Atividades

“Nunca desistir”: A história completa de Pedro Costa, o novo cinto preto do CJTN que já sonha com os títulos que faltam

A 26 de julho de 2026, onze atletas da região subiram ao tatami dos exames associativos de graduação da AJDS para serem avaliados a 1º Dan, ao abrigo da Circular nº 020/26. Pedro Costa, do Clube de Judo de Torres Novas (CJTN), foi um deles. Mas reduzir a sua história a essa data seria injusto: […]

Por Tiago Martins 9 minutos de leitura
Pedro Costa, do CJTN, no exame de graduação de 1º Dan
Pedro Costa, do Clube de Judo de Torres Novas, conquistou o 1º Dan nos exames de graduação de 26 de julho.

A 26 de julho de 2026, onze atletas da região subiram ao tatami dos exames associativos de graduação da AJDS para serem avaliados a 1º Dan, ao abrigo da Circular nº 020/26. Pedro Costa, do Clube de Judo de Torres Novas (CJTN), foi um deles. Mas reduzir a sua história a essa data seria injusto: o que aconteceu naquele exame é apenas o capítulo mais recente de um percurso que começou muitos anos antes, pela mão de outra pessoa, e que Pedro já garante estar longe de terminar.

É tentador tratar estas graduações coletivas como uma simples formalidade administrativa – mais uma circular, mais uma lista de nomes, mais um lote de cintos pretos entregues no mesmo fim de semana de verão. Mas por trás de cada um desses onze nomes está uma história própria, feita de anos, de pessoas e de decisões que raramente se resumem a uma única frase. A de Pedro Costa começa, precisamente, com uma decisão que nem sequer foi dele.

Uma infância decidida por outra pessoa

Pedro Costa não escolheu o Judo – pelo menos não da primeira vez. Foi o pai quem o levou ao tatami pela primeira vez, por volta dos 4 anos de idade, numa dessas decisões que os pais tomam sem saber ainda o alcance que vão ter. O que aconteceu a seguir, porém, já foi decisão do próprio: ao longo dos anos, o interesse deixou de ser imposto e passou a ser genuíno. “Com o tempo fui gostando mais e mais da modalidade e cheguei onde cheguei hoje”, resume, numa frase que esconde, atrás da sua simplicidade, mais de uma década de treinos, madrugadas cedo e sacrifícios que raramente aparecem fotografados ao lado das medalhas.

A pergunta óbvia, para quem começa uma modalidade tão exigente ainda criança, é o que faz alguém continuar quando a escolha inicial nem sequer foi sua. A resposta de Pedro é tão simples quanto reveladora: “gostar dos treinos, dos desafios e do ambiente do clube, e ainda não ter alcançado os meus objetivos.” É esta última parte – a consciência de que os objetivos ainda não foram cumpridos – que talvez explique melhor do que qualquer outra a longevidade de uma carreira no Judo. Enquanto houver uma meta em aberto, há sempre uma razão para voltar ao tatami no dia seguinte.

Os meses antes do exame

Chegar a um exame de graduação como o de 1º Dan não é um acontecimento isolado – é o culminar de meses de preparação sistemática, muitas vezes invisível para quem só vê o resultado final. Pedro descreve esse período como um trabalho a várias frentes: “treinei bastante as técnicas, o combate e todos os aspetos necessários para o exame. Também procurei corrigir os meus erros e ganhar mais confiança.” Há, nesta resposta, um pormenor que vale a pena sublinhar: a confiança não apareceu por acaso, foi também ela treinada, tal como uma técnica ou um movimento de queda.

Essa preparação foi posta à prova no próprio dia do exame, ao lado de mais dez colegas de outros clubes da região – SCOCS e SFGP incluídos, segundo a Circular nº 020/26 da AJDS. O relato de Pedro sobre esse dia é honesto quanto à tensão inicial, mas também revelador da forma como a superou: “senti algum nervosismo no início, principalmente por saber a importância daquele momento. Depois de começar, fui ganhando confiança e consegui concentrar-me melhor.” É uma curva emocional que qualquer atleta de competição reconhece: o nervosismo que antecede o primeiro movimento, e a calma que só chega depois de já se estar em ação.

“Nunca desisti”: o peso da recompensa

Quando o resultado foi finalmente confirmado, a reação de Pedro não deixou margem para dúvidas sobre o que aquele momento significava: “senti uma enorme felicidade e orgulho, porque foi o resultado de muitos anos de trabalho, dedicação e esforço. Foi também uma sensação de recompensa por nunca ter desistido.” É uma frase que, sozinha, já poderia servir de resumo a toda esta história – mas Pedro faz questão de ir mais longe, recusando a ideia de que o cinto preto representa um ponto de chegada.

Para muitos praticantes ocasionais, o cinto preto é visto, de fora, como o fim de um percurso – a prova de que “já se sabe Judo”. Pedro rejeita essa leitura com uma clareza que denuncia já alguma maturidade desportiva: “representa a concretização de um objetivo muito importante. Para mim, o cinto preto não significa que terminei a aprendizagem, mas sim que começa uma nova etapa no Judo.” É, no fundo, a filosofia que sustenta o próprio Judo enquanto “caminho” (do, em japonês) e não apenas enquanto conjunto de técnicas: aprende-se sempre, independentemente do grau que se traz à cintura.

As pessoas que sustentaram o caminho

Nenhuma conquista individual no Judo é, na prática, inteiramente individual. Por trás de cada exame de graduação está uma rede de pessoas que treinam, corrigem, acompanham e apoiam – muitas vezes sem aparecerem em qualquer fotografia do dia da entrega do cinto. Pedro reconhece isso sem hesitar: “os meus treinadores tiveram um papel muito importante, porque me ensinaram e ajudaram a melhorar. A minha família e os meus colegas de treino também foram fundamentais pelo apoio e motivação.” É um agradecimento que resume, em duas frases, toda a estrutura humana que torna possível o percurso de um jovem atleta: o clube, a família, e o grupo de treino que se transforma, com o tempo, numa espécie de segunda casa.

Mais do que uma técnica: um carácter

Perguntado sobre o que o Judo lhe trouxe para além da componente técnica, Pedro oferece uma resposta que poderia perfeitamente figurar num manual de valores desportivos, não fosse ela genuinamente sua: “disciplina, respeito, responsabilidade, confiança e capacidade de lidar melhor com as dificuldades. Também me ensinou a não desistir quando as coisas não correm como espero.” É uma lista longa, mas há um valor que se destaca claramente de entre os restantes quando lhe pedem para escolher apenas um: o respeito. “Aprendi a respeitar os adversários, os treinadores e todas as pessoas, tanto dentro como fora do tatami”, explica, deixando claro que a reverência que se ensina no início e no fim de cada combate não fica confinada ao tapete.

Há, nesta resposta, um retrato quase didático daquilo que distingue o Judo de outros desportos de combate: a ideia, presente desde a sua fundação por Jigoro Kano, de que a técnica é apenas o veículo, e o verdadeiro objetivo é a formação do carácter. Pedro, sem provavelmente ter pensado nisso em termos tão formais, descreve exatamente esse processo quando fala de disciplina, responsabilidade e capacidade de lidar com as dificuldades – não como conceitos abstratos, mas como ferramentas que já usa no dia a dia.

Esse mesmo sentido de disciplina aplica-se também à forma como concilia o Judo com a escola e outros compromissos do quotidiano – um equilíbrio que qualquer jovem atleta de competição conhece bem: “procuro organizar bem o meu tempo e estabelecer prioridades. Nem sempre é fácil conciliar tudo, mas com organização consigo manter os treinos e cumprir as minhas outras responsabilidades.”

Sode-tsurikomi-goshi e o espelho chamado Hifumi Abe

No plano puramente técnico, Pedro não hesita quando lhe perguntam pela sua projeção preferida: “a minha técnica preferida é o sode-tsurikomi-goshi, porque gosto da sua dinâmica e da sensação de conseguir executar a técnica no momento certo em competições.” É uma resposta que revela também uma preferência por timing e precisão sobre força bruta – traço que, aliás, se repete quando fala do atleta que mais admira.

Esse atleta é Hifumi Abe, judoca japonês bicampeão olímpico, cuja carreira Pedro segue com um interesse que vai além dos resultados desportivos: “admiro muito o atleta Hifumi Abe, pois ele demonstra extrema resiliência e humildade mesmo sendo 2º campeão olímpico, e tenho um jeito bastante parecido ao dele.” Não é um pormenor menor: em Abe, Pedro não escolhe admirar apenas os títulos, mas sobretudo a forma como os carrega – com humildade, a despeito de tudo o que já conquistou.

A vida fora do tatami

Nem só de Judo se faz a vida de Pedro Costa. Fora dos treinos, divide o tempo entre amigos, família, música e cinema – as rotinas simples de um adolescente que também sabe desligar quando é preciso. Antes de um exame ou de uma competição, tem um pequeno ritual próprio: manter a calma, ouvir música, concentrar-se no que tem a fazer, garantir um bom aquecimento e entrar no tatami já com confiança instalada. Não é por acaso que carrega consigo um lema que resume tudo isto numa única frase: “nunca desistir, mesmo quando as coisas ficam difíceis” – palavras que, segundo o próprio, representam bem aquilo que o Judo lhe ensinou.

Curiosamente, se pudesse escolher praticar outra modalidade, a escolha recairia sobre o wrestling – “tem algumas características semelhantes ao Judo, mas permite aprender técnicas e estilos diferentes”, explica, numa resposta que trai a curiosidade técnica de quem já não vê o Judo como uma bolha isolada, mas como parte de uma família mais alargada de desportos de combate. E há ainda um lado de si que poucos, fora do círculo mais próximo, conhecem: apesar de habituado à pressão da competição, descreve-se como uma pessoa bastante tranquila, que gosta de coisas simples fora do tatami.

O que vem a seguir

Com o cinto preto já garantido, Pedro não hesita quanto ao que quer agora: “agora quero focar no lado competitivo e alcançar os títulos que sempre quis.” É uma declaração de intenções que fecha o círculo desta história em aberto: começou aos 4 anos pela mão do pai, chegou ao 1º Dan por mérito próprio, e olha agora para o futuro com a mesma frase que o trouxe até aqui – nunca desistir, mesmo quando as coisas ficam difíceis.

Fica, para os leitores do IPPONZITO, o registo de mais um percurso que confirma aquilo que este projeto sempre quis mostrar: que por trás de cada cinto preto entregue num sábado de julho, em qualquer pavilhão do distrito, há uma história de anos – de pais que levam filhos ao tatami sem saber o que vai daí nascer, de treinadores que corrigem posturas ano após ano, e de jovens atletas como Pedro Costa, que decidem, a certa altura, que aquele objetivo ainda por cumprir vale bem a pena continuar a perseguir.