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Tiago Carrão: «Em Tomar, o Judo vai muito além da modalidade desportiva». O Presidente da Câmara fala de vinte anos de Estágio Internacional, do Pavilhão Patrícia Sampaio e de uma aposta que quer deixar legado

Do Estágio Internacional da AJDS, que celebrou 20 edições, ao Open de Cadetes, do pavilhão que desde 2025 tem o nome da medalhada olímpica ao mega treino de Judo Adaptado com Djibrilo Iafa, o Presidente da Câmara Municipal de Tomar explica em entrevista ao IPPONZITO porque considera o Judo uma das modalidades com melhor retorno […]

Por Ana Rodrigues 19 minutos de leitura
Três pessoas junto à placa do Pavilhão Municipal Patrícia Sampaio, em Tomar
Descerramento da placa do Pavilhão Municipal Patrícia Sampaio, em Tomar, a 8 de fevereiro de 2025.


Do Estágio Internacional da AJDS, que celebrou 20 edições, ao Open de Cadetes, do pavilhão que desde 2025 tem o nome da medalhada olímpica ao mega treino de Judo Adaptado com Djibrilo Iafa, o Presidente da Câmara Municipal de Tomar explica em entrevista ao IPPONZITO porque considera o Judo uma das modalidades com melhor retorno para o concelho, apresenta os números dos praticantes federados e deixa uma promessa: ninguém ficará sem desporto por falta de meios.

“Em Tomar, o Judo vai muito além da modalidade desportiva. É uma escola de valores, uma história de trabalho coletivo e uma porta aberta ao mundo. A medalha olímpica da Patrícia Sampaio mostrou aos nossos jovens que os grandes sonhos também podem acontecer aqui. O nosso compromisso é criar condições para que as próximas gerações possam ir ainda mais longe” – Tiago Carrão, Presidente da Câmara Municipal de Tomar

É raro um município reconhecer, em tantas palavras, que uma modalidade desportiva lhe dá mais nome do que o número de praticantes faria supor. Foi o que fez Tiago Carrão, Presidente da Câmara Municipal de Tomar, na grande entrevista que concedeu por escrito ao IPPONZITO – Magazine do Judo do Ribatejo. Em doze blocos temáticos, o autarca percorreu a relação da cidade com o Judo, o apoio institucional, o Estágio e o Torneio Internacionais, o turismo desportivo, o legado de Patrícia Sampaio e a visão para os próximos dez anos.

TOMAR E O JUDO EM NÚMEROS (SEGUNDO A CÂMARA)

• 20 edições do Estágio Internacional da AJDS em 2026, com mais de 200 atletas e treinadores de 5 países, em julho. Em 2021 reuniu cerca de 70 atletas de 2 países.

• 316 atletas de Judo federados em 2026 (217 benjamins), contra 276 em 2024 e 315 em 2025. O futebol tem 371.

• Mais de 150 atletas, com e sem deficiência, no mega treino de Judo Adaptado de 2026, orientado pelo medalhado paralímpico Djibrilo Iafa.

• 30 477,58 € investidos em cinco áreas de Judo (tatami): 4 em 2023 por 18 785,20 € e 1 em 2025 por 11 692,38 €.

• Pavilhão Municipal Patrícia Sampaio: nome atribuído por unanimidade em 2024 e placa descerrada a 8 de fevereiro de 2025.

Uma relação «construída de baixo para cima»

Para Tiago Carrão, a relação de Tomar com o Judo é antiga e foi feita a partir do movimento associativo. «O judo chegou a Tomar pela mão do movimento associativo, com os clubes a assumirem um papel determinante na formação de praticantes, e foi crescendo com uma regularidade que nem sempre é reconhecida no imediato», diz. O Município, afirma, acompanhou esse percurso com a cedência de instalações, apoio logístico e financeiro e a captação e o acolhimento de eventos internacionais. «Hoje temos uma relação madura, em que o concelho e a modalidade se reforçam mutuamente.»

A parceria com a Associação de Judo do Distrito de Santarém (AJDS) nasceu de uma necessidade concreta. «A AJDS precisava de um espaço com condições para os seus eventos de referência e Tomar tinha essas condições e acolheu o judo de braços abertos.» O que começou por ser uma cedência de instalações tornou-se uma parceria estável, com apoio logístico, à receção das delegações, à divulgação e com envolvimento institucional e financeiro. O autarca faz questão de sublinhar que o projeto não é bilateral: envolve também a Federação Portuguesa de Judo, a Universidade Politécnica de Tomar, a Junta de Freguesia de São João Baptista e Santa Maria dos Olivais, o Exército, o Regimento de Infantaria n.º 15 e empresas e patrocinadores locais.

Os três fatores que fazem de Tomar uma referência

Perguntado sobre o que faz de Tomar uma cidade de referência no Judo, o Presidente aponta três fatores que, diz, funcionam em conjunto. O primeiro é a formação: «existe em Tomar uma base de praticantes e um corpo técnico capaz de levar um atleta desde o início ao alto rendimento». O segundo é o equipamento, com o Pavilhão Municipal Patrícia Sampaio, o principal recinto desportivo coberto da cidade, com condições para provas e estágios de dimensão internacional. O terceiro é o território: localização central, boas acessibilidades e capacidade hoteleira e de restauração.

“Há duas décadas que o judo internacional tem em Tomar um ponto fixo no calendário” – Tiago Carrão

Sobre o lugar do Judo na estratégia desportiva do município, Carrão diz que a modalidade vai além do seu peso em número de praticantes porque cumpre três funções ao mesmo tempo: trabalha a formação de base, com centenas de crianças e jovens; tem expressão no alto rendimento, com Patrícia Sampaio como «prova viva»; e gera eventos capazes de atrair pessoas ao concelho. «Poucas modalidades reúnem estas três dimensões.»

O apoio da Câmara: pavilhão, áreas de Judo e um Contrato Programa

O apoio municipal assume, segundo o autarca, três formas, cada uma com peso próprio. Nas infraestruturas, o Município disponibiliza o Pavilhão Municipal Patrícia Sampaio e os restantes equipamentos para treino, provas e estágios, e assegura a manutenção, os consumos e as condições de utilização. No financiamento, o apoio é feito pelos instrumentos previstos para o associativismo desportivo, dirigidos à atividade regular dos clubes e à organização de eventos. Na organização de eventos, o apoio é financeiro e, sobretudo, operacional, o que, diz, «muitas vezes decide a viabilidade de uma iniciativa»: montagens, transporte e cedência de material, limpeza, sinalética, comunicação, articulação com forças de segurança e proteção civil e receção institucional às delegações.

Entre os investimentos recentes, o Presidente cita a aquisição de cinco áreas de Judo: quatro em 2023, por 18 785,20 euros, e mais uma em 2025, por 11 692,38 euros, num total de 30 477,58 euros. Mas considera que o investimento mais relevante é, e continuará a ser, o próprio pavilhão: «É ele que permite o estágio, o open, os campeonatos nacionais e o treino diário dos clubes.» Está também em desenvolvimento um Contrato Programa de Desenvolvimento Desportivo para apoiar atletas.

Quanto ao futuro, a prioridade é a conservação: instalações com bom conforto, segurança e eficiência, num trabalho que, nas palavras do autarca, «não dá manchetes, mas é o que sustenta tudo o resto». Estão previstas intervenções de conservação e beneficiação nos pavilhões municipais e escolares, incluindo o Pavilhão Patrícia Sampaio, e o Município prepara «um conjunto de projetos estratégicos e programas de apoio aos clubes e atletas» que serão apresentados a seu tempo.

Vinte edições de Estágio Internacional

O Estágio Internacional da AJDS celebrou em 2026 vinte edições, e é, para Tiago Carrão, o «ativo mais valioso de todos». «Significa que Tomar deixou de ser um destino ocasional para passar a ser uma referência no calendário.» Há atletas que vieram a Tomar em juvenis e hoje regressam como treinadores, e há clubes estrangeiros para quem julho em Tomar faz parte da rotina anual. Para uma autarquia, defende, esta fidelização vale mais do que qualquer evento isolado de grande dimensão, porque cria relação e não apenas notoriedade.

A EVOLUÇÃO DO ESTÁGIO INTERNACIONAL

• 2021, ainda sob o efeito da pandemia: cerca de 70 atletas de 2 países.

• Anos seguintes: regularmente mais de 200 atletas e treinadores, de 5 países e várias dezenas de clubes.

• Orientação técnica de nomes de topo do judo mundial, do japonês Yoshiyuki Hirano ao brasileiro Flávio Canto e ao ucraniano Georgii Zantaraia, campeão do mundo.

• 2026: 20.ª edição, com um mega treino de Judo Adaptado.

A receção às delegações faz-se com presença e com logística. O Presidente destaca a presença institucional nas sessões de abertura e a receção nos Paços do Concelho às delegações e à equipa técnica, o trabalho menos visível de articulação com a organização, a hotelaria e os serviços municipais, e o acolhimento, com material de promoção turística e o convite para que atletas e famílias conheçam também o património e o centro histórico. A ambição do Município é dupla: consolidar o que existe, porque «a regularidade é frágil e exige trabalho», e ajudar a AJDS a alargar o número de países representados e a aprofundar o Judo Adaptado, «o traço mais distintivo das edições recentes».

O Open de Cadetes: competir em casa contra o mundo

O Open Internacional de Cadetes surgiu como complemento natural do estágio. «Se a cidade já reunia, em julho, atletas de vários países, fazia todo o sentido acrescentar uma prova competitiva que desse sentido desportivo a essa concentração e permitisse aos jovens medir-se com adversários que não encontram no calendário nacional.» A iniciativa é da AJDS, e o Município acolheu-a desde a primeira hora, com o pavilhão e o apoio necessário.

No plano desportivo, diz Carrão, o torneio traz exigência: os jovens do concelho competem em casa contra estrangeiros, uma experiência formativa que de outro modo obrigaria a viajar, com custos incomportáveis para muitas famílias. No plano da visibilidade, traz um dia de cidade cheia e leva Tomar aos canais de comunicação do judo europeu. A ambição de crescimento deve ser definida pela AJDS, organizadora, e o Município acompanhará o que for tecnicamente sustentável. Para o autarca, o crescimento mais interessante é o da qualidade e da diversidade de países, bem como a consolidação do formato de equipas mistas, e não necessariamente o do número de atletas: «Crescer bem é tão ou mais importante do que crescer depressa.»

Tomar já acolheu também o Campeonato Nacional de Juniores de Judo e, noutras modalidades, recebeu por duas vezes a Final Four da Taça de Portugal de hóquei em patins, a primeira em 2023, com vitória do Sporting Clube de Tomar em casa. O Município diz estar disponível para receber mais competições federativas e internacionais, desde que haja capacidade instalada e uma organização credível: «O Município não substitui os agentes desportivos, cria condições e dá-lhes ferramentas para que eles possam ser ambiciosos.»

O Judo como escola: inclusão que «deixou de ser intenção»

Para o Presidente da Câmara, o valor educativo do Judo é «muito elevado, e diria que superior ao da média das modalidades». «O respeito está enraizado na modalidade, como se vê nos gestos. Cumprimenta-se antes e depois, cuida-se do adversário na projeção, aceita-se a derrota em silêncio.» Para uma criança, resume, é uma escola de disciplina e de limites que se transporta para a sala de aula e para casa, e uma modalidade individual praticada em grupo, que obriga a uma responsabilidade pessoal sem perder o convívio.

A inclusão, em particular, passou da intenção à prática. Na edição de 2026 do Estágio Internacional realizou-se um mega treino de Judo Adaptado, orientado pelo medalhado paralímpico Djibrilo Iafa, que juntou mais de cento e cinquenta atletas, com e sem deficiência, no mesmo tatami. Foi apresentado como o maior treino de Judo Adaptado alguma vez integrado num estágio internacional em Portugal, e aconteceu em Tomar. «Para uma autarquia, ver um equipamento municipal a servir esse propósito vale tanto como alcançar uma medalha.»

Os números do Judo em Tomar

Um dos contributos mais valiosos da entrevista são os números dos atletas federados, reportados pelos clubes nas candidaturas ao Programa de Apoio ao Associativismo. O Judo cresceu de 276 atletas federados em 2024 para 315 em 2025 e 316 em 2026, e está no top 3 das modalidades com mais praticantes no concelho. O futebol tinha, em 2026, 371 atletas federados.

ATLETAS DE JUDO FEDERADOS EM TOMAR

• 2024: 276 atletas, dos quais 207 benjamins.

• 2025: 315 atletas, dos quais 243 benjamins.

• 2026: 316 atletas, dos quais 217 benjamins.

• Cálculo do IPPONZITO: o total subiu 14,5% entre 2024 e 2026 (mais 40 atletas) e os praticantes fora do escalão de benjamins passaram de 69 para 99, um aumento de 43%.

O Presidente nota ainda o efeito das grandes competições nos clubes: «pais a procurarem inscrever os filhos nas semanas seguintes». E recusa a ideia de que o Município distribua apoios por modalidade: «Distribui-os por projeto.» Avalia o trabalho de formação, o número de praticantes, o enquadramento técnico e a capacidade de organização. Mesmo assim, diz, se a comparação for feita em termos de retorno, o Judo «apresenta uma relação particularmente favorável entre o esforço municipal e a projeção que devolve à cidade». Não é a modalidade com mais praticantes, mas «é uma das que mais nome dá a Tomar», sem retirar mérito ao hóquei em patins, ao futebol ou às restantes.

Turismo desportivo: dormidas, refeições e «marketing territorial»

O retorno económico dos eventos de Judo, diz Carrão, é «direto e concentrado»: vários dias seguidos, em julho, com mais de duas centenas de atletas e treinadores, muitas vezes acompanhados por famílias, o que se traduz em dormidas, refeições, comércio local e deslocações. Não existe estudo formal, mas estão em causa várias centenas de dormidas em poucos dias. E é um público que regressa, muitas vezes em férias com a família. Para a imagem da cidade, o autarca chama-lhe marketing territorial: Tomar aparece associada a uma prática de excelência em publicações e redes de cinco países, um valor que, afirma, «dificilmente compraríamos em publicidade».

Tomar tem uma vantagem competitiva, defende: poder oferecer, no mesmo pacote, desporto de alto nível e um dos conjuntos patrimoniais mais importantes do país. «Quem vem treinar quatro dias tem no horizonte um Património Mundial da UNESCO.» O modelo, diz, já está a ser replicado noutras modalidades: a ginástica acrobática com o Toneca AcroCup, o hóquei em patins com a Final Four da Taça de Portugal, o basquetebol com o Torneio 3×3 Interseleções distritais, o ciclismo com o Granfondo do Médio Tejo e o trail com os Trilhos dos Templários, o Trail do Vale e o Trail Solidário.

Patrícia Sampaio: «o maior feito de sempre do desporto tomarense»

É o bloco que o IPPONZITO descrevia como o mais forte da entrevista, e o Presidente não se poupa a palavras. Tomar esteve representada em todas as edições dos Jogos Olímpicos desde 2004, com Nuno Merino em 2004 e 2012, Ana Rente em 2008, 2012 e 2016, e Patrícia Sampaio em 2021 e 2024. Mas a medalha de bronze de Paris 2024 é, para Carrão, «o maior feito de sempre do desporto tomarense, e digo isto sem qualquer exagero».

A judoca nasceu em Tomar, em 1999, formou-se na Sociedade Filarmónica Gualdim Pais, seguiu os passos do irmão Igor, que é hoje o seu treinador, e chegou ao pódio olímpico na categoria de -78 kg, na primeira medalha de Portugal nesses Jogos. «Para um concelho da nossa dimensão, ter alguém que percorreu todo esse caminho e que ainda hoje se mantém atleta do mesmo clube em Tomar é a demonstração prática de que o talento não precisa de nascer ou ir para uma grande cidade para chegar ao mais alto nível.»

“Tomar parou para ver, festejou como se a medalha fosse de todos, e em certo sentido era mesmo” – Tiago Carrão

O efeito mais importante, afirma, é interno: «passou a ser normal, para uma criança de Tomar, imaginar-se num pódio olímpico, porque tem alguém da terra que lá esteve. Isso muda a ambição de uma geração inteira.»

RECONHECIMENTO PÚBLICO A PATRÍCIA SAMPAIO EM TOMAR

• Medalha Municipal de Valor Desportivo (2019) e Medalha de Honra do Município (2025): é a única personalidade duas vezes distinguida nas cerimónias do Dia de Tomar.

• Em agosto de 2024, a Câmara deliberou por unanimidade dar o seu nome ao então Pavilhão Municipal Cidade de Tomar.

• A placa foi descerrada a 8 de fevereiro de 2025, durante o Campeonato Nacional de Juniores, com a atleta, a família, a FPJ e a AJDS.

• Apoio estrutural às condições de treino e aos clubes formadores, apoio financeiro direto a atletas de alto rendimento do concelho e, em preparação, o Contrato Programa de Desenvolvimento Desportivo.

Sobre o que significaria uma medalha ou a qualificação para Los Angeles 2028, o Presidente prefere a prudência. «A qualificação, só por si, já seria notável, e convém não banalizar aquilo que a Patrícia tem feito», lembrando que foi campeã da Europa em 2025, subiu ao pódio em Campeonatos do Mundo, chegou ao 1.º lugar do ranking mundial e regressou este ano à competição, depois de uma paragem prolongada, com uma medalha logo no regresso. Uma medalha em Los Angeles seria a consagração de décadas de dedicação à modalidade. «Mas quero deixar claro que o que todos esperamos é que faça o seu caminho com saúde e felicidade.»

Ao falar do impacto do Judo na imagem de Tomar, Carrão disse que o reconhecimento é sólido e «não se apaga com uma época eventualmente menos boa». No Mundial de Baku, em outubro, Patrícia Sampaio terminou em 5.º lugar em -78 kg, a um combate do pódio, depois de seis meses parada por uma lesão grave no joelho, segundo a imprensa nacional.

Critérios, estratégia e a cidade que aposta no desporto

O desporto é, para o Município, uma «aposta estratégica» e, diz o Presidente, usa a palavra com rigor: é saúde pública, coesão social, ocupação de jovens, dinamização económica e promoção do território. Entre as modalidades com maior relevância na estratégia municipal cita o hóquei em patins, pela projeção nacional, o futebol, pela dimensão da base, e as modalidades com forte componente de formação, como a ginástica, o basquetebol, a natação e o atletismo.

OS CRITÉRIOS DA CÂMARA PARA APOIAR CLUBES, MODALIDADES E EVENTOS

• Regularidade da atividade ao longo do ano e número de praticantes envolvidos.

• Trabalho com escalões de formação, enquadramento técnico e condições de segurança.

• Sustentabilidade da entidade e transparência das contas, por se tratar de dinheiro público.

• No caso dos eventos, o retorno para o concelho, seja desportivo, social ou económico.

«O que procuramos evitar é que o apoio dependa da subjetividade de quem decide, e é para isso que servem as regras», explica. Quanto ao posicionamento de Tomar face a outras cidades que apostam no alto rendimento, a resposta é «com realismo e sem complexos»: não competem em infraestrutura nem em orçamento com as grandes cidades, mas sim no acolhimento, na proximidade, na localização central e na capacidade de resposta rápida. «Uma associação que traz um evento para Tomar fala diretamente com quem decide, e isso, em muitos sítios, não acontece.»

Legado e futuro: «Tomar não pode depender de uma única atleta»

Daqui a uma geração, o Presidente gostaria que se dissesse duas coisas: que durante décadas houve um concelho em Portugal onde, todos os verões, uma geração inteira de judocas europeus se cruzou no mesmo tatami, e que esse concelho é Tomar, e que dali saiu uma atleta que chegou ao pódio olímpico e que isso não ficou como episódio isolado, porque abriu caminho a outros. Sobre se o Judo faz já parte da identidade da cidade, é prudente: «a identidade de uma terra não se decreta, sedimenta-se». Mas regista que o principal recinto desportivo da cidade tem hoje o nome de uma judoca, «uma inscrição no espaço público que as próximas gerações vão herdar sem sequer questionar».

A VISÃO DA CÂMARA PARA OS PRÓXIMOS 5 A 10 ANOS

• Consolidar: garantir que o Estágio e o Open Internacional continuam em Tomar, com condições cada vez melhores.

• Alargar a base: mais crianças a experimentar Judo na escola e mais transições da escola para o clube.

• Preparar a sucessão: Tomar não pode depender de uma única atleta, por isso o investimento tem de estar na formação e nos treinadores.

• Meta: dois ou três atletas do concelho em seleções nacionais daqui a dez anos.

Sobre o papel do Judo na forma como os jovens de Tomar se veem a si próprios, Carrão diz que a modalidade ensina «que se cai, que se levanta e que ninguém é menos por perder». E junta o exemplo próximo: um jovem de Tomar sabe que a medalhada olímpica treinou no mesmo sítio onde ele treina, que o treinador dela é o irmão, e que esta geração é fruto do trabalho de muitos treinadores locais. Tudo isso, afirma, «desmonta a ideia de que o sucesso é coisa que só acontece noutro lado e a outras pessoas».

Mensagens finais

Aos jovens judocas de Tomar e da região, o Presidente deixa um apelo à persistência:

“Não desistam à primeira derrota, nem à segunda. Não desistam. E não tenham pressa. Vocês estão no sítio certo” – Tiago Carrão, aos jovens judocas

Lembra que o exemplo de Patrícia Sampaio é o resultado de muitos anos de trabalho e sacrifício, que treinou em instalações que não tinham as condições de hoje e que teve lesões graves, paragens longas e regressos difíceis, «mas nunca desistiu». À própria atleta, deixa uma mensagem de apoio sem condições:

“Tomar está com a Patrícia, sempre, e não apenas quando há medalhas” – Tiago Carrão, a Patrícia Sampaio

«Ganhe ou não ganhe em Los Angeles, continuará a ser motivo de orgulho e inspiração para os tomarenses.» Às famílias, pede que inscrevam os filhos mesmo que não sonhem com pódios: o Judo «devolve-lhes uma criança diferente, mais disciplinada, mais capaz de lidar com a frustração e mais respeitadora dos outros», e os treinadores do concelho, muitas vezes voluntários, merecem confiança e reconhecimento. O seu desejo pessoal para o desporto na cidade resume a filosofia da entrevista: que nenhuma criança de Tomar deixe de praticar desporto por falta de meios económicos, de mobilidade ou outros. «Se tivermos centenas de crianças a praticar, teremos atletas de alto nível. O contrário nunca funcionou em lado nenhum.»

O que fica:
Um presidente de câmara que fala de Judo com números, datas e responsabilidade: 20 anos de estágio, um pavilhão com o nome de uma olímpica, 316 atletas federados e uma meta clara para a próxima década. A parceria com a AJDS, que a Câmara descreve como estável e de confiança, é a base de tudo.

Nota de Referência

Entrevista realizada, por escrito, a Tiago Carrão, Presidente da Câmara Municipal de Tomar, para o IPPONZITO – Magazine do Judo do Ribatejo. Os números, datas e valores indicados são da responsabilidade do entrevistado e não foram verificados de forma independente pela redação, à exceção do resultado de Patrícia Sampaio em Baku, confirmado em “A Bola” e no “Diário de Notícias”. Os cálculos assinalados são do IPPONZITO.