COMPETIÇÃO

Martim Veríssimo e Santiago Jorge: o bronze europeu do Ribatejo em Nage-no-Kata

No Pavilhão Jorge Garbajosa, em Torrejón de Ardoz, no passado dia 5 de setembro, uma dupla de cadetes da Associação de Marinheiros de Ferreira do Zêzere (AMFZ) escreveu um dos capítulos mais bonitos da temporada do Judo do Ribatejo. Martim Veríssimo e Santiago Jorge, em representação da Associação de Judo do Distrito de Santarém e […]

Por Ana Rodrigues 9 minutos de leitura
Martim Veríssimo e Santiago Jorge conquistam bronze em Nage-no-Kata
Martim Veríssimo e Santiago Jorge conquistaram a medalha de bronze em Nage-no-Kata no Madrid EJU Kata Tournament 2026.

No Pavilhão Jorge Garbajosa, em Torrejón de Ardoz, no passado dia 5 de setembro, uma dupla de cadetes da Associação de Marinheiros de Ferreira do Zêzere (AMFZ) escreveu um dos capítulos mais bonitos da temporada do Judo do Ribatejo. Martim Veríssimo e Santiago Jorge, em representação da Associação de Judo do Distrito de Santarém e sob orientação do treinador Manuel Francisquinho, conquistaram a medalha de bronze em Nage-no-Kata no European Judo Tour – Madrid EJU Kata Tournament 2026, uma prova que reuniu mais de 200 judocas de 14 países. Falámos com os dois sobre o caminho até ao pódio europeu, a arte exigente de apresentar um Kata a dois, e os planos que já os levam, já este mês, ao Campeonato do Mundo.

O caminho até Madrid

A preparação para Madrid começou logo a seguir ao Campeonato da Europa de Kata, com uma fase de menor intensidade que serviu sobretudo para manter a condição física, antes de um regresso a um ritmo de treino mais exigente à medida que o torneio se aproximava. Nas semanas finais, a dupla treinou todos os dias da semana, seguindo um plano de trabalho estruturado pelo mestre Manuel Francisquinho, com uma componente técnica, visual, mental e física dedicada especificamente ao Nage-no-Kata.

“Já conhecendo os pares rivais, íamos na expectativa de terminar a prova no pódio.” – Martim Veríssimo e Santiago Jorge, sobre as expectativas para Madrid

A viagem até Torrejón de Ardoz foi, nas palavras dos próprios, “longa e desgastante” – mas a chegada a Madrid correu bem, e os primeiros momentos no Pavilhão Jorge Garbajosa foram dedicados à acreditação e ao reconhecimento da área de competição e do tatami, antes do arranque de uma prova que reuniu mais de 80 pares em diferentes modalidades de Kata, com categorias de cadetes, juniores, seniores e uma vertente dedicada a judocas com diversidade funcional, organizada pela Federação Madrilena de Judo com o apoio da União Europeia de Judo (EJU) e da Real Federação Espanhola de Judo.

Nage-no-Kata: a arte da dupla

O QUE É O NAGE-NO-KATA

“O Nage-no-Kata é uma forma tradicional de estudar e demonstrar as técnicas de projeção do Judo. Tori executa as técnicas e Uke recebe-as, seguindo uma sequência definida e valorizando a precisão, o equilíbrio, o controlo e a intenção de cada movimento” – explicam Martim e Santiago. Ao contrário da competição de tatami (shiai), decidida pelo confronto direto entre adversários, o Kata é avaliado por um júri, que pontua a execução técnica, a sincronia e a expressão da dupla ao longo de uma sequência fixa de movimentos.

Para chegar a este nível de exigência, os dois tiveram de construir mais do que técnica: “é preciso construir confiança, companheirismo e sincronia entre os dois”, resumem. E se a sincronização dos movimentos técnicos já não representa grande dificuldade para esta dupla rodada, há um pequeno pormenor que continua a exigir atenção redobrada: fazer as saudações rigorosamente ao mesmo tempo.

A parceria entre Martim e Santiago não nasceu de uma escolha deliberada, mas de uma necessidade prática que se transformou em projeto de longo prazo: tudo começou quando o mestre Manuel Francisquinho decidiu juntar os dois para ajudar um outro atleta do clube a preparar um exame de graduação — e viu ali potencial suficiente para os lançar, a sério, no treino de Nage-no-Kata.

A final e a medalha de bronze

Estar entre os seis melhores pares da categoria, no bloco restrito de finais, trouxe uma mistura de boa sensação e nervosismo. “Subimos ao tatami para melhorar a nossa classificação – objetivo que não foi alcançado –, no entanto, conseguimos manter a pontuação, o que deu para conquistar a medalha de bronze”, contam. Durante a apresentação, a concentração esteve inteiramente focada na técnica; só depois de terminar vieram a análise e a autocrítica: “vimos o que podíamos ter feito melhor, discutimos os erros que aconteceram e aguardámos a classificação”.

O momento da confirmação teve um detalhe insólito: a classificação do último par saiu a oficializar o terceiro lugar da dupla precisamente quando Santiago Jorge já se preparava para entrar em tatami, na final de Katame-no-Kata, ao lado de José Dias – só soube do bronze em Nage-no-Kata já depois de terminar essa segunda apresentação. “Foi um momento de muita alegria”, resumem ambos.

“Representou todo o país e a nossa terra, não só como o nosso trabalho árduo durante todo este período.” – Martim Veríssimo e Santiago Jorge, sobre o significado da medalha, numa prova com 208 judocas de 14 países

Dois Katas, dois parceiros, no mesmo dia

Para Santiago Jorge, Madrid trouxe ainda um desafio adicional: competir em duas provas de Kata diferentes, com parceiros diferentes, no mesmo torneio – Nage-no-Kata ao lado de Martim Veríssimo, e Katame-no-Kata ao lado de José Dias, prova em que a dupla terminou num honroso 6.º lugar. “Disputar duas provas de katas diferentes é um desafio cansativo, que requer treino mental e físico. Treinámos muito a mudança de katas e a respiração”, explica Santiago. No total, foram quatro apresentações completas num único dia – duas de Nage-no-Kata e duas de Katame-no-Kata, entre preliminares e finais –, um desgaste físico considerável que o treino específico ajudou a gerir.

Os percursos individuais

Martim Veríssimo começou a praticar Judo aos 6 anos, motivado por uma aula experimental na escola. O interesse pelo Kata surgiu mais tarde, por influência direta do mestre Manuel Francisquinho. O seu percurso na AMFZ passou primeiro pela competição de shiai em escalões jovens, até por volta dos 10 anos – altura em que a pandemia interrompeu os treinos e o afastou temporariamente das provas. O regresso deu-se já pela via do Nage-no-Kata, com uma primeira participação de relevo no Troféu Ibérico de Cáceres, em 2024, seguida de uma progressão constante até ao nível atual.

Santiago Jorge começou aos 7 anos, atraído pelo interesse geral por uma arte marcial. Tal como para Martim, foi a influência do mestre Manuel Francisquinho – e a componente mais técnica da modalidade – que o aproximou do Kata.

O treinador e a AMFZ

Por trás desta conquista está o trabalho de anos do mestre Manuel Francisquinho, cujo papel os dois atletas destacam como decisivo em três frentes: a preparação técnica, o acompanhamento mental, e a organização logística dos treinos e das deslocações às provas. Sobre o ambiente na Associação de Marinheiros de Ferreira do Zêzere, a dupla descreve-o como “de amizade e companheirismo, com uma grande ajuda do clube e da direção” – e vê na aposta do clube nesta vertente mais técnica do Judo um contributo para o desenvolvimento do Kata em Portugal, uma prática que, na opinião dos dois, está ainda “muito mais desenvolvida” noutros países europeus.

“Um obrigado ao mestre pelo tempo e o conhecimento técnico transmitido, e pelo seu esforço para nos apoiar nas idas às provas. Ao clube e à AJDS, um obrigado por nos financiar estas idas ao estrangeiro e por acreditar em nós.” – Martim Veríssimo e Santiago Jorge, mensagem ao treinador, ao clube e à associação

Kata versus shiai: duas faces do mesmo Judo

Martim e Santiago deixaram de competir em shiai (Judo de competição) ainda durante a pandemia, e hoje dedicam-se por inteiro ao Kata – uma escolha que, longe de os afastar da essência da modalidade, lhes oferece uma disciplina diferente. “No Kata, diferente da competição, procuramos mais uma perfeição técnica”, explicam. A exigência mental também muda de natureza: “no Kata há mais sítios por onde focar numa só técnica, e há um tempo e um ritmo certo para cada movimento; já no shiai é tudo um bocado mais rápido, mais pensado na hora, e nas oportunidades que se conseguem perante o desequilíbrio e a falta de técnica do adversário”.

Aos jovens judocas da região que ainda não experimentaram esta vertente, a recomendação da dupla é direta: o Kata ajuda no aperfeiçoamento da técnica, e pode ser também uma via alternativa e gratificante para quem não encontra os resultados que procura em competição de tatami.

Objetivos e sonhos: Sarajevo, e depois os Jogos Olímpicos

O bronze em Madrid não é ponto de chegada, mas etapa de um percurso mais longo. O próximo objetivo está já fixado no calendário: o Campeonato do Mundo de Kata, que se realiza em Sarajevo, na Bósnia-Herzegovina, a 26 e 27 de setembro, reunindo cerca de 468 judocas de 34 países. “Fazer uma boa representação de Portugal” é, para já, a meta imediata, a par de continuar a aperfeiçoar os aspetos técnicos individuais de cada um.

Mais à frente, o sonho tem um nome maior – os Jogos Olímpicos, ainda que a dupla reconheça, com pés bem assentes na realidade, que o Kata não integra atualmente o programa olímpico. “Trabalhamos para isso se poder realizar; no momento, trabalhamos com o foco no Campeonato do Mundo”, resumem.

O futuro do Kata em Santarém

Questionados sobre o que este resultado pode significar para o Kata na região, Martim e Santiago acreditam que a tendência é de crescimento: mais pares a associar-se a esta prática, um movimento que a própria AMFZ já procura fomentar através de demonstrações e estágios destinados a sensibilizar os judocas do distrito para esta vertente técnica da modalidade.

“Comecem a treinar o mais cedo possível, de forma a valorizar os vossos conhecimentos técnicos, e com eles poderem desfrutar de momentos ímpares noutro tipo de competição.” – Martim Veríssimo e Santiago Jorge, conselho a quem queira começar a praticar Kata

“Subir ao pódio em Madrid foi uma sensação muito agradável, em forma de compensação de todo o trabalho que tínhamos realizado ao longo dos meses.” – Martim Veríssimo e Santiago Jorge

O que fica:
Martim Veríssimo e Santiago Jorge trazem para o Ribatejo uma medalha de bronze europeia em Nage-no-Kata, conquistada em Madrid perante 208 judocas de 14 países – e, com ela, a confirmação de que o trabalho de especialização técnica em Kata desenvolvido há anos na Associação de Marinheiros de Ferreira do Zêzere, sob orientação do mestre Manuel Francisquinho, está a dar frutos ao mais alto nível internacional. Já este mês, a dupla representa Portugal no Campeonato do Mundo de Kata, em Sarajevo – e o IPPONZITO vai continuar a acompanhar de perto este percurso.

Nota de Referência

Entrevista do IPPONZITO a Martim Veríssimo e Santiago Jorge (Associação de Marinheiros de Ferreira do Zêzere / AJDS), Federación Madrileña de Judo y Deportes Asociados (fmjudo.es), European Judo Union, e cobertura do European Kata Tournament Madrid 2026 em El Diario de Madrid e Miracorredor.tv.