Os Irmãos Abe: Onze títulos Mundiais, três Ouros Olímpicos e a família de Kobe que voltou a fazer Baku vibrar oito anos depois
A 5 de outubro de 2026, em Baku, Uta Abe conquistou o sexto título mundial em -52 kg e Hifumi Abe o quinto em -66 kg, no mesmo local e no mesmo dia em que, em 2018, tinham sido campeões do mundo pela primeira vez juntos. Hoje, os dois irmãos de Kobe somam onze coroas […]
A 5 de outubro de 2026, em Baku, Uta Abe conquistou o sexto título mundial em -52 kg e Hifumi Abe o quinto em -66 kg, no mesmo local e no mesmo dia em que, em 2018, tinham sido campeões do mundo pela primeira vez juntos. Hoje, os dois irmãos de Kobe somam onze coroas mundiais e três ouros olímpicos individuais. Esta é a história de uma das maiores famílias da história do Judo.
Há duplas que fazem história por um dia. Os Abe fazem-na há quase uma década. Uta e Hifumi, nascidos em Kobe, no Japão, sagraram-se campeões do mundo no mesmo campeonato em 2018, 2022, 2023 e agora em 2026, e foram os primeiros irmãos da história a ganhar medalhas de ouro individuais de Judo no mesmo dia olímpico, em Tóquio. Em Baku 2026, oito anos depois de ali terem festejado juntos o primeiro título, voltaram a fazê-lo.
É uma história de talento, de trabalho e de família. Mas também de quedas e de regressos, porque nenhum dos dois ganhou sempre. Hifumi perdeu o título em 2025, em Budapeste, onde ficou com o bronze. Uta foi eliminada, de forma inesperada, nos Jogos de Paris 2024. Os dois voltaram, e a forma como voltaram diz tanto sobre eles como os títulos.
OS IRMÃOS ABE EM SÍNTESE (BAKU 2026)
• Uta Abe (Japão, -52 kg, nascida em 14 de julho de 2000, em Kobe): 6 títulos mundiais (2018, 2019, 2022, 2023, 2025 e 2026) e ouro olímpico em Tóquio 2020.
• Hifumi Abe (Japão, -66 kg, nascido em Kobe): 5 títulos mundiais (2017, 2018, 2022, 2023 e 2026) e ouro olímpico em Tóquio 2020 e Paris 2024.
• Em conjunto: 11 títulos mundiais individuais e 3 ouros olímpicos individuais.
• Mundiais em que os dois foram campeões: Baku 2018, Tashkent 2022, Doha 2023 e Baku 2026.
• Baku 2026: Uta venceu a final a Ariane Toro Soler (ESP) e Hifumi venceu David Garcia Torne (ESP) com ippon, aos 68 segundos.
Baku 2026: a final do regresso
O Campeonato do Mundo de Judo de 2026, em Baku, teve nos seus primeiros dias o sabor de um regresso a casa para os Abe. Foi ali, em 2018, que Uta, então com 18 anos, ganhou o primeiro título mundial sénior em -52 kg, e que Hifumi somou ao título de Budapeste 2017 um segundo em -66 kg. Oito anos depois, os dois voltaram à mesma cidade e, no mesmo dia, ao topo do pódio.
O caminho dos dois, porém, não podia ter sido mais diferente. Uta teve de sobreviver. Nas meias-finais, a alemã Mascha Ballhaus levou a campeã japonesa ao limite: estava à frente por waza-ari, e a poucos segundos do fim a japonesa ainda perdia. A quatro segundos do final, a alemã foi penalizada no momento decisivo e Uta escapou. Foi, segundo a imprensa especializada, um final extraordinário para um combate em que a campeã em título teve de correr atrás do resultado durante grande parte da fase final.
Na final, a adversária era a espanhola Ariane Toro Soler, cabeça de série n.º 5, que disputava a sua primeira final de um Mundial sénior. O combate foi tático e disputado, e foi para golden score, onde a espanhola acumulou o terceiro shido que deu o título à japonesa. «Houve muitos combates difíceis, mas lutei com todas as forças e consegui chegar até ao fim», disse Uta Abe depois de ganhar. Com este resultado, a japonesa continua sem nunca ter perdido num Campeonato do Mundo.
Hifumi, pelo contrário, foi direto ao essencial. Nas meias-finais, eliminou o compatriota Takeshi Takeoka, campeão do mundo em título e n.º 1 do ranking, precisando apenas de dois ataques para decidir o combate. Na final, contra o espanhol David Garcia Torne, que disputava a sua primeira final de um Mundial, bastaram 68 segundos: um grande ippon, a eletrizar o público, e cinco dedos no ar. Cinco títulos mundiais.
“Com todo o apoio e todos os adeptos aqui no Azerbaijão, tenho muita força, e isso permite-me fazer o meu melhor Judo.” — Hifumi Abe, após a final de Baku (IJF)
Depois dos combates, os dois irmãos quiseram festejar com a família. Na fotografia que a organização divulgou estava também o irmão mais velho, Yuichiro Abe, parte da história de onde Uta e Hifumi saíram. Os três cresceram juntos em Kobe, numa família em que o Judo se tornou parte importante da vida.
Kobe: uma família de judo
Antes dos títulos, houve uma casa. Os três irmãos Abe cresceram em Kobe, na província de Hyogo, e o Judo entrou cedo na vida da família. Yuichiro, o mais velho, esteve no Judo antes de Uta e Hifumi se tornarem campeões olímpicos e mundiais, e o seu nome aparece sempre que a família se junta para uma fotografia de celebração.
O IPPONZITO não tem acesso a entrevistas com a família Abe, e por isso não vai especular sobre a infância, a rotina de treino ou os métodos de quem os formou. Os factos conhecidos chegam: Uta e Hifumi cresceram juntos num ambiente em que o Judo fez parte da vida de três irmãos, e dois deles tornaram-se, em simultâneo, dos melhores do mundo nas suas categorias. Em qualquer clube do Ribatejo, qualquer treinador sabe o que isto significa: irmãos que treinam juntos, que se desafiam e se apoiam, e que se habituam desde pequenos a conviver com a vitória e com a derrota.
Hifumi Abe: o mestre do -66 kg
Hifumi Abe nasceu a 9 de agosto de 1997, em Kobe. Entrou na elite mundial ainda muito jovem: o seu primeiro título mundial sénior chegou em 2017, em Budapeste, e o segundo em 2018, em Baku, na mesma competição em que a irmã ganhou o seu primeiro título. Seguiram-se Tashkent 2022 e Doha 2023, que lhe deram o terceiro e o quarto, e uma nova coroa em Baku 2026, a quinta.
Entre uns e outros, Hifumi foi bicampeão olímpico: ganhou o ouro de -66 kg em Tóquio, na final contra o georgiano Vazha Margvelashvili, e voltou a ganhá-lo em Paris 2024, ao vencer na final o brasileiro Willian Lima. É um feito raro em qualquer desporto: defender o título olímpico, na categoria mais competitiva do Judo, contra uma geração inteira de rivais que sabia o que estava em jogo.
Mas a história de Hifumi não é de domínio linear. Em 2025, em Budapeste, ficou pelo bronze e o título mundial de -66 kg passou para Takeshi Takeoka, o compatriota que lhe sucedeu no topo da categoria. Em 2026, Hifumi voltou a ganhar, e fê-lo precisamente contra Takeoka, nas meias-finais, antes de vencer a final com um ippon aos 68 segundos.
Antes de Baku, Hifumi tinha somado três vitórias consecutivas no World Tour, a que se junta a de Qingdao, em junho de 2026, que a imprensa especializada contou como a décima quinta vitória do atleta no circuito. Depois do Mundial, a classificação mundial voltou a colocá-lo no primeiro lugar de -66 kg.
Foi, nas palavras da imprensa especializada, o fim do reinado de Takeoka ao fim de um único ano, às mãos do homem que o antecedera no topo da categoria.
Uta Abe: a campeã que não sabe perder
Uta Abe nasceu a 14 de julho de 2000, em Kobe, e representa a Nippon Sport Science University. A sua história começa cedo: em dezembro de 2016, com 16 anos, ficou com a prata no Grand Slam de Tóquio; em fevereiro de 2017, ganhou o Grand Prix de Düsseldorf e tornou-se a mais jovem vencedora de uma prova sénior da IJF, um recorde que entrou na história da modalidade. No mesmo ano, foi campeã do mundo de juniores, em Zagreb.
O primeiro título mundial sénior chegou em 2018, em Baku, com apenas 18 anos. Foi a terceira judoca mais jovem de sempre a conquistar um título mundial sénior. No caminho, venceu a francesa Amandine Buchard em menos de 40 segundos, por armlock, nas meias-finais, e na final derrotou a compatriota Ai Shishime, antiga campeã do mundo, com um uchi-mata em golden score. Seguiram-se Tóquio 2019, Tashkent 2022, Doha 2023, Budapeste 2025 e agora Baku 2026: seis títulos.
Em 2021, Uta foi campeã olímpica em Tóquio, na categoria de -52 kg, depois de uma final decidida em golden score contra Amandine Buchard. Ganhou também duas pratas olímpicas com a equipa mista do Japão, em Tóquio 2020 e Paris 2024.
No circuito do Grand Slam, o palmarés é impressionante. Segundo a tabela de resultados da Wikipedia, Uta soma 12 títulos de Grand Slam, de Tóquio 2017 a Ulaanbaatar 2026, passando por Paris e Osaka 2018, Düsseldorf 2020, Tashkent e Kazan 2021, Tóquio 2022 e 2023, Antália 2024 e Baku e Tóquio 2025. No Grand Prix, ganhou Düsseldorf 2017, Hohhot 2018 e 2019 e Zagreb 2022.
Depois de Baku, a classificação mundial de 12 de outubro de 2026 mostra Uta Abe na liderança de -52 kg, com 5 500 pontos, depois de ter subido do sétimo lugar. A espanhola Ariane Toro Soler, finalista em Baku, ficou em segundo, com 4 980, e Distria Krasniqi, do Kosovo, que liderava, passou para o quinto lugar.
Tóquio 2021: o dia em que dois irmãos ganharam ouro
Foi a 25 de julho de 2021, no Nippon Budokan, em Tóquio. Uta Abe, de 21 anos, venceu a final de -52 kg contra a francesa Amandine Buchard, em golden score. Pouco depois, Hifumi Abe venceu a final de -66 kg contra o georgiano Vazha Margvelashvili. Dois irmãos, duas medalhas de ouro, o mesmo dia, os mesmos Jogos. Foi a primeira vez, na história do Judo olímpico, que dois irmãos ganharam medalhas de ouro individuais no mesmo dia, um feito que o Guinness World Records reconheceu.
Na altura, os dois já eram bicampeões do mundo. Eram a prova de que a ligação entre irmãos pode ser uma vantagem competitiva, e não apenas um bonito acaso. Para os judocas jovens que viram esse dia, o impacto foi o de ver que a excelência pode ser familiar: que dois irmãos podem ser, ao mesmo tempo, os melhores do mundo.
Paris 2024: duas histórias, duas lições
Em Paris, em julho de 2024, os Abe tentaram repetir o feito de Tóquio. O dia correu de forma diferente para cada um. Uta, que não perdia uma competição desde 2019, foi eliminada na segunda ronda pela uzbeque Diyora Keldiyorova. Foi uma derrota inesperada, e a reação da judoca, em lágrimas no tatâmi, perante o público japonês, tornou-se um dos momentos mais comentados daqueles Jogos, com o público a aplaudi-la.
Hifumi, pelo contrário, ganhou o ouro de -66 kg e tornou-se bicampeão olímpico. Foi um dia de sentimentos opostos para a mesma família: a alegria de um segundo título olímpico para ele, e a derrota inesperada da irmã. Os dois voltaram a competir, e Uta voltou a ganhar tudo o que havia para ganhar.
É nessa capacidade de regressar que a história dos Abe ganha uma dimensão que ultrapassa os números. O Judo não é um desporto que perdoe: um único erro, um único shido, e uma carreira muda de rumo. Uta perdeu em Paris e voltou a ser campeã do mundo em 2025 e em 2026. Hifumi perdeu o título em 2025 e voltou a recuperá-lo em 2026. Em ambos os casos, o regresso foi mais difícil do que a primeira vitória.
Os números lado a lado
UTA ABE
• Categoria: -52 kg. Clube: Nippon Sport Science University.
• Campeã do mundo: 2018, 2019, 2022, 2023, 2025 e 2026 (6 títulos).
• Ouro olímpico: Tóquio 2020. Pratas olímpicas por equipas mistas: Tóquio 2020 e Paris 2024.
• Grand Slams ganhos: 12, segundo a Wikipedia (de Tóquio 2017 a Ulaanbaatar 2026).
• Mais jovem vencedora de uma prova sénior da IJF (Düsseldorf, fevereiro de 2017, aos 16 anos).
• N.º 1 do ranking mundial de -52 kg (12 de outubro de 2026), com 5 500 pontos.
HIFUMI ABE
• Categoria: -66 kg. Nascido em 9 de agosto de 1997, em Kobe.
• Campeão do mundo: 2017, 2018, 2022, 2023 e 2026 (5 títulos); bronze em Budapeste 2025.
• Ouro olímpico: Tóquio 2020 e Paris 2024 (bicampeão olímpico).
• Décima quinta vitória no World Tour em Qingdao, em junho de 2026, segundo a JudoInside.
• Voltou ao primeiro lugar do ranking mundial de -66 kg depois de Baku.
O Japão em Baku: um país a ganhar em simultâneo
Os Abe não ganharam sozinhos. Segundo o balanço da JudoInside, o Japão ganhou quatro dos sete títulos femininos em Baku: Wakana Koga em -48 kg, Uta Abe em -52 kg, Akari Omori em -57 kg e Haruka Kaju em -63 kg. Koga, que tinha já uma prata e um bronze mundiais, ganhou a sua primeira medalha de ouro; Omori venceu na final a georgiana Eteri Liparteliani, que continua a ser a n.º 1 do ranking de -57 kg; e Kaju defendeu o título de -63 kg e lidera a categoria com 8 100 pontos, o valor mais alto de todas as 14 listas mundiais.
Os restantes títulos femininos foram para Ai Tsunoda Roustant (Espanha, -70 kg), o primeiro título mundial feminino espanhol desde Isabel Fernández em 1997, Yelyzaveta Lytvynenko (Emirados Árabes Unidos, -78 kg) e a jovem coreana Lee Hyeonji, de 19 anos, que ganhou o título de +78 kg em menos de cinco minutos de combate no total. O Judo feminino mundial está, portanto, mais aberto do que nunca, e é por isso que cada título de Uta Abe vale mais do que o anterior.
Nos homens, Tato Grigalashvili (Geórgia) foi campeão de -81 kg a 7 de outubro. Em -66 kg, o pódio de Hifumi teve ainda o mongol Yondonperenlei e o japonês Takeshi Takeoka a disputarem o bronze, e o moldavo Denis Vieru, medalhado olímpico, chegou às meias-finais depois de eliminar o tajique Nurali Emomali, finalista de 2025.
A linha do tempo dos irmãos Abe
DE KOBE A BAKU, EM DATAS
• 2016: Uta, com 16 anos, ganha a prata no Grand Slam de Tóquio, em dezembro.
• 2017: Uta ganha o Grand Prix de Düsseldorf (fevereiro), torna-se a mais jovem vencedora de uma prova sénior da IJF e é campeã do mundo de juniores em Zagreb. Hifumi é campeão do mundo em Budapeste.
• 2018: primeiro título mundial de Uta, aos 18 anos, em Baku; segundo título de Hifumi, na mesma cidade.
• 2019: Uta é campeã do mundo em Tóquio.
• 2021 (Jogos de Tóquio 2020): ouro de Uta em -52 kg e de Hifumi em -66 kg, no mesmo dia, 25 de julho.
• 2022 e 2023: Uta e Hifumi são campeões do mundo em Tashkent e em Doha.
• 2024 (Paris): Hifumi revalida o ouro olímpico; Uta é eliminada na segunda ronda.
• 2025 (Budapeste): Uta é campeã do mundo pela quinta vez; Hifumi fica com o bronze.
• 2026 (Baku): Uta ganha o sexto título e Hifumi o quinto, a 5 de outubro.
Perguntas rápidas sobre os Abe
Quantos títulos mundiais têm, no total?
Onze: seis de Uta (2018, 2019, 2022, 2023, 2025 e 2026) e cinco de Hifumi (2017, 2018, 2022, 2023 e 2026).
Em que categorias competem?
Uta compete em -52 kg e Hifumi em -66 kg. Competem, portanto, em categorias diferentes, e nunca se enfrentam num tatâmi.
Quem é Yuichiro Abe?
O irmão mais velho de Uta e Hifumi. Esteve em Baku 2026 e aparece na fotografia de família divulgada depois dos títulos. A informação pública sobre o seu percurso no Judo é escassa, e o IPPONZITO limita-se ao que as fontes confirmam.
Quando é o próximo Campeonato do Mundo?
Em 2027, em Astana, segundo a JudoInside.
Os Abe vão a Los Angeles 2028?
Não há, em fontes verificadas, nenhuma declaração dos atletas nesse sentido. O ciclo de qualificação olímpica já arrancou, e a classificação mundial dá-lhes, neste momento, o primeiro lugar em cada categoria.
Duas maneiras de ganhar
Os dois combates decisivos do dia 5 de outubro mostram, melhor do que qualquer estatística, duas maneiras diferentes de ser campeão. Uta ganhou pela resistência: esteve a perder nas meias-finais, a quatro segundos do fim, aguentou uma final de golden score contra uma adversária em grande forma e levou o título pela via mais difícil, a do terceiro shido da rival. Hifumi ganhou pela autoridade: eliminou o campeão em título em dois ataques e ganhou a final em 68 segundos.
Há uma lição de treino em cada um destes combates. Quem treina com a ideia de que ganhar é sempre bonito esquece que a maior parte dos títulos se decide em combates feios, tensos e equilibrados, em que a diferença está em não desistir, em ler o relógio e em saber gerir a pressão. Quem treina apenas para sobreviver esquece que há dias em que a técnica, bem trabalhada, resolve tudo num instante. Os Abe têm as duas coisas, e é essa combinação que ajuda a explicar a sua regularidade.
É também por isso que o Judo é um desporto tão difícil de prever. Num mesmo dia, na mesma sala, dois irmãos com o mesmo apelido podem ter um dia dramático e um dia perfeito. O que se repete é a consistência do resultado final: ouro.
Baku, a cidade dos Abe
Baku tem um lugar especial na história da família. Foi ali que, em 2018, Uta se tornou campeã do mundo pela primeira vez e Hifumi ganhou o seu segundo título mundial. Foi também ali que, em 2025, Uta venceu o Grand Slam de Baku, um dos 12 Grand Slams que soma no palmarés. E foi ali que, em 2026, os dois voltaram a ganhar no mesmo dia.
Hifumi referiu, depois da final, o apoio do público do Azerbaijão como uma força que lhe permitiu fazer o seu melhor Judo. Não é um comentário de circunstância: no Judo de elite, a energia de um pavilhão faz diferença. Para um atleta, ganhar numa cidade onde já ganhou antes tem um significado que as estatísticas não medem.
Budapeste 2025: o ano em que a sequência se interrompeu
A história dos Abe em Mundiais teve, até Baku, uma sequência quase perfeita: dobradinhas em 2018, 2022 e 2023. Budapeste 2025 interrompeu-a. Uta voltou a ser campeã, pela quinta vez, mas Hifumi teve de se contentar com o bronze. Foi, para os dois, um lembrete: nem os melhores do mundo ganham sempre.
Em Baku, a dobradinha voltou. Foi a quarta vez que os dois irmãos regressaram de um Campeonato do Mundo com duas medalhas de ouro na família, em oito anos.
Para treinadores e jovens judocas: o que observar
Os combates de Uta e Hifumi estão disponíveis em vídeo e valem como material de estudo para qualquer clube. Sem fazer desta uma análise técnica que a redação não pode garantir, há três coisas que qualquer treinador pode observar: a gestão do combate quando se está a perder, como fez Uta contra Ballhaus; a eficácia de um ataque bem escolhido, como fez Hifumi na final; e a forma como ambos tratam a derrota, sem dramatizar nem desculpar.
Para os mais novos, a mensagem é mais simples. Os dois campeões que hoje enchem as páginas do Judo mundial começaram, como qualquer judoca, por aprender a cair e a levantar-se. A diferença não está em ter nascido campeão, está em ter voltado a treinar depois de cada derrota.
O que os Abe nos ensinam
Qualquer clube de Judo do Ribatejo sabe que os títulos mundiais são para poucos. Mas a história dos irmãos Abe tem lições que valem para qualquer tatâmi. A primeira é a da família: os três irmãos de Kobe cresceram juntos num ambiente em que o Judo fazia parte do dia a dia, e dois deles chegaram ao topo. Quem tem irmãos no Judo, ou pais que acompanham, sabe o valor do apoio de casa.
A segunda é a da resiliência. Uta perdeu em Paris e voltou. Hifumi perdeu em Budapeste e voltou. Nenhum dos dois deixou a derrota definir a sua história. Para os jovens atletas dos clubes da AJDS, que perdem combates todas as semanas, este é talvez o ensinamento mais útil: a derrota não é o fim, é uma parte do caminho.
A terceira é a da humildade. Uta Abe, seis vezes campeã do mundo, disse depois de Baku que houve «muitos combates difíceis» e que lutou «com todas as forças». Hifumi agradeceu o apoio do público do Azerbaijão. Não há arrogância nos campeões que ganham muito, e talvez seja por isso que continuam a ganhar.
Esta foi, de resto, a lição de Baku 2026 para o Judo português. Patrícia Sampaio, da Sociedade Filarmónica Gualdim Pais (SFGP), de Tomar, chegou ao quinto lugar do mesmo campeonato do mundo. Cada atleta, cada clube, cada associação tem a sua escala, mas o caminho é o mesmo: trabalho, regularidade, capacidade de voltar depois de cair.
E agora? O caminho para Los Angeles 2028
A pergunta que fica é quanto tempo mais os Abe vão continuar a ganhar. Uta tem 26 anos e Hifumi tem 29, uma idade em que, na categoria mais competitiva do Judo, a janela de domínio pode ser longa. O IPPONZITO não encontrou, em fontes verificadas, nenhuma declaração dos dois sobre os Jogos de Los Angeles 2028, pelo que não vai avançar com planos que os atletas não anunciaram.
O que se sabe é o calendário: o próximo Campeonato do Mundo realiza-se em Astana, em 2027, e o ciclo de qualificação olímpica para LA 2028 já arrancou. Com o ranking mundial novamente a seu favor, Uta e Hifumi chegam a esse ciclo como os números um das suas categorias. Quem os quiser vencer vai ter de ir buscá-los.

O que fica:
Onze títulos mundiais, três ouros olímpicos individuais, um dia olímpico partilhado e quatro Campeonatos do Mundo ganhos em simultâneo, o último em Baku, oito anos depois do primeiro. Uta e Hifumi Abe mostram que a grandeza no Judo se mede tanto pelos títulos como pela capacidade de regressar depois de perder, e que a família, quando se apoia, pode ser a maior força de um tatami.
Nota de Referência
Artigo elaborado pela redação do IPPONZITO a partir de fontes públicas: relatos do Mundial de Baku 2026 (JudoInside, 5 e 13 de outubro de 2026; Euronews/Yahoo Sports, 5 de outubro de 2026; Jiji Press/Nippon.com), IJF (ijf.org), Wikipedia (Uta Abe), Guinness World Records e imprensa sobre Tóquio 2020 e Paris 2024. A Wikipedia ainda lista cinco títulos mundiais para Uta Abe e não inclui Baku 2026; os dados de 2026 provêm da JudoInside e da Euronews. As fontes divergem quanto ao dia da competição (Jiji e Euronews indicam segunda-feira, 5 de outubro; as páginas da IJF referem 4 de outubro para o evento). O IPPONZITO não tem declarações dos atletas além das citadas da IJF, e a tradução das citações é livre. O número de títulos de Grand Slam de Hifumi Abe não foi confirmado e por isso não consta do artigo.
Autor
Ana Rodrigues
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