COMPETIÇÃO

A guerra dos pontos começou: dentro da corrida de dois anos por 372 vagas olímpicas

Desde 15 de junho de 2026, cada combate internacional de Judo deixou de valer apenas para o presente. Arrancou oficialmente o período de qualificação para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028, e com ele uma verdadeira guerra de pontos que vai durar dois anos, decidir 372 vagas e obrigar milhares de judocas – e […]

Por Ana Rodrigues 8 minutos de leitura
Skyline de Los Angeles ao anoitecer, cidade anfitriã dos Jogos Olímpicos de 2028
Los Angeles, cidade anfitriã dos Jogos Olímpicos de 2028, onde se vão decidir 372 vagas de Judo. Imagem: © Americanspirit/Dreamstime.com

Desde 15 de junho de 2026, cada combate internacional de Judo deixou de valer apenas para o presente. Arrancou oficialmente o período de qualificação para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028, e com ele uma verdadeira guerra de pontos que vai durar dois anos, decidir 372 vagas e obrigar milhares de judocas – e as suas federações – a escolhas cada vez mais apertadas.

O ESSENCIAL

Vagas totais em Los Angeles 2028: 372 (186 homens, 186 mulheres, em 14 categorias de peso)

Início do período de qualificação: 15 de junho de 2026

Primeiro torneio a contar pontos: Grand Slam de Ulaanbaatar, Mongólia (19 a 21 de junho de 2026)

Fim do período de qualificação: 12 de junho de 2028

Lista de ranking olímpico final: 15 de junho de 2028

Jogos Olímpicos de Los Angeles: 14 a 30 de julho de 2028

Como se repartem os 372 lugares

A maioria dos lugares olímpicos – 238, ou seja, mais de 6 em cada 10 – é atribuída por via direta: os 17 melhores atletas de cada uma das 14 categorias de peso na Lista de Ranking Olímpico da IJF, no final do período de qualificação, garantem lugar em Los Angeles. Há, no entanto, um limite importante – cada país só pode inscrever um atleta por categoria, mesmo que tenha dois ou mais no top 17; nesse caso, cabe à federação nacional escolher quem ocupa a vaga. Os restantes 134 lugares distribuem-se por quatro vias complementares, pensadas para garantir maior equilíbrio geográfico e a presença de todos os continentes na competição.

Via de qualificaçãoVagasCritério
Qualificação direta238Top 17 do Ranking Olímpico IJF, por categoria (1 atleta por país)
Quotas continentais104Rankings separados por continente (África, Europa, Ásia, Oceânia, Américas)
Convites por equipas mistas6Um por continente, mais um pelo ranking mundial de equipas mistas
Nação anfitriã (EUA)147 homens + 7 mulheres, um por categoria
Universalidade10Atribuídas via Comissão Tripartida do COI, a países com pouca representação olímpica

A guerra dos pontos: como se ganha (e se perde) uma vaga

É aqui que a corrida se torna verdadeiramente feroz. Os pontos não são todos iguais – um ouro num Mundial vale muito mais do que um ouro num torneio Open continental, e a diferença é enorme. Segundo a grelha oficial da IJF em vigor neste ciclo (2025-2028), um título mundial vale 2000 pontos, um título no Masters 1800, um ouro de Grand Slam 1000, um título continental 800, um ouro de Grand Prix 700 – e um ouro de Open continental apenas 100. Nos Jogos Olímpicos, o valor máximo sobe a 2200 pontos. Esta hierarquia obriga a escolhas: um judoca pode preferir arriscar tudo num Mundial, onde os pontos valem mais mas a concorrência é máxima, ou acumular presença constante em torneios menores, onde os pontos rendem menos mas são mais acessíveis.

Há ainda um segundo mecanismo que torna esta corrida uma verdadeira guerra de desgaste: os pontos não são eternos. Cada resultado vale 100% do seu valor durante os primeiros doze meses, cai para metade nos doze meses seguintes, e expira por completo ao fim de dois anos. Isto significa que um atleta não pode simplesmente “guardar” pontos conquistados no início do ciclo – precisa de continuar a competir e a somar resultados frescos até ao fim, em junho de 2028, sob pena de ver o seu ranking derreter semana após semana.

Duas fases, uma corrida

Florin Daniel Lascau, Diretor de Educação da IJF, ex-campeão mundial (1991) e antigo treinador de elite, resume assim a lógica destes dois anos: no primeiro ano, as federações dão oportunidade a muitos atletas, testando quem tem verdadeiro potencial olímpico – só em Ulaanbaatar, em 2026, estiveram 454 judocas de 58 países, quase o dobro dos 236 de 28 países do ano anterior. No segundo ano, a seleção torna-se muito mais apertada: o número de competidores desce, mas o nível sobe.

“Alguns judocas vão visar o top oito mundial para obter um sorteio mais favorável, embora nada seja garantido nos Jogos Olímpicos. Outros vão concentrar-se em assegurar a qualificação – e para alguns atletas, um único ponto pode decidir se realizam o sonho de participar nos Jogos.”
– Florin Daniel Lascau, Diretor de Educação da IJF

Há ainda uma última cambalhota, tantas vezes esquecida: nem chegar ao top 17 garante lugar nos Jogos. Em países com grande profundidade competitiva – Lascau cita Japão, Geórgia ou França –, é frequente haver dois ou mais atletas qualificados na mesma categoria, e nesse caso a decisão final cabe à federação nacional, que pode olhar para além do ranking: experiência, condição física, estilo de combate face a adversários concretos, e potencial real de medalha. Portugal já viveu esse tipo de dilema no passado, e nada garante que não volte a viver – sobretudo se o número de judocas portugueses no top mundial continuar a crescer.

Ulaanbaatar já escreveu o primeiro capítulo

O arranque, em pleno mês de junho, trouxe desde logo lições sobre a imprevisibilidade deste novo ciclo. Vários cabeças de série caíram cedo – a francesa Shirine Boukli, campeã europeia e número um mundial em -48kg, foi eliminada na segunda ronda, tal como a israelita Timna Nelson Levy em -57kg. Do lado masculino, o duplo medalhado olímpico Luka Mkheidze (França) saiu logo na estreia em -60kg. Mas foi o regresso de Uta Abe (Japão), pentacampeã mundial e campeã olímpica em Tóquio, que mais se destacou: depois de seis meses afastada da competição internacional, a japonesa voltou a parecer, nas palavras da IJF, “numa liga à parte”. O Japão fechou o primeiro dia com quatro medalhas de ouro – Wakana Koga, Uta Abe, Akari Omori e Takeshi Takeoka.

Nos dias seguintes, as categorias mais pesadas confirmaram por que continuam entre as mais espetaculares do Judo mundial: em +100kg, o sul-coreano Minjong Kim surpreendeu um lote recheado de estrelas para vencer o seu primeiro ouro de Grand Slam, deixando o campeão mundial em título, o russo Inal Tasoev, a lutar pelo bronze frente ao bicampeão olímpico checo Lukáš Krpálek. Em -100kg, o italiano Gennaro Pirelli conquistou a maior vitória da carreira num dia repleto de surpresas, enquanto Sanshiro Murao (Japão) confirmou a sua classe em -90kg, somando mais um título ao currículo. No lado feminino, a japonesa Mao Arai aproveitou um quadro aberto para bater a dominadora Romane Dicko (França) em +78kg, e a ucraniana radicada nos Emirados Yelyzaveta Lytvynenko travou a veterana francesa Audrey Tcheuméo em -78kg, prova de que, logo na primeira paragem da longa estrada até Los Angeles, nenhum favoritismo está garantido.

Portugal também já entrou na corrida

O Judo português não ficou de fora deste arranque. Patrícia Sampaio, a judoca de Tomar que o IPPONZITO tem vindo a acompanhar de perto, começou 2026 mesmo no topo: em janeiro, liderava a lista mundial de -78kg com 6450 pontos. Uma grave lesão no joelho esquerdo obrigou-a depois a uma longa paragem, mas o regresso, em agosto, foi auspicioso – bronze no Grand Slam de Lausanne, decidido no golden score frente à número um, que lhe valeu voltar a subir ao top 6 do ranking mundial, posição confortavelmente dentro da zona de qualificação direta caso a mantenha até ao final do ciclo, em junho de 2028. É exatamente este o tipo de resultado que, à luz da grelha de pontos e do seu prazo de validade, precisa de ser repetido regularmente para não se dissolver com o tempo.

Já Jorge Fonseca, bicampeão mundial em -100kg, vive um momento mais exigente do ciclo: depois de ter chegado a liderar o ranking mundial, uma fase de resultados irregulares fê-lo cair para posições bem mais modestas, tornando cada torneio, a partir de agora, decisivo para a reconstrução do caminho rumo a Los Angeles. Para atletas como Fonseca, a corrida de dois anos funciona como uma segunda oportunidade: com pontos antigos já perto de expirar, cada Grand Slam ou Grand Prix disputado a partir de agora pesa integralmente no ranking olímpico, e um regresso de nível pode reconstruir, ponto a ponto, uma posição perdida.

Dois anos, um objetivo

Aos poucos, torneio a torneio, a Lista de Ranking Olímpico vai-se definindo – e com ela, o mapa de quem vai a Los Angeles 2028. É uma corrida transparente e igual para todos, como sublinha a própria IJF: os árbitros não têm qualquer papel na qualificação, a sua única missão é garantir que cada atleta tem a mesma oportunidade no tatami. Mas é também uma corrida implacável, onde não chega vencer uma vez – é preciso voltar a vencer, mês após mês, até ao último ponto da lista final, em junho de 2028. Para os judocas portugueses, e para os que o Ribatejo acompanha com mais atenção, esta é a fase em que cada combate deixa de valer apenas para o presente e passa a construir, ponto a ponto, o futuro olímpico.

O que fica:
A qualificação olímpica de Judo para Los Angeles 2028 arrancou a 15 de junho de 2026, no Grand Slam de Ulaanbaatar, com 372 vagas em disputa até 12 de junho de 2028 – 238 por via direta (top 17 por categoria), 104 por quotas continentais, e as restantes por equipas mistas, nação anfitriã e universalidade. Os pontos valem mais nos Mundiais e Masters do que nos torneios menores, e perdem metade do valor ao fim de 12 meses, expirando aos 24 – o que transforma os próximos dois anos numa verdadeira guerra de desgaste. Patrícia Sampaio já está bem posicionada (top 6 em -78kg); Jorge Fonseca tem um caminho mais longo pela frente.

Nota de Referência

European Judo Union (eju.net) – “How to Qualify for Judo at the Olympic Games Los Angeles 2028”; International Judo Federation (ijf.org) – “Ulaanbaatar Opens the Olympic Race”, “The Art of Qualification: Two Years to Reach the Olympic Games”, “First Points, First Statements on the Road to Los Angeles”, “Understanding the 2026 IJF World Ranking Season”; Wikipedia – “IJF World Tour”; Comité Olímpico de Portugal; Jornal Record; Observador.