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Matilde Alves: a timidez que o Judo transformou em legado

Aos 15 anos, Matilde Lopes Alves, do SCOCS, é uma das onze novas faixas pretas da região aprovadas nos exames associativos de 26 de julho de 2026 (Circular n.º 020/26 da AJDS). Entre todas as respostas que chegaram à redação do IPPONZITO para esta série, a sua foi das mais completas e mais pessoais – […]

Por Ana Rodrigues 5 minutos de leitura
Novos Cintos Negros
Novos Cintos Pretos

Aos 15 anos, Matilde Lopes Alves, do SCOCS, é uma das onze novas faixas pretas da região aprovadas nos exames associativos de 26 de julho de 2026 (Circular n.º 020/26 da AJDS). Entre todas as respostas que chegaram à redação do IPPONZITO para esta série, a sua foi das mais completas e mais pessoais – por isso, mais do que uma pequena ficha, decidimos dar-lhe o espaço de um verdadeiro retrato.

FICHA DE IDENTIDADE

Nome completo: Matilde Lopes Alves

Clube: SCOCS

Categoria / escalão: +70 Cadetes

Grau anterior: 1º Kyu

Prática de Judo: 8 anos

Ocupação: Estudante

O Cinto Preto

A reação de Matilde ao saber que tinha sido aprovada veio em duas fases bem distintas – primeiro o corpo, depois o coração.

“Primeiramente, alívio por já ter passado, depois uma alegria completamente inexplicável. Representa mais uma etapa alcançada neste longo processo.” – Matilde Alves

A preparação exigiu muito mais do que treino físico: “foi difícil, muitos treinos técnicos e teóricos, horas a mais no tapete e ainda mais estudo em casa”. E, curiosamente, o momento de maior pressão não veio do seu próprio combate, mas de observar os colegas – um sinal claro de como, para Matilde, o exame nunca foi uma prova individual, mas coletiva.

“Acho que o maior stress foi quando estávamos a ver os outros a fazer e víamos as dificuldades deles – sentíamos muita pressão para não errar.” – Matilde Alves

O Percurso: da escola ao clube

Como tantos judocas da sua geração, Matilde começou a praticar Judo através das Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC) na escola – uma porta de entrada discreta que, oito anos depois, a levou a um dos mais importantes patamares da modalidade. Foi a partir das AEC que transitou para o clube onde treina atualmente, o SCOCS.

O que a fez continuar, ano após ano, foi sobretudo o ambiente humano à volta do tatami: “temos um ambiente divertido, onde todos somos amigos de todos e acabamos sempre por conviver mesmo fora do tapete”. E, nos dias em que a vontade faltava, foram outros que a levaram a treinar.

“A minha família, o meu treinador e os meus parceiros que me meteram a treinar mesmo quando não apetecia.” – Matilde Alves, sobre as pessoas mais importantes até ao cinto preto

Uma transformação pessoal

Se há uma resposta que resume o verdadeiro impacto do Judo na vida de Matilde, é esta – e talvez seja também a mais reveladora de toda a entrevista.

“O Judo ensinou-me a socializar. Eu sou muito tímida e, graças a ele, já me solto muito mais do que antes.” – Matilde Alves

É um testemunho que vai muito além dos resultados desportivos: o tatami como espaço de crescimento pessoal, onde a timidez dá lugar à confiança. Não é por acaso que, questionada sobre os valores mais importantes do Judo na sua vida, Matilde aponta precisamente o autocontrolo e a amizade – os dois pilares que, na sua própria história, se cruzam.

Essa entrega ao Judo reflete-se também nas prioridades do dia a dia: “para mim ele está à frente de todos os compromissos possíveis”, ainda que, para conciliar com a escola, tenha desenvolvido uma disciplina própria – “tento aproveitar todo o tempo livre que tenho e passar menos tempo nas redes sociais”.

Técnica, referências e rituais

No tatami, a sua técnica de eleição é o Ippon-Seoi-Nage: “foi uma técnica que, quando aprendi, nunca mais deixei de fazer”. As suas referências no Judo mundial dizem muito sobre as suas ambições – Uta Abe, uma das judocas mais dominantes da atualidade, e Teddy Riner, o maior nome de sempre da modalidade.

Fora do tatami, Matilde toca bateria e anda nos escuteiros – duas atividades que, tal como o Judo, exigem disciplina, trabalho em equipa e regularidade. Antes de uma competição, segue um ritual mental muito próprio, quase uma técnica de gestão de ansiedade construída por si mesma.

“Na noite anterior, antes de me ir deitar, costumo imaginar como pode correr a competição, imaginando sempre o pior e o menor cenário, o que me deixa com menos pressão.” – Matilde Alves

E se o lema que carrega para a vida diz tudo sobre a sua determinação – “não interessa o que seja, só vou desistir até conseguir alcançar o objetivo” –, o facto curioso que escolheu partilhar diz talvez ainda mais sobre o seu carácter: “admiro cada um dos meus colegas, não importa as medalhas que tenham ou que não tenham”.

O sonho: o Mundial e um legado

Com o cinto preto já conquistado, Matilde não hesitou em apontar alto quando lhe perguntámos pelo próximo objetivo.

“Quero ir ao mundial e fazer uma boa prestação, para começar a criar o meu legado.” – Matilde Alves

É uma frase que resume bem o percurso desta jovem judoca do SCOCS: da timidez de uma criança nas AEC da escola à ambição declarada de uma atleta de 15 anos que já pensa em deixar marca no Judo mundial. Se o cinto preto foi “mais uma etapa alcançada”, como ela própria diz, fica claro que, para Matilde Alves, está longe de ser a última.