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Luís Miguel Albuquerque: “Queremos sobretudo ganhar pessoas para o desporto – Essas são as vitórias que procuramos”

Ourém foi distinguido, em 2026, como “Destino Desportivo Recomendado”, e o Judo – do competitivo ao Judo Adaptado do CRIO – tem sido um dos rostos dessa consolidação. Nesta Grande Entrevista ao IPPONZITO, o Presidente da Câmara Municipal de Ourém, Luís Miguel Albuquerque, no cargo desde 2017, fala de orçamento, de infraestruturas, do sonho de […]

Por Tiago Martins 14 minutos de leitura
Luís Miguel Albuquerque, Presidente da Câmara Municipal de Ourém, no seu gabinete
Luís Miguel Albuquerque, Presidente da Câmara Municipal de Ourém desde 2017. Fotografia: CMOurém

Ourém foi distinguido, em 2026, como “Destino Desportivo Recomendado”, e o Judo – do competitivo ao Judo Adaptado do CRIO – tem sido um dos rostos dessa consolidação. Nesta Grande Entrevista ao IPPONZITO, o Presidente da Câmara Municipal de Ourém, Luís Miguel Albuquerque, no cargo desde 2017, fala de orçamento, de infraestruturas, do sonho de trazer uma grande competição de Judo ao concelho, e do que considera a verdadeira medida do sucesso de uma política desportiva municipal: não as medalhas, mas as pessoas que se põem a mexer.

A ENTREVISTA EM SÍNTESE

• 744 mil euros de apoio financeiro aprovados em 2026 para 80 associações culturais, recreativas, desportivas e juvenis do concelho.

• Ourém alcançou o 3.º lugar, com a classificação “Destino Desportivo Recomendado”, no reconhecimento “Destino Desportivo do Ano 2026” (municípios de 25.001 a 50.000 habitantes).

• Na Gala do Desporto e da Atividade Física 2026 (3.ª edição), foram entregues 21 troféus e 3 Prémios de Ética Desportiva; Ricardo Lopes, do CRIO, foi eleito Treinador do Ano pelo trabalho no Judo Adaptado.

• O CRIO já foi distinguido, em edições anteriores da Gala, pelos resultados dos seus atletas e da equipa de Judo Adaptado.

• Em Fátima, decorre uma empreitada superior a 2,6 milhões de euros para dois novos campos de futebol em relva sintética, bancadas e balneários.

• O Congresso do Desporto do Médio Tejo, que Ourém integra desde 2024, já envolveu mais de 1.500 participantes e 60 oradores nas suas edições.

Uma visão alargada do desporto

Desde que assumiu a presidência da Câmara Municipal de Ourém, em 2017, Luís Miguel Albuquerque descreve uma evolução clara na forma como o município encara o desporto: menos focada apenas na competição, mais atenta à sua dimensão social. “O desporto ganhou uma dimensão cada vez mais importante na estratégia do Município ao longo dos últimos anos. Não apenas na componente competitiva, mas enquanto instrumento de saúde, educação, inclusão, associativismo e qualidade de vida”, resume.

“O desporto não começa nem termina na competição. Está numa criança que experimenta uma modalidade pela primeira vez, num atleta que representa Ourém numa competição internacional, numa pessoa com deficiência que encontra no desporto novas possibilidades, ou num sénior que pratica atividade física para preservar a sua autonomia.” – Luís Miguel Albuquerque

Essa visão alargada ganhou, em 2026, um reconhecimento externo: Ourém alcançou o 3.º lugar, com a classificação de “Destino Desportivo Recomendado”, entre os municípios portugueses com 25.001 a 50.000 habitantes, no âmbito do “Destino Desportivo do Ano 2026”. “É um resultado que naturalmente nos deixa satisfeitos, sobretudo porque avalia a capacidade dos municípios para integrar o desporto na promoção turística e territorial”, sublinha o autarca, deixando claro que a distinção “não significa que o trabalho esteja concluído. Significa precisamente que temos razões para continuar.”

744 Mil Euros e “Regras iguais para realidades diferentes”

Em 2026, o Município aprovou 744 mil euros de apoio financeiro a 80 associações culturais, recreativas, desportivas e juvenis do concelho. Luís Miguel Albuquerque faz questão de sublinhar que essa distribuição não resulta de critérios discricionários: “existem regulamentos municipais e critérios objetivos de avaliação das candidaturas, procurando garantir transparência e equidade na utilização dos recursos públicos.” Para além das transferências financeiras, o apoio municipal passa também por investimento em instalações, cedência de equipamentos e espaços, e apoio logístico.

“O objetivo não é tratar todas as associações como se fossem iguais. É garantir regras iguais para realidades necessariamente diferentes.” – Luís Miguel Albuquerque

Questionado especificamente sobre as dificuldades dos clubes de menor dimensão – como acontece com muitos clubes de Judo do distrito, o autarca reconhece que a maior limitação nem sempre é financeira: “muitas associações dependem enormemente do voluntariado dos seus dirigentes. Por vezes, a maior dificuldade não é sequer financeira. É encontrar pessoas disponíveis para assegurar diariamente a gestão, a formação e toda a burocracia associada à atividade de um clube.” Nesse contexto, defende que cabe também aos municípios “simplificar procedimentos e estar próximos do movimento associativo.”

Muito mais do que competição

Sobre o papel social do desporto no desenvolvimento de um concelho como Ourém, a resposta de Luís Miguel Albuquerque vai muito além do resultado desportivo: “O desporto ensina a ganhar e, talvez ainda mais importante, ensina a perder. Ensina disciplina, responsabilidade, respeito por regras, pelos adversários e por quem arbitra. Cria relações entre gerações e oferece às crianças e aos jovens espaços de pertença que são particularmente importantes numa sociedade cada vez mais individualizada.”

Há ainda, sublinha, uma dimensão territorial a não esquecer: “num concelho com a dimensão e a dispersão de Ourém, muitas associações desportivas são verdadeiros pontos de encontro das suas comunidades. Mantê-las ativas significa também manter vivas as freguesias.”

O judo em Ourém: consistência e resultados

Perguntado diretamente sobre o crescimento do Judo no concelho, o Presidente da Câmara traça um retrato de consistência. “O Judo tem vindo a conquistar o seu espaço no panorama desportivo e os resultados alcançados mostram a qualidade do trabalho que tem sido desenvolvido.” Recorda que o próprio município já reconheceu esse percurso nas suas Galas do Desporto: na II Gala, foram distinguidos atletas e a equipa de Judo Adaptado do CRIO; e, já na terceira edição, em 2026, Ricardo Lopes, também do CRIO, foi eleito Treinador do Ano pelo trabalho desenvolvido no Judo Adaptado.

“Mais do que as distinções em si, isto revela consistência. Há atletas, há técnicos, há trabalho continuado e há resultados.” – Luís Miguel Albuquerque

Sobre uma eventual ligação pessoal à modalidade, o autarca é honesto: não tem qualquer percurso próprio no Judo. “O contacto que fui tendo com a modalidade resulta sobretudo das minhas funções e do acompanhamento dos atletas e projetos existentes no concelho.” Ainda assim, identifica valores do Judo que aprecia particularmente: “o respeito pelo adversário, a disciplina, a concentração e a capacidade de perceber que competir não significa diminuir quem está do outro lado. São princípios que ultrapassam largamente o desporto.”

Infraestruturas: sem promessas vazias

Questionado sobre se o Judo tem, hoje, em Ourém, as condições e os espaços de treino de que precisa, Luís Miguel Albuquerque evita compromissos que não possa cumprir. “Não considero responsável afirmar que todas as necessidades estão resolvidas, da mesma forma que não faria sentido assumir neste momento compromissos específicos relativamente a equipamentos que não estejam definidos.” Compromete-se, isso sim, a manter o diálogo: “o que posso garantir é que o Município continuará disponível para trabalhar com os clubes, perceber as suas necessidades e encontrar soluções proporcionais à procura, ao número de praticantes e à utilização dos equipamentos.”

Entre os investimentos já em curso, destaca a empreitada em Fátima – superior a 2,6 milhões de euros – para a construção de dois novos campos de futebol em relva sintética, bancadas e balneários, exemplo do tipo de aposta em infraestrutura que o município tem feito noutras modalidades.

O CRIO: “Com enorme respeito, sobretudo pelos atletas”

É, porventura, sobre o CRIO e o seu projeto de Judo Adaptado que Luís Miguel Albuquerque fala com maior convicção. “Quando um atleta do CRIO sobe a um pódio nacional ou representa o nosso concelho numa competição internacional, aquilo que devemos ver primeiro é um atleta. Alguém que treinou, que se preparou, que competiu e conquistou aquele resultado pelo seu mérito.” É por isso, explica, que a Gala do Desporto do município tem feito questão de distinguir o Judo Adaptado do CRIO no mesmo palco em que reconhece o melhor do desporto do concelho –“isto também é inclusão. Não criar um espaço à parte para reconhecer estes atletas e técnicos, mas avaliar e distinguir o seu mérito no mesmo contexto em que reconhecemos o melhor do desporto do concelho.”

“As medalhas são importantes e merecem ser celebradas. Mas aquilo que muda verdadeiramente uma comunidade é começar a olhar para as pessoas pelas suas capacidades e não pelas suas limitações. Esse talvez seja um dos maiores contributos do CRIO e do Judo Adaptado para o nosso concelho.” – Luís Miguel Albuquerque

Sobre planos futuros de reforço de apoio, evita anúncios prematuros mas deixa a orientação: “queremos que uma pessoa com deficiência encontre no desporto as mesmas possibilidades de participação, desenvolvimento e realização pessoal que qualquer outro cidadão. E sempre que existirem projetos sérios que contribuam para esse objetivo, o Município procurará ser parte da solução.” E, olhando dez anos à frente, resume aquilo que considera o verdadeiro objetivo da inclusão: “não criar permanentemente circuitos paralelos, mas garantir que todos encontram lugar no desporto do concelho, respeitando naturalmente as especificidades de cada pessoa e modalidade.”

“Ourém está ativo”: Seis anos de inclusão pelo desporto

Ativo desde 2020, o programa municipal “Ourém Está Ativo” tem uma vertente dedicada especificamente ao desporto adaptado. “O balanço é muito positivo”, avalia Luís Miguel Albuquerque, recusando medir o sucesso apenas por números de participação ou classificações: “há ganhos de autonomia, confiança, socialização, saúde e qualidade de vida que são igualmente importantes.”

“Para mim, o sucesso de uma política municipal de desporto não se mede só pelas medalhas conquistadas. Mede-se também pelo número de pessoas que conseguimos pôr a mexer, pela regularidade com que praticam atividade física e pela capacidade de chegar a quem, de outra forma, poderia ficar afastado da prática desportiva.” – Luís Miguel Albuquerque

A Gala do Desporto: reconhecer quem raramente aparece numa fotografia

Chegada já à terceira edição, em 2026, a Gala do Desporto e da Atividade Física de Ourém entregou 21 troféus e três Prémios de Ética Desportiva, introduzindo também, pela primeira vez, a participação do público na escolha dos distinguidos, ao lado da avaliação do júri. “Quem representa o nosso concelho, quem trabalha diariamente nos clubes e associações e quem alcança resultados de mérito deve sentir que Ourém reconhece esse esforço”, explica o autarca, lembrando que a Gala não serve apenas para premiar quem vence: “num clube há atletas, mas há também treinadores, dirigentes, famílias e muitas pessoas que trabalham voluntariamente e raramente aparecem numa fotografia. O desporto do concelho não existiria sem elas.”

Entre as modalidades já distinguidas contam-se futebol, atletismo, voleibol, ginástica, karaté, footgolf, ténis, futsal – e também o Judo Adaptado.

“Porque não?” – o sonho de uma grande competição de judo em Ourém

Questionado diretamente sobre o sonho de ver, um dia, uma grande competição de Judo, nacional ou internacional, a realizar-se em Ourém, Luís Miguel Albuquerque não fecha a porta – pelo contrário. “Porque não? Temos condições de acolhimento, uma localização central e experiência na organização e receção de eventos de dimensão nacional e internacional.”

“Não faria sentido anunciar hoje uma competição que não está programada. O que posso dizer é que, se surgir uma proposta consistente para trazer a Ourém uma grande competição de Judo, o Município estará naturalmente disponível para a analisar.” – Luís Miguel Albuquerque

A condição, sublinha, é que qualquer evento resulte de “um projeto sólido, construído com as entidades da modalidade e com condições técnicas, logísticas e financeiras adequadas” – e que deixe, no território, mais do que o resultado desportivo: “participação, conhecimento, promoção, impacto económico ou inspiração para novos praticantes.”

Desporto, turismo e a marca Ourém

Com Fátima como âncora turística e um território diversificado, Luís Miguel Albuquerque vê no desporto um motor de dinamização económica já em funcionamento. “Quando recebemos uma grande prova, não recebemos apenas atletas. Recebemos equipas, famílias, técnicos, organização e público. Essas pessoas dormem, comem, conhecem o território e movimentam a economia local.” O ciclismo – com a Volta a Portugal, a La Vuelta, os Campeonatos Nacionais de Ciclismo de Estrada e o Ourém Fátima Granfondo – é, na sua leitura, o exemplo mais evidente desse potencial, ao lado de iniciativas como os “Caminhos d’Ourém”.

Essa é também a lógica por trás da distinção “Destino Desportivo do Ano 2026”, que o autarca não quer ver transformada em ponto de chegada: “se conseguirmos fazer tudo isto de forma consistente, a identidade desportiva não precisa de ser proclamada. Será reconhecida.”

Cooperação regional: o Congresso do Desporto do Médio Tejo

Sobre a cooperação entre os municípios do Médio Tejo através da CIM, Luís Miguel Albuquerque aponta o Congresso do Desporto do Médio Tejo como prova de que o modelo funciona. Nascido em 2022 com quatro municípios, o Congresso envolve hoje os 11 concelhos da região; Ourém integra a iniciativa desde 2024 e recebeu, a 26 de setembro de 2026, uma das sessões da quinta edição. As edições anteriores já envolveram mais de 1.500 participantes e mais de 60 oradores.

“No desporto, como noutras áreas, cooperar não significa perder identidade. Significa ganhar escala.” – Luís Miguel Albuquerque

Sobre o papel do desporto na retenção de jovens, num contexto de interioridade que afeta vários municípios da região, é cauteloso em atribuir-lhe um peso desproporcionado: “não podemos pedir ao desporto que resolva sozinho a fixação dos jovens. Para isso precisamos de emprego, habitação, educação, cultura, mobilidade e qualidade de vida.” Ainda assim, reconhece-lhe um papel real: “o desporto integra esse ecossistema e tem uma enorme capacidade para criar pertença. E um jovem que sente que pertence a um território tem mais uma razão para querer fazer parte do futuro desse território.”

Uma mensagem aos jovens do judo

Para fechar a conversa sobre a modalidade, o IPPONZITO pediu uma palavra direta aos jovens do concelho que já praticam Judo – ou que ainda hesitam em experimentar.

“Aos que já praticam, diria para continuarem. O Judo ensina coisas que permanecem muito depois de sair do tatami. Ensina disciplina, respeito, concentração, capacidade de cair e de voltar a levantar. E talvez esta última seja uma das melhores lições que o desporto pode dar a um jovem. A quem nunca experimentou, o meu conselho é muito simples. Experimente. Nem todos serão campeões e nem todos têm de o ser. O importante é encontrar uma modalidade de que gostem, praticar desporto, aprender com os outros e perceber até onde são capazes de chegar. Se for o Judo, tanto melhor.” – Luís Miguel Albuquerque

O balanço, e as vitórias que procuramos

Perguntado sobre como desenharia o Ourém desportivo dos próximos dez anos, Luís Miguel Albuquerque projeta mais praticantes regulares, melhores instalações, associações fortes e sustentáveis, e um desporto adaptado “tão integrado na nossa realidade desportiva que já não precisássemos de falar de inclusão como uma exceção.” Quer também um concelho preparado para continuar a receber grandes eventos – “esses eventos projetam o concelho, dinamizam a economia e podem também inspirar os mais jovens a praticar desporto.”

No balanço final, sobre o papel que o desporto – do Judo ao desporto adaptado – teve na imagem de Ourém nos últimos anos, o autarca escolhe destacar a diversidade: “hoje podemos falar dos grandes eventos que recebemos, dos atletas oureenses que competem ao mais alto nível, do trabalho realizado pelos clubes nas nossas freguesias, do Judo Adaptado do CRIO, dos Caminhos d’Ourém, do desporto escolar ou dos milhares de pessoas que simplesmente escolheram ser mais ativas. São realidades muito diferentes, mas todas fazem parte da mesma ideia de concelho.”

“Queremos ganhar provas e celebrar medalhas, naturalmente. Mas queremos sobretudo ganhar pessoas para o desporto. Essas são as vitórias que procuramos.” – Luís Miguel Albuquerque

O que fica:
Entre o orçamento, as infraestruturas e a Gala do Desporto, fica uma ideia recorrente ao longo de toda a conversa: o sucesso de uma política desportiva municipal não se mede em medalhas, mas em pessoas. E o Judo – do competitivo ao Judo Adaptado do CRIO – surge, nesse retrato, como um dos exemplos mais consistentes desse investimento em Ourém.

Nota de Referência

Grande Entrevista realizada por escrito, a convite do IPPONZITO, com Luís Miguel Albuquerque, Presidente da Câmara Municipal de Ourém.