aeroespacial no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, e sonha um dia tornar-se piloto comercial. Uma dupla vida, tatami e sala de aula, que ele próprio reconhece exigir equilíbrio constante.

“Eu acredito que ter opções é melhor do que não ter, e tenho o privilégio de ter muitas ambições na minha vida. Sempre fui muito dedicado aos estudos e apaixonado pelo desporto e pela competição.” – João Fernando

O próprio admite que conciliar um curso academicamente exigente com o Judo de alto rendimento não foi um caminho isento de dúvidas.

“Sim, todos os dias [pensei que estava a exigir demasiado de mim próprio], mas tinha o judo como prioridade, e sabia que não tinha pressão para acabar o curso rapidamente, por isso tive de aprender a gerir o cansaço físico e psicológico.” – João Fernando

E se seria tentador procurar paralelismos entre o raciocínio de engenheiro e a leitura tática de um combate, João Fernando prefere não forçar essa ligação – para ele, o que conta é a cabeça bem treinada, tanto para os livros como para o tatami.

“Não consigo fazer nenhuma ligação entre a engenharia e o judo, o que posso dizer é que a cabeça também se treina… Para mim, estudar tem sido crucial na minha carreira desportiva.” – João Fernando

Uma comitiva portuguesa em força

O ouro de João Fernando não esteve isolado dentro da participação portuguesa em Taranto2026 – foi antes o resultado mais alto de uma comitiva de Judo com vários atletas em prova ao longo da competição. Na mesma jornada da final de -81 kg, Alexandre Bucur competiu nos -73 kg e terminou em 9.º lugar, Maria Siderot alcançou o 7.º posto nos -52 kg – a um passo da disputa da medalha de bronze – e Ana Agulhas representou Portugal nos -57 kg, sem conseguir alcançar uma posição classificada. Já no dia seguinte, foi a vez de Margarida Brás (-63 kg) e Diogo Chantre (-100 kg) subirem ao tatami de Martina Franca, dando continuidade à presença portuguesa nos Jogos. É este conjunto de resultados, com o ouro de João Fernando à cabeça, que confirma o bom momento coletivo do Judo português nesta edição dos Jogos do Mediterrâneo.

Resta agora acompanhar o que resta da temporada internacional, com Portugal a mostrar, em Taranto, que tem hoje uma geração de judocas capaz de competir – e vencer – ao mais alto nível.

Nota de Referência

Federação Portuguesa de Judo (fpj.pt) e Diário de Coimbra – artigos publicados a propósito da medalha de ouro de João Fernando nos Jogos do Mediterrâneo 2026 e da entrevista da semana dedicada ao judoca.