Arbitragem

Jorge Vítor: 45 anos a ensinar Judo, um só valor sempre à frente – o Respeito

Foi escolhido para dar treino ainda em cinto amarelo, quando o treinador faltava. Meio século depois, Jorge Manuel Barroca Vítor é o rosto mais constante do Judo na Casa Benfica de Santarém – 3.º Dan, árbitro de elite, e treinador da secção desde 1983, ao lado do Mestre António Anjinho. Nesta conversa com o IPPONZITO, […]

Por Tiago Martins 9 minutos de leitura
Jorge Vítor, treinador de Judo da Casa Benfica de Santarém, de judogi
Jorge Vítor, treinador da secção de Judo da Casa Benfica de Santarém desde 1983.

Foi escolhido para dar treino ainda em cinto amarelo, quando o treinador faltava. Meio século depois, Jorge Manuel Barroca Vítor é o rosto mais constante do Judo na Casa Benfica de Santarém – 3.º Dan, árbitro de elite, e treinador da secção desde 1983, ao lado do Mestre António Anjinho. Nesta conversa com o IPPONZITO, recorda os primeiros treinos nos Correios e Telecomunicações de Portugal, os mais de 900 atletas que já passaram pelo clube, e explica por que razão, entre todos os valores do Judo, há um que repete sempre aos mais novos: o respeito.

IPPONZITO · Casa Benfica de Santarém · Grande Entrevista

JORGE VÍTOR EM SÍNTESE

• Jorge Manuel Barroca Vítor, 3.º Dan desde 2017.

• Pratica Judo há 51 anos; é treinador há 45, desde dezembro de 1980 (curso de treinador de 4.º grau; curso de treinador de Grau II em 1992).

• Treinador da secção de Judo da Casa Benfica de Santarém (CBS) desde a época de 1982/83, a convite do Mestre António Anjinho.

• Membro da direção da Associação de Judo do Distrito de Santarém (AJDS), da Comissão Distrital de Graduações, e presidente da Comissão Associativa de Arbitragem.

• Acompanha atualmente entre 70 e 80 atletas por época, dos 5 anos aos veteranos.

“Um caneco cobiçado por 15 equipas espanholas veio para Santarém”

Há uma memória que Jorge Vítor guarda com especial carinho: uma liga disputada em Madrid, em que a equipa da Casa Benfica de Santarém se apurou, na última jornada, para a fase final – e, já em Espanha, com o pavilhão a cantar o hino nacional português, trouxe para Santarém um troféu cobiçado por quinze equipas espanholas. “Foi para chorar de alegria”, resume, décadas depois, sem perder o entusiasmo na voz.

É esse tipo de momento – mais do que qualquer medalha isolada – que define, para Jorge Vítor, o que significa ter passado quase meio século a ensinar Judo na mesma cidade.

“Peguei um cinto amarelo e já estava a ensinar”

A história de Jorge Vítor com o Judo começa aos 17 anos, nos Correios e Telecomunicações de Portugal — a empresa hoje conhecida como MEO –, onde trabalhava. Foi lá que conheceu o homem que se tornaria o seu treinador para a vida: o Mestre António Anjinho, também ele funcionário da empresa, convidado pela direção a criar uma secção de Judo para os trabalhadores e os filhos.

“Os atletas que deram início a este projeto eram todos iniciantes na modalidade, e foi muito bom para todos porque se ajudavam uns aos outros – evoluímos muito graças a essa amizade”, recorda. A nível nacional, teve ainda oportunidade de aprender com outros mestres: Kyoshi Kobayashi, José Manuel Bastos Nunes, Henrique Nunes, Costa Matos, Fausto Carvalho e o alemão Dieter Steen, de quem guarda memória especial pela forma “fabulosa” como ensinava Kata.

A vontade de ensinar surgiu cedo – tão cedo que ainda usava cinto amarelo. “Era o escolhido para dar treino quando o treinador não podia estar presente”, conta. Tirou o primeiro curso de treinador ainda em 2.º Kyu, com apenas cinco anos de prática. “Foi uma oportunidade que o meu treinador me deu, e hoje, vendo o meu percurso, acho que foi uma aposta ganha.”

1973-1983: os dez anos antes de Jorge Vítor

O Judo chegou à Casa Benfica de Santarém em 1973, sob a responsabilidade técnica do Mestre Kyoshi Kobayashi – embora quem desse, de facto, os treinos fosse um seu aluno, Joaquim Cabrita Matias, que viajava de Lisboa duas vezes por semana. Seguiram-se, no mesmo regime de deslocação, o Mestre João Taborda, António Rodrigues (que Jorge Vítor acredita ter sido polícia) e o Mestre Júlio Marcelino – hoje no Judo Clube do Algarve – que vinha de Salvaterra de Magos.

Em 1982/83, nove anos depois de a secção ter arrancado, a direção da CBS concluiu que a melhor forma de garantir estabilidade era ter um treinador da própria cidade. O convite foi feito ao Mestre António Anjinho – que, além de treinador de Jorge Vítor nos Correios e Telecomunicações, era também aluno fundador da própria Casa Benfica de Santarém.

O convite que uniu dois treinadores

Anjinho pôs uma condição para aceitar: só entraria se Jorge Vítor o acompanhasse nessa aventura. A proposta foi aceite pela direção do clube – e foi assim que Jorge Vítor se tornou, também ele, treinador da Casa Benfica de Santarém.

“Ainda lá hoje nos encontramos, a tentar dar o melhor para as gentes escalabitanas” – Jorge Vítor

Nesse arranque, Jorge Vítor ainda não praticava Judo e não fez parte da fase inicial – mas sabe, por relato de quem lá esteve, que não foi fácil: “Havia muitos entraves de diversas pessoas ligadas ao clube, que tudo fizeram para travar o projeto de iniciação do Judo.” Quando ele e Anjinho assumiram a secção, introduziram desde logo uma mudança que se revelaria acertada: um treino semanal a mais. Dois anos depois, passaram para cinco dias por semana – Anjinho ficou com a formação, às terças e quintas; Jorge Vítor com a competição, às segundas, quartas e sextas-feiras, divisão que mantém até hoje.

MEIO SÉCULO DE TATAMI – OS NÚMEROS DA CBS

• Mais de 900 atletas pelo clube em 53 anos de Judo.

• Mais de 100 medalhas nacionais e mais de 30 campeões nacionais individuais.

• 9 troféus nacionais por equipas, com destaque para a geração de cadetes campeã nacional em 2004, 2005 e 2006, terceira classificada em 2007 e novamente campeã em 2008.

• Clube fundador da Associação de Judo do Distrito de Santarém (AJDS).

Nuno Delgado, Duarte Duarte, Pedro Vargas: os nomes que ficam

Entre os atletas que Jorge Vítor viu passar pela Casa Benfica de Santarém, há nomes que se destacam com naturalidade. Nuno Delgado – hoje uma das maiores referências do Judo português, medalhado olímpico – “deu-nos muitas alegrias pelas suas vitórias”, recorda o treinador. Duarte Duarte, no último ano antes de sair para a universidade, foi campeão nacional de júnior, campeão nacional de sub-23 e terceiro classificado em seniores – “não é para esquecer nunca”.

Há ainda o caso de Pedro Vargas, seu aluno desde os sete anos, que, já adulto, regressou ao clube como seu adjunto de treino. “Os títulos nacionais que obtivemos na década de 2000, ele é que teve o mérito, com o trabalho que desenvolveu com eles”, reconhece Jorge Vítor. “Mas todos são recordados de alguma maneira, pois o Judo serve também para criar amizades para a vida.”

O respeito acima de tudo

Questionado sobre a sua filosofia de ensino, Jorge Vítor não hesita: procura transmitir, a todos os alunos, “um pouco de cada valor que o Judo tenta passar” – mas sobretudo treinar com alegria, deixando a competição a sério para mais tarde, lá para os 12 ou 13 anos. Entre os oito valores do código moral do Judo, há um que repete constantemente aos mais jovens.

“É o mais importante – respeito pelos outros” – Jorge Vítor, sobre o valor que mais insiste em transmitir

Para o treinador, essa transmissão de valores não se faz apenas em palavras. “Com todos os seus valores, nós, adultos, e principalmente os treinadores e dirigentes, dando o exemplo no dia a dia, vamos contribuindo na formação do carácter dos atletas.” Quanto ao impacto concreto do Judo na vida de um aluno, prefere não falar por outros: “Isso só o próprio o pode afirmar. Por isso só posso falar por mim – e garantidamente que mudou a minha vida em muitos aspetos.”

Um treino típico, hoje

Neste início de época, a maioria dos cerca de 40 alunos já inscritos na Casa Benfica de Santarém tem entre 5 e 12 anos – e o número continua a crescer. Jorge Vítor conta com a ajuda de cinco ou seis pais, todos cintos negros e também eles judocas, e com um tatami de 150 tapetes, que divide em duas partes: uma sessão dinâmica e cheia de jogos para os mais novos, e um trabalho mais técnico, numa segunda parte, para os alunos mais graduados.

O equilíbrio entre formar campeões e formar pessoas é, para Jorge Vítor, uma questão de trabalho a dois – aluno e treinador. “Têm que estar focados no trabalho, mas nunca esquecer da pessoa que ele é, e ajudar e aconselhar nos momentos em que o atleta precisa de ajuda, e não depois”, explica. “Não me posso queixar, pois todos os meus atletas que mais se sobressaíram foram todos muito bons alunos escolares e excelentes homens e mulheres para a vida.”

O que falta: mais atletas, mais técnicos – e uma Direção focada no desporto

Olhando para o futuro mais imediato, o objetivo de Jorge Vítor é claro: aumentar o número de atletas e, sobretudo, o de técnicos devidamente credenciados, capazes de dar continuidade ao trabalho construído ao longo de 53 anos de atividade. A Câmara Municipal de Santarém cedeu recentemente um novo espaço ao clube, o que abre margem de crescimento – mas a maior preocupação de Jorge Vítor está noutro escalão: o júnior/sénior, onde todos os anos perde atletas que seguem a vida académica para universidades na capital e deixam de competir pelo clube.

Depois de 45 anos como treinador da CBS, Jorge Vítor já viu passar “imensas direções” – algumas mais empenhadas, outras menos. Com o clube agora numa sede nova, deixa uma reflexão franca sobre a relação com o clube-mãe, o Sport Lisboa e Benfica.

“O que eu sinto da presente direção é que se pensa muito no Benfica e pouco na Casa Benfica em Santarém. O que preciso é de uma direção focada no desporto do clube, e não tanto no clube-mãe” – Jorge Vítor

Mensagem Final

A quem hesita em inscrever um filho no Judo, ou em começar a praticar, Jorge Vítor deixa uma proposta simples: a oportunidade de praticar uma modalidade olímpica onde se aprende a ser “campeão para a vida”. “Incutimos nas crianças o espírito do Judo que, para além da parte física, tem a sua componente – e, principalmente, um código moral com oito valores: respeito, honestidade, autocontrolo, amizade, cortesia, honra, coragem e modéstia. Faz desporto… pratica Judo.”

“Sem o Judo, não seria uma pessoa totalmente feliz, de certeza” – Jorge Vítor, sobre o que o Judo representa na sua vida

O que fica:
Cinquenta e um anos de tatami, quarenta e cinco a ensinar, sempre na mesma cidade. Jorge Vítor é a prova de que a continuidade – mais do que qualquer medalha – é o que sustenta um clube de formação ao longo de meio século.

Nota de Referência

Entrevista realizada, a pedido do IPPONZITO, com Jorge Manuel Barroca Vítor, treinador da secção de Judo da Casa Benfica de Santarém desde 1983.